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O drama de ser professor na Coreia

O drama de ser professor na Coreia

Antes que o leitor se sinta enganado pelo título, já aviso: a história não é tão dramática assim. Não tem professor vendendo o almoço pra pagar o jantar. Não tem professor apanhando de alunos violentos. Não tem professor apanhando da polícia. Não tem negociação humilhante para aumentar salários miseráveis. Não tem escola fechando.

Até porque não vou falar da educação básica, mas sim da minha situação, como professor universitário. Completo três anos de ensino de português na HUFS, mas estou saindo para sentar de novo na cadeira de estudante e desengavetar meu doutorado. Por isso achei que o momento merecia uma reflexão/desabafo.

Essa semana preciso fechar as notas dos meus alunos, e aí vem meu drama. As universidades têm um sistema de notas que considero extremamente infantil e cruel: o sistema de notas relativas. O que é isso? É um sistema que te diz a proporção de alunos "A", "B", "C" e "D" que você pode ter. Ou seja, as notas, na maioria dos casos, são fictícias e não correspondem à realidade. Você pode tirar 91 no semestre, mas ganhar um conceito "C" porque relativamente sua nota foi menor que o resto da turma. E também pode ganhar um "A" com 75 pontos, se você foi melhor que o restante. Ponto, aqui, serve só pra ranquear os alunos, mais nada.

Se você é um professor com um mínimo de sensibilidade, sente uma dor imensa ao dar as notas, porque: 1) aqui não tem universidade gratuita, e as bolsas são concedidas, em grande parte, pelas notas; 2) depois de formados, os alunos são selecionados pelas empresas que também consideram suas notas na faculdade; 3) a nota é um rótulo levado muito a sério na Coreia, o que pode incentivar mas também desestimular completamente um aluno com potencial.

E sabe qual é o efeito disso no ambiente universitário? Muita competição e pouca cooperação. Colega que dedura colega que não faz muito no trabalho em grupo. Movimentação entre turmas como cardumes fugindo de predadores na primeira semana de aula, de gente procurando as turmas com competição mais branda pra ter melhores chances de tirar "A". O aprendizado fica em segundo plano, porque o negócio é tirar nota boa.

Se você é um estrangeiro estudando numa universidade coreana, talvez isso passe um pouco despercebido, porque nas regras de notas relativas existem exceções. Uma delas é o aluno estrangeiro, que não entra na curva. Claro que a rigidez depende da matéria e do professor, mas em geral essa situação é bem mais tranquila para os estrangeiros.

Mas e aí, como é que a gente acaba com esse sistema? Meu amigo, só uma revolução estudantil. O que, num país sem movimento estudantil forte, me parece improvável. A mera decisão de uma universidade em eliminar o sistema relativo de notas não resolve nada, porque os professores também estão tão viciados, que muitos sairiam distribuindo "A" a torto e a direito. Afinal, mais "A", mais chance de conseguir emprego, certo? Nem tanto. As grandes empresas têm estatísticas de proporção de notas por universidade, assim eles podem saber se um "aluno A" de determinada universidade realmente é "A" ou foi generosidade demais dos professores. Chega a ponto de virar notícia do telejornal das oito: "Universidade X é acusada de inflacionar o número de 'A's"... Tá vendo como a mudança precisa ser mais profunda?

Então, agora que desabafei, deixa eu voltar aqui pro fechamento das minhas notas, rotular gente que não merece como "C", ouvir o choro e tocar minha vida.

Beijos, abraços.

Seria a PUST uma semente para mudança na Coreia do Norte?

Seria a PUST uma semente para mudança na Coreia do Norte?

O projeto de construção da PUST (sigla em inglês para Universidade de Ciência e Tecnologia de Pyongyang) começou em 2001, quando havia uma grande expectativa entre os sul-coreanos de que haveria uma reaproximação rápida com os irmãos do Norte. Seu fundador, Prof. Kim Chin-kyung (ou James Kim), é uma figura interessante: nasceu em Seul em 1935, estudou Economia em Londres e na Flórida, e tem cidadanias americana e chinesa. Em 1992, ele fundou a YUST (Universidade de Ciência e Tecnologia de Yanbian), numa região chinesa de maioria étnica coreana.

O corpo docente da PUST é formado por acadêmicos sul-coreanos, americanos e de outras nacionalidades, e as aulas são todas em coreano ou inglês. A universidade é mantida em parte pelos governos do Sul e do Norte, mas em sua maioria por grupos cristãos que apoiam a causa do Prof. Kim, um cristão devoto. Ele jura que tem total liberdade em seu trabalho, mas os professores sabem que precisam ter muito cuidado no desenvolvimento curricular. Uma simples aula de Introdução à Economia pode ser mais complicada, pois a lógica ocidental não faz sentido no país.

Primeira turma de formandos da PUST 

Alunos e professores numa sala de aula da PUST

Professores numa Conferência Internacional na PUST

Contudo, a principal questão é se a PUST pode realmente gerar o resultado que almeja: mudança. Inaugurada em 2010, a universidade ainda tem poucos formandos, e pode demorar muito para que esses jovens cheguem a posições de liderança no país. E, ainda que cheguem, que poder (e vontade) eles teriam para mudar o sistema atual? Se o próprio Kim Jong-un, que foi educado na Suíça, ainda não demonstrou disposição para mudar o

status quo

, não dá para esperar muito.

O documentário "Educando a Coreia do Norte" mostra como o controle da informação é forte por lá. Vigias ficam de ouvidos em pé o tempo todo, e interrompem quando acham que as conversas podem gerar questionamentos provocadores. Uma das professoras estrangeiras foi demitida semanas depois do documentário ser filmado, e entrou para a lista negra do governo por "falar demais o que pensa". Apesar de tudo, alguns professores acreditam que o simples contato com eles no dia-a-dia gera um resultado positivo à medida em que os alunos vão criando mais confiança para falar. 

Aí cada norte-coreanista (amador ou profissional) tem seu ponto de vista. Engajar ou confrontar, qual a melhor abordagem?

Bolsa de mestrado em IT, IR ou IF na Sogang

Aproveitando a onda de posts sobre bolsas de estudo, aqui vai mais uma. Esta, na verdade, é uma dica de bolsa que fica meio escondida por aqui. A universidade Sogang (em Seul) tem um departamento de pós-graduação em estudos internacionais (GSIS) que oferece algumas bolsas para quem for aceito. Existe pouca informação disponível na internet sobre essas bolsas, então pelo jeito você tem que ligar ou enviar um email para o departamento para saber detalhes.

No entanto, até pouco tempo atrás, uma das bolsas para mestrado era restrita somente para três nacionalidades: brasileira, sul-africana e nigeriana. A bolsa se chama Haesong e é concedida pela empresa de cargas em navios Daeyang. Parece que eles queriam investir em pessoas capazes de fazer essa ligação entre a Coreia e seus países de origem, praticamente garantindo um emprego depois de finalizado o mestrado (que pode ser em Comércio Exterior (IT), Relações Internacionais (IR), Finanças Internacionais (IF) ou Estudos Coreanos e Asiáticos).

Só que recentemente a restrição das nacionalidades desapareceu no site, e agora só dizem que dão cerca de 10 bolsas por ano. Pelo que me falaram, nenhum brasileiro ganhou essa bolsa, provavelmente porque nenhum brasileiro se candidatou. Por isso, para aqueles que dizem que querem estudar na Coreia, é só procurar, pesquisar, ligar e perguntar nos departamentos das universidades, porque há mais oportunidades de estudo do que é geralmente divulgado.

Então, se isso te interessa, entre em contato com o GSIS da Sogang (só para mestrado, hein!) e tire suas dúvidas. O telefone deles é +82-2-705-8753 e o email é gsis@sogang.ac.kr. Boa sorte!

Oportunidade de bolsa na KDI

Recebi um email do quase-embaixador Daniel Fink, divulgando mais uma oportunidade de bolsa para mestrado ou doutorado na Coreia do Sul.

O documento que ele me enviou (também postado no blogue da Lena) se refere à KDI, uma universidade especializada em Administração e Políticas Públicas. Ideal para quem trabalha ou quer trabalhar para o governo.

O nome da bolsa para a qual brasileiros podem se candidatar é "Global Ambassador Fellowship", e além de pagar todos os custos com o estudo, ainda dá uma mesada de cerca de 880 dólares. Mas para isso, os interessados devem se candidatar para um programa específico (mestrado ou doutorado) na KDI.

Divulguem esta oportunidade. Já disse aqui e repito que acho um absurdo algumas oportunidades de bolsa de estudos acabarem nas mãos dos chineses porque os benditos brasileiros têm medo de vir pra Coreia.

Tem uma outra universidade em Seul, a Sogang, que tinha uma bolsa só para brasileiros, sul-africanos e nigerianos. Quem patrocinava era uma empresa que faz navios que se chama Daeyang, mas ouvi dizer que nenhum brasileiro se candidatou para a tal bolsa, e agora já até tiraram a exclusividade dessas nacionalidades.

Então, pessoal que quer fazer mestrado, abram os olhos (e a cabeça) para as oportunidades no exterior! Morar na Coreia às vezes mata a gente de raiva, mas garanto que na maior parte do tempo aqui é bom de se viver.

Showzinho nas eleições estudantis


O que você faria para eleger sua chapa e representar os estudantes da sua universidade? Aqui na Coreia se faz de tudo. Repito. De tudo!

Ano passado, quando eu morava em Cheongju, mais ou menos nessa época do ano vi cenas inacreditáveis no campus da universidade de lá. O pessoal vestia umas roupinhas coloridas, e homens e mulheres rebolavam mais do que a Carla Perez no seu auge. Não é exagero, tô falando sério. No dia em que ganharam as eleições, os homens vestiram roupas de Power Rangers e as mulheres de Wonder Girls (detalhe: minissaia com as pernas de fora num frio de zero grau) e dançaram num palco pra comemorar a vitória.

Mas como não tirei foto ou gravei vídeo, não insisti muito nessa história porque poderiam pensar que sou maluco, e eu mesmo acabei acreditando que o que vi era miragem coreana. E também achei que fosse coisa do interior da Coreia, que só numa "roça" como Cheongju essas coisas aconteciam. Mas agora que já nem lembrava disso, começaram as eleições de novo! Esse povo tá em todo canto da universidade Kyung Hee pagando altos micos. Ontem de manhã dei a sorte de estar com a minha câmera na hora. Gravei essa cena no ponto do ônibus interno do campus aqui de Suwon, quando o estava esperando para ir para a aula às 8 e meia da manhã (note que a gravação acaba quando chega um ônibus).

O mais interessante é a indiferença dos estudantes coreanos com esses showzinhos. Ninguém ri, ninguém se entreolha com cara de "Jesuiiis!", nada. Como mostrei aqui outro dia, com a pagação de mico nas ruas pra fazer propaganda de soju ou qualquer outra coisa, coreano já cresce acostumado com essas bizarrices. E eu me divirto! ^^


http://www.youtube.com/watch?v=NAuex6Lh07M

Vai estudar, vagabundo!

Finalmente acabaram-se os mid-terms! Eu não tava aguentando mais o clima de provas. E isso é engraçado, porque não me lembro de ficar tão estressado e preocupado por causa de simples provas. Mas aqui todo mundo estressa, e parece que isso pega.

Os jovens coreanos têm seus motivos: muitos deles dependem de bolsas do departamento para estudar, e essas bolsas são limitadas aos que conseguem as melhores notas. Além disso seus pais fazem uma pressão gigantesca para que eles sejam "bem-sucedidos" na vida. Lembro do Yosep que, nas férias, resolveu estudar todo dia para passar numa prova lá. Ele ia pra biblioteca às 8h da manhã e voltava 10h da noite, e a mãe dele dizia que ele não estava se dedicando o suficiente porque no domingo ele queria descansar!

Outro motivo é que os coreanos são estressados por natureza. Às vezes não parece, é aquele estresse contido, mas a verdade é que o clima é de "fazer o que for preciso pra vencer na vida". Tem que acertar, e tem que ser ppalli ppalli (rapidinho!). E num país onde mais de 80% dos jovens entram na universidade, já dá pra imaginar a competição.



<- Foto de uma das muitas salas de estudo da biblioteca aqui da universidade

Mas o que dá mais dó é que, na minha opinião, a maioria dos coreanos não sabem estudar. Eles gastam muitas horas mas não aprendem eficientemente. A palavra memorizar é a mais usada. Ninguém estuda para entender e aplicar o conhecimento na sua carreira ou futura carreira. O professor fala o que vai cair na prova e a turma corre pra decorar as respostas. Ganha quem tiver comido mais das fedorentas ginco-bilobas e tiver boa memória. Numa matéria nossa, por exemplo, o professor falou que na prova ele escolheria 10 questões do nosso livro, exatamente como estavam lá. No total eram 120 questões. Aí o que o pessoal fez? Desesperaram para memorizar as 120 respostas, sendo que eram perguntas abertas, com respostas grandes e que exigiam raciocínio e uma boa compreensão do conteúdo!

E a lógica de muitos deles não faz sentido. Principalmente para um brasileiro. Eles varam a noite na biblioteca, lendo e relendo e lendo de novo a mesma coisa. Mas o que me assustou mesmo foi saber que, tendo prova às 9h da manhã, muitos estudaram até as 5h ou 6h, tiraram um cochilo, e foram fazer a prova! Alguns dormiram no departamento, que fica aberto 24 horas.


A foto ao lado é um exemplo disso. Cheguei na sala mais cedo, antes da prova, umas 8h da manhã (a primeira prova era às 9h) e essa menina já estava lá. Ela me contou que dormiu por lá, pra ver se estudava o máximo possível! Eu canso de brigar com esse povo... eu falo pra eles relaxarem, que isso não adianta, que só piora a situação, que o melhor a se fazer é dormir muito bem na noite anterior para o cérebro estar 100% no dia seguinte... que nada! Alguns até dizem: "acho que você tá certo..." mas continuam com "...só que na Coreia é muito difícil mudar isso..."

Então, apesar de "pegar" um bocado do estresse desse clima na época das provas, eu fico feliz por ser um estrangeiro aqui. Assim não sofro as mesmas pressões que os pobres coreanos, e posso usufruir melhor das coisas boas que esse país tem a oferecer.

PS: Queria saber o que vocês acham disso. Brasileiro em geral é meio suspeito para criticar esse sistema, porque quem estuda metade do que esse povo estuda aqui já é considerado "brilhante". Mas em algumas áreas no Brasil, como nos concursos públicos, a competitividade e o decoreba também rolam soltos e se parecem muito com o que a turma passa aqui, só que a vida toda. Vale a pena o sacrifício?

Você tem um amigo coreano?

Lá vou eu varando a madrugada, preparando trabalho para apresentar e lendo livros e mais livros até virar o "zóio". Exatamente como previsto... Mas pra eu não ficar louco com menos de um mês de aula, uma passadinha aqui no blogue sempre me faz bem. Principalmente quando vocês, queridos leitores, estão inspirados para comentar. Já os preguiçosos que nem dão sinal de vida, aqui vai um puxãozinho de orelha: comenta aí, ô trem!


Bom, o assunto na verdade é outro. Muita gente me pergunta se tenho muitos amigos coreanos. Já vi um artigo do Caruso em algum lugar fazendo a mesma pergunta, só que com os japoneses. E a resposta é sempre difícil, a começar por uma questão linguística: a palavra que corresponde a "amigo" - em coreano chingu (친구) - é muito mais restrita na língua coreana. Ela se refere apenas às pessoas que têm a mesma idade que você, independentemente se vocês são superchegados ou apenas colegas de faculdade. Por isso é muito comum, ao conversar com um coreano em inglês ou outra língua, e perguntar "Ele é seu amigo?" e o cara responder "Não, é meu 'irmão mais velho'" (detalhe: vocês não têm qualquer parentesco, se conhecem há 10 anos, saem juntos nos fins de semana e trocam confidências, mas não são "amigos").

Em compensação há uma variedade imensa de outras palavras para definir especificamente qual a relação entre a pessoa e você no que diz respeito à idade.

Em português, por exemplo, a gente tem tio e tia né? Em coreano tem uma palavra para tio-irmão-mais-velho-do-meu-pai, tia-irmã-mais-velha-da-minha-mãe, tio-irmão-mais-novo, e por aí vai...

A mesma coisa para primo: as palavras são diferentes se for primo mais velho ou mais novo, se for homem ou mulher.

E como é que fica o amigo então?

Se é da mesma idade, é chingu (친구), para homem e mulher.
Se você é mulher, seu amigo mais velho é seu oppa (오빠), que também significa "irmão mais velho (de mulher)".
Se você é mulher, sua amiga mais velha é sua onni (언니), ou "irmã mais velha (de mulher)".
Se você é homem, seu amigo mais velho é seu hyeong (형), ou "irmão mais velho (de homem)".
Se você é homem, sua amiga mais velha é sua nuna (누나), ou "irmã mais velha (de homem)".

E a regra é rígida: vale para todos os coreanos, mesmo que seja apenas um ou dois anos mais velho. Com esses, não se recomenda usar linguagem informal - mas eles podem usar linguagem informal com você. Se vocês são íntimos, pode até ser mais informal, mas o título depois do nome sempre tem que ser dito. Se o cara se chama Cholsu e é mais velho que eu, tenho que chamá-lo de "Cholsu Hyeong", e as meninas de "Cholsu Oppa", e nunca somente o nome.

Os estrangeiros têm o benefício da isenção na Coreia. Se a diferença de idade não for muito grande, eles toleram a "falta de respeito", e os mais novos podem te chamar só pelo nome também. Mas se você quiser imergir na cultura coreana, é bom entrar na dança.

Estou contando isso, porque desde que minhas aulas começaram no mestrado é que senti que eu entrei na dança de vez. Isso porque antes eu só estudava com outros estrangeiros, e não passava o dia inteiro com coreanos como agora.

Agora já vi que se eu não chamar meus amigos mais velhos de "hyeong", eu perco moral com os caras. Como dizia o Yosep, se não mostrar respeito, "o coração dói" (마음이 아프다)! E como os coreanos (homens) perdem muito tempo servindo o exército, a maioria dos meus colegas homens são mais velhos do que eu.

A vantagem é que as meninas são quase todas mais novas, o que significa que eu sou o Rique Oppa (히키오빠) delas!^o^ E não é que estou gostando desse negócio? Mostrar respeito com os amigos mais velhos é um saco, mas quando você é respeitado a coisa muda. O pronome de tratamento parece que te dá poderes especiais, e mostra que ficar velho, pelo menos na Coreia, tem lá seus benefícios...

Hierarquias, aqui e aí

O Juliano já tinha me avisado que isso aconteceria, mas não imaginei que fosse tão rápido.

(Parêntese introdutório para o comentário final: ontem tivemos um workshop, no qual uma professora canadense nos ensinou como fazer apresentações e discursos num ambiente internacional. Além de todas as lições de retórica, ela mencionou a importância de se conhecer o público a quem se fala - sua cultura, religião, etc -, caso o grupo seja homogêneo. Lá pelas tantas, ela exemplifica com a cultura coreana, dizendo que, de acordo com uma pesquisa, ocupa o segundo lugar em nível de hierarquias nos tratamentos interpessoais. Até aí tudo bem. O problema foi quando ela continuou: "...ficando atrás apenas do Brasil." Parêntese fechado temporariamente.)

Ainda ontem, uns 10 alunos do departamento, incluindo eu (foto abaixo), recebemos uma mensagem no celular convidando para jantar com os professores Kwak e Bae. Graças a Deus (que é brasileiro) fomos a um restaurante comer samgyeopsal, que é o churrasco coreano, o qual não tenho frescura nenhuma pra comer - muito pelo contrário.

Para evitar delongas, vou resumir: os professores enfiaram soju na galera! (soju, pra quem não sabe, é a "cachaça" coreana... não tão forte quanto, mas faz muito estrago!) E assim que saímos do restaurante, quando a coreanada tava toda alegrinha, alguém solta a típica: "E agora, vamos pra onde?". Já eram quase 11h da noite, numa quarta-feira, e todo mundo tinha que acordar cedo no dia seguinte. Quando um coreano sai pra beber, ele sai por rounds, pulando de um bar ao outro, até se estribuchar num noraebang e chorar as mágoas com os amigos.

Eu já tava pingando de sono, doido de vontade de ir embora, mas quando o professor Bae me pegou pelo pescoço dando uma gravata (!) e me chamou pra tomar cerveja com ele, só lembrei da frase do mestre Junho, que me ensinou: "Quando um professor te chamar pra beber, jamais rejeite o convite!".

Acabamos ficando até muito tarde no outro bar, e todo mundo ficou sabendo de tudo da vida de todo mundo. Os professores me perguntaram sobre assuntos que abrangiam uma gama enorme, de Lula a namoro.

Hoje de manhã eu tava quebrado, e os professores novinhos em folha. DNA de soju é fogo.

(Parêntese conclusivo (ou não): Isso tudo me fez pensar sobre a questão da hierarquia. Desde que cheguei na Coreia, se tem uma coisa da qual nunca tive dúvida foi essa: aqui o respeito aos mais velhos e às autoridades vem antes de qualquer coisa. Quando a professora canadense citou a tal pesquisa dizendo que o Brasil é o país com o maior nível de hierarquias, eu me segurei para não atrapalhar a palestra, mas no final tive que chamá-la num canto e questioná-la quanto à credibilidade daquela informação. Ela ficou de encontrar a fonte com o estudo detalhado e me passar.

No entanto, quando vi o nível de informalidade e abertura dos professores, que são tratados com toda a reverência na Coreia, fiquei com a pulga atrás da orelha. Quando se bebe com alguém mais velho aqui, existe uma série de procedimentos que você não pode esquecer, como segurar o copo com as duas mãos, virar para o lado quando beber e servir a quem te serviu de volta. E como pode o cara abrir a vida dele pra você assim, na boa? E ainda te dar um peteleco e falar "esse é o cara!".

Não consigo deixar de pensar também em como nós, brasileiros, nos orgulhamos de toda a nossa irreverência e informalidade, e mantemos uma sociedade altamente estratificada, na qual uma parcela grande das classes média e toda a classe alta tem empregados domésticos que recebem uma merreca e na maioria das vezes não têm nem carteira assinada.

E como é interessante a maneira como os políticos, os megaempresários e os profissionais liberais super bem-sucedidos brasileiros dizem não gostarem de cerimônias e se achegam ao povo, mas a maioria deles não sabe viver sem um subalterno na altura do seu calcanhar.

A irreverência do povo brasileiro só serve para relaxarmos enquanto esquecemos que a hierarquia de classes é grande, profunda, e escraviza os que estão por baixo.

Talvez a pesquisa esteja certa. Talvez...

Fecha parêntese!)

Volta às aulas...

A mamata acabou. Com o início das minhas aulas veio também uma carga de leitura que vai tomar todo o meu tempo. Mas também, queria o quê? O cara vem fazer mestrado na Coreia...

Mas graças a Deus gostei muito das aulas! Os professores parecem ser bacanas, e meus colegas mais ainda. Já fiz amizade com uma turminha boa, e o "hyeong" da galera (o mais velho) já até arrumou ingresso de graça pra gente ir assistir a um jogo de beisebol hoje.

Aliás, esse hyeong foi o primeiro coreano com quem conversei no primeiro dia de aula. Cheguei e perguntei o nome dele, ao que ele respondeu "Marcelo". "Ahn? Coreano com nome 'Marcelo'?" "É que eu morei no Paraguai 2 anos e falo espanhol, então prefiro que me chamem de Marcelo."

Nossa, será que não tinha lugar melhor pro cara ter morado não? O nome verdadeiro dele é Won-Seok (원석), e tem me ajudado bastante nos primeiros dias (inclusive me apresentando TODAS as suas amiguinhas... hehe).

Bom, aqui vão algumas fotos que tirei do "Global Campus" da Universidade Kyung Hee de Suwon.

Entrada da universidade.







Biblioteca Central.


Saguão da biblioteca.

Pátio principal, em frente à biblioteca.






Eu, sentadão no banco, e meu departamento logo atrás.

Bosque que fica atrás do meu prédio, geralmente bem vazio e ótimo pra relaxar.

Prédio de Música e Artes.

Centro de Pesquisas Espaciais.

Lago em frente ao anfiteatro.

Anfiteatro onde acontecem apresentações e shows (inclusive K-pop!).


Ponto de ônibus, onde pego para ir para o portão principal.

Então. É nesse campus que vou estudar todo santo dia. Se eu sumir do blogue de vez em quando, pode saber que estou estudando... ou não né.

Futebol em Cheongju

Como parte do buddy program aqui da Universidade de Cheongju, agora vamos jogar futebol com os coreanos toda semana. A primeira partida foi ontem de manhã.

Graças a Deus, os coreanos que jogaram com a gente ontem eram muito ruins de bola, e nosso time ganhou de 5 a 1.

Mas na quarta, quando resolvemos treinar com outros coreanos para não tomarmos uma lavada (que seria humilhante para os latinos...rs), tinha 2 coreanos que, pra mim, eram profissionais. Foi pra calar minha boca, que dizia que os coreanos eram mais pernas-de-pau do que eu.

Como podem ver na foto acima, nosso time tinha uns bons "fofômenos", que estavam literalmente CAINDO aos pedaços (o coitado da foto é o Hugo, do México).

Mas ainda assim conseguimos ganhar, por um motivo simples: não tinha juiz! Isso mesmo. O jogo dos coreanos não é violento como o dos latinos e dos árabes. O Orkhan, nosso amigo do Azerbaijão (foto ao lado), quase aleijou alguns coreaninhos desavisados. Os caras caíam no chão com cara de "foi falta!", mas na verdade tinha sido só ombro a ombro, no estilo mais taekwondo possível.

Eu joguei de goleiro e não fiz tão feio, justamente pelo fair play da Coreia. Quando o atacante vinha chegando perto do gol, era só eu pular pro lado da bola que o cara diminuía a velocidade. Se fosse no Brasil, eu provavelmente levaria uma chuteira na cara e voltaria com hematomas por todo o corpo.

No final dei um de Rogério Ceni, quando me chamaram para bater um pênalti. Mas pelo jeito, minha única semelhança com ele é o nariz grande, porque consegui chutar pra fora!

Até que fiz bonito, afinal só tomei um golzinho. E me chamaram de "Taffarelo"!

Eleições


Só Deus sabe os momentos que deixei de registrar com minha quase-fiel companheira câmera fotográfica. Apesar do zoom de 10x que eu adoro nela, às vezes dá preguiça de andar com aquele trambolho pendurado no pescoço.

Acabei presenciando cenas típicas da universidade coreana (foi o que me disseram), e não posso compartilhá-las com vocês. Mas posso tentar descrever, e acreditem se quiserem. Claro. (A foto abaixo foi tirada em um dia atípico e corresponde a, digamos, 15% do que vou descrever).

Nas últimas semanas estava tendo eleições para presidente da associação dos estudantes da universidade. E as campanhas para atrair os eleitores foram, no mínimo, interessantes. Um grupo de cerca de 10 estudantes, de terninho e gravatinha fina estilo anos 60 (coisa de coreano), com uma caixa vermelha nas costas, ficavam parados perto dos restaurantes na hora do almoço (para quem viu o vídeo, é no mesmo lugar onde joguei "Kawi-Pawi-Po"). Subitamente eles começavam um coro uníssono e esgüelado* (*esse trema cai de vez a partir de janeiro de 2009, fiquem atentos), parecendo grito de guerra, mas era apenas um convite para votar. Quando terminavam a ladainha, se curvavam. Foi assim durante a semana toda, mas algumas vezes tinham mais dois coreanos, um de cada lado, com um avental verde. Quando terminavam o grito formal, eles simplesmente começavam a dançar uma coreografia que misturava clássicos como "ciranda-cirandinha" e "a dança da bundinha". A minha descrição deixa muito a desejar, porque só vendo mesmo para crer o que esses coreanos são capazes de fazer. É uma coisa curiosíssima, porque em quase tudo na Coréia a gente vê a combinação perfeita do ultramoderno, formal e brega. Ontem lá estavam eles de novo, pedindo voto. Passei em frente na hora do almoço e me espantei: algo novo. Desta vez os engravatadinhos tinham um coitado amarrado no meio, preso pelos punhos e pelo pescoço, como os condenados de desenho animado. Não entendi o porquê, mas tudo bem.

Aliás, só abrindo um parênteses, aqui eu sinto que vivo num desenho animado ou no Super Mario. Além das árvores de pelotinhas que você vê em todo lugar (como a da foto), tem também gente vestida de boneco cabeçudo em tudo quanto é canto, fazendo propaganda de alguma coisa. É como se o Zé Gotinha estivesse em todo lugar!

Voltando às eleições. Hoje saiu o resultado e os vencedores estão comemorando. Armaram um palco no meio da rua, dentro do campus. Não teve discurso nem nada do tipo, apenas apresentações esquisito-engraçadas que só mesmo vendo pra crer no nível de ridicularidade que eles conseguem chegar. Não estou criticando negativamente, porque morri de rir e adorei, e também porque quem me conhece sabe que quando resolvo bancar o ridículo não fico muito atrás. Mas olha só: hoje a temperatura ao meio-dia estava por volta de -1C. Subiram no palco cinco meninas de minissaia para dançar "I want nobody but you" (o título é em inglês, mas a música é coreana). Elas deviam estar congelando para pagar um mico daqueles. E quando terminaram, cinco rapazes engravatadinhos subiram. Parecia ser coisa séria. Mas que nada! Tiraram seus terninhos e por baixo o que tinha...? Fantasias de Power Rangers, ou Changemen, ou Flashmen, seja lá o que for! E dançaram a mesma música das meninas, numa versão mais acelerada, batendo na bunda e dando pulinhos dos mais emboiolados possíveis. A Oana estava comigo e outros estrangeiros desapareceram. Ficamos lá, chorando de rir, e duvidando do que víamos! E onde estava minha câmera para gravar?! Argh!

Acabo de perceber que essa palhaçada toda, apenas sendo contada, não tem graça nenhuma.

Ah, e já que falamos em eleições, aqui vai outra novidade: os estrangeiros (bolsistas KGS) tinham que eleger um líder para representá-los aqui na universidade. Adivinha em quem votaram? Pois é: fui eleito representante internacional dos 40 e poucos estudantes estrangeiros que estão aqui em Cheongju! E quando deram o "resultado" (o processo eleitoral todo durou uns 20 minutos), tive que fazer um discurso. E como eu estava nesse clima de "ridiculismo", acabei me inspirando no Barack Obama e fiz um discurso-imitação baseado nele. Só sei que o pessoal se divertiu tanto que no final tava todo mundo gritando junto "Yes, we can! Yes, we can!".

Agora vocês têm um líder brasileiro na Coréia. Chique hein? Só me resta saber o que é que eu preciso fazer.

Aquele abraço!