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Momentos marcantes para um estudante coreano

Arranjei um Arbeit aqui em Suwon. Quem estudou um pouquinho de alemão vai saber que Arbeit significa trabalho. Mas aqui na Coreia essa palavra alemã é usada para se referir a um trabalho de meio período ou de curta duração, e pronuncia-se "a-ru-ba-i-tu" (아르바이트 na romanização tabajara). Qualquer bico que se faz pra ganhar uma graninha pode-se chamar de Arbeit.

Estou trabalhando de TA (Teaching Assistant) num acampamento de inglês, onde os coreanos se enclausuram pra ver se essa língua ultradifícil (pra eles) entra na cabeça, nem que seja por osmose. O grupo por quem sou responsável são 13 jovens universitários, entre 18 e 21 anos.

Todos os dias eles têm que escrever um journal sobre um tema decidido pelo professor, e sou eu que corrijo. Hoje o tema foi "um momento marcante na minha vida." Clichê total, mas tá valendo.

Quando você pensa em algo marcante na sua vida, o que vem à cabeça? Se for coisa boa, talvez uma viagem, um prêmio, uma aprovação num concurso, um dia com uma pessoa (ou pessoas) que você ama etc. Se for coisa ruim, um acidente, uma perda dolorosa ou uma doença.

Mas o que foi que 10 entre os 13 coreanos escreveram? Que os piores dias de suas vidas foram os dias de colégio, especialmente entre os 15 e 17 anos. Justamente os anos que, pensava eu, seriam os melhores da adolescência de qualquer um. Que nada!

Como se todos tivessem combinado sobre o que escrever, contaram em detalhes o sofrimento pelo qual passaram nessa época, que pra eles nem faz tanto tempo. A pressão infernizante dos pais e professores, os dias inteiros com a bunda grudada na cadeira (das 7 às 23 horas!), as broncas que levavam quando tiravam "apenas" 85 numa prova valendo 100, os amigos com quem perderam contato porque não tinham tempo de se encontrar, a luta para apresentar resultados excelentes em matérias que odiavam do fundo do coração.

Me deu dó, muita dó deles. Um outro mais otimista contou sua maior conquista: 100 dias sem sair com os amigos para estudar e apresentar uma nota na prova de matemática que arrancasse um elogio dos pais: nota 100! E o aluno que escreveu essa história detesta matemática.

Mas a última redação que li me deixou muito preocupado. Uma menina dizia que foi programada para apresentar resultados. Não podia decepcionar os pais. E mais: "Sei que a vida não deveria ser assim, que eu deveria aproveitar as coisas boas... mas não sei se isso é possível (...) Não vejo sentido em mais nada, e tudo que eu gostaria de saber agora é quem sou eu, porque nem sei se vale a pena existir assim."

De repente os crescentes índices de suicídio juvenil na Coreia fazem todo o sentido. "Se a vida é esta pressão o tempo todo, viver pra quê?", os moleques pensam. Ainda mais porque eles sabem que pressão não termina depois que entram na universidade. A sociedade sul-coreana chegou a um nível de competitividade canibal que só alimenta o alcoolismo, a depressão e o estresse. Vive bem quem faz a mágica de driblar o esquema.

Não quero de maneira alguma dizer que isso é assim só na Coreia. O mundo caminha nessa direção. O problema é que no Brasil só se ouve falar do maravilhoso desenvolvimento sul-coreano, e como nós devemos imitá-los. E de certa maneira, já estamos imitando. A supervalorização dos exames que só levam em consideração um ou dois tipos de inteligência, ignorando as habilidades artísticas e interrelacionais, só vai levar nosso país pelo mesmo caminho. Quem é que não conhece uma família que já começa a enfiar o vestibular na cabecinha dos pequenos desde cedo? E os inúmeros colégios preparatórios que só treinam os alunos para responder questões de vestibular, mas não questões de caráter, de responsabilidade social e ambiental?

Eu sou grato por ter nascido onde nasci, ter estudado onde estudei e ter sido criado pelos pais maravilhosos que me criaram. Ainda que a pressão do sucesso no vestibular tenha chegado no final do 2° grau, meus pais nunca me forçaram a escolher uma carreira que exigisse noites de sono perdidas e nem disseram que eu deveria ser quem eles queriam que eu fosse. Numa época em que fiz teatro cheguei até a pensar em fazer Artes Cênicas na universidade. Meu pai só dizia: "Olha, é meio difícil ganhar a vida com isso aí... você tem que estar preparado." Mas no final enfatizava que a escolha era minha. Quando tive a ideia maluca de vir pra Coreia, como sempre eu pedi a opinião dos meus pais. "É isso o que você quer? Então vai ser feliz!"

O resultado final ainda não chegou, pois ainda estou estudando. Mas o resultado parcial já valeu a pena por toda a minha vida. Tive derrotas e conquistas, mas costurei um trajeto que renderão histórias pra contar pros meus filhos e netos, muitas e muitas vezes.

Mas o que é que esta geração sul-coreana vai contar para os filhos? Que sentido existe em ser um robô que vive em função de agradar os pais? E que futuro queremos para os nossos filhos se concordamos com este sistema que se está engolindo a juventude, a adolescência e até a infância de forma cruel?

Fica aí o desabafo de quem tenta ser feliz no país dos jovens desesperados.

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Observação: Minha crítica não prega o "corpo mole ou a vida fácil". Só acho que a emancipação do estresse, que vai descendo cada vez mais baixo na vida das crianças, destrói aqueles que deveriam ser os anos mais inesquecivelmente felizes na vida das pessoas. No mundo adulto, no entanto, todo mundo é grande o suficiente para competir pau-a-pau, para se enclausurar durante meses ou anos até passar num concurso, e até para se matar de trabalhar para atingir um objetivo específico, desde que isso não seja permanente.

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Pra descontrair um pouco, uma dessas alunas que ainda vivem traumatizadas com seus anos mal vividos na época do colégio, olhou para mim hoje e soltou a frase mais absurda que já ouvi em toda a minha vida:

"Você se parece com a Britney Spears!"

Sinal que a overdose de estudo afetou o lado esquerdo do seu cérebro, que é responsável pelo pensamento lógico, ou então danificou permanentemente seus receptores retinais.

Só pra zoar a menina que fez tal comparação, eu tirei uma foto dos pés dela. Vou morrer sem entender por que muitas mulheres aqui pintam SÓ a unha do dedão do pé. Parece que deu uma bicuda numa jabulani de pedra com os dois pés, e a unha vai cair a qualquer hora.

Trabalho que faz sentido

Vi esse vídeo do TED num post do blogue Roboseyo e não pude deixar de repostar. A palestra é interessante para qualquer um no mundo capitalista, mas os sul-coreanos deveriam assisti-la mais de uma vez e tentar colocar em prática.

Os coreanos trabalham mais, muito mais, que os brasileiros. Também estudam mais, muito mais. Mas isso não significa, necessariamente, que trabalhem e estudem bem! O palestrante fala exatamente de uma pesquisa científica que comprova o quão ineficiente é o sistema de meras recompensas e punições nas empresas, e como é importante ter sentido no que você faz, em vez de simplesmente obedecer como a turma do lado de cá faz. Confira você mesmo a palestra, porque vale a pena (e você pode selecionar a legenda em português).


PS1: Ao comparar Coreia e Brasil, não quero dizer que os brasileiros saibam trabalhar melhor. Mas acho que a Coreia já chegou a um ponto em que pode questionar seu próprio sistema e dar um salto ainda maior para o futuro. Não sei se uma palestra de 20 minutos mudaria algo que está tão enraizado na cultura coreana, mas se pegar a turma que manda nesse país já tá ótimo.

PS2: Também concordo com o autor do Roboseyo, quando ele diz que a maior parte dos problemas culturais na Coreia seria magicamente resolvida se 50% das pessoas que comandam o governo e as empresas sul-coreanas fossem mulheres. Elas com certeza seriam mais sensíveis a outros valores que não sejam os corporativos sangue-suga.