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Jogos para beber soju

Como o blogue Blackout Korea mostra bem, a Coreia do Sul é um país em que os "rituais" da bebida são bem fortes e fazem parte da cultura. Eu já disse aqui antes como é importante saber as regras quando se bebe com alguém mais velho ou alguma autoridade. Tem que segurar o copo com as duas mãos, virar para o lado na hora da golada, enfim, essas coisas coreanas. E rejeitar um copo de soju de um professor ou superior no seu trabalho é um grande absurdo!

Entre amigos, no entanto, a coisa é um pouco diferente. Bebe-se tanto quanto os mais velhos, mas sem muita "nove horas". E para descontrair, jogam-se muitos jogos para decidir quem toma a golada da vez. Acredito que jogos do tipo existam em todo país onde se bebe muito, mas aqui parece ser particularmente mais popular. Principalmente quando se tem na turma pessoas que não gostam ou não têm costume de beber muito, os jogos são uma chance de se ver tal pessoa mais "alegrinha" com uns copos de soju.

Abaixo tem um vídeo que gravei quando brincava com meus amigos. A lista de jogos parece ser infinita, mas decidi gravar alguns para compartilhar com vocês. Caso queiram aprender a jogá-los, vou tentar explicar as regras, apesar de ser sempre difícil explicar regra de jogo sem jogar. Quem fala um pouco de coreano pode entender melhor pelo vídeo.

"Baskin Robins 31"
Para quem não sabe, Baskin Robins é uma rede de sorveterias que está em todo lugar na Coreia. E uma propaganda famosa, na qual divulgavam 31 sabores de sorvetes, acabou gerando a brincadeira. É bem fácil: numa roda, seguindo a ordem, cada um diz 1, 2 ou 3 números, começando do 1. Quem cair no 31 tem que beber. Geralmente os últimos é que têm o poder de escolha e decidem quem bebe na rodada. A musiquinha no ínicio diz, em inglês, "Baskin Robins thirty-one"♪.

"Frying Pan Game" (후라이팬 놀이)
Não tem frigideira nenhuma na brincadeira, é só um nome ilustrativo. É um jogo que exige atenção e coordenação motora. A musiquinha no início diz "ting-ting-ting-ting / teng-teng-teng-teng / ting-ting / teng-teng / huraipen nori" (띵띵띵띵 / 뗑뗑뗑뗑 / 띵띵 / 뗑뗑 / 후라이팬 놀이♬).

Basicamente segue um ritmo de quatro batidas (como no vídeo) no qual alguém diz nas duas últimas batidas o nome de outra pessoa e um número de 1 a 4. Esse número decide quantas vezes a pessoa tem que dizer o próprio nome, no ritmo das batidas. Por exemplo, se disserem "João Três", o João tem que dizer logo em seguida "João, João, João" nas três últimas batidas e logo em seguida colocar alguém na frigideira: "Zé Quatro"... "Zé, Zé, Zé, Zé". Quem errar, claro, bebe soju.

"Bunny-Bunny Game" (바니바니 당근당근 게임)
Bunny, em inglês, signfica "coelhinho". Já ouvi um papo aqui na Coreia de que eles falam de um tal coelho na lua. Não sei se é o formato das crateras que dão essa impressão ou se é só uma lenda conhecida. Mas acho que esse jogo tem a ver com a história. É que a musiquinha que inicia o jogo diz o seguinte: "Palavras do coelho que desceu..." (토끼 내려온 하는 말♬). E eu perguntei "desceu de onde?" e me falaram "do céu, ora!"

Depois é só alguém começar dizendo "bunny-bunny" para si, e em seguida "bunny-bunny" para alguém. Esse alguém tem que responder com o mesmo "bunny-bunny" e escolher outra pessoa. Quem estiver do lado do escolhido tem que dizer "danggeun-danggeun" (cenoura-cenoura) ao mesmo tempo. Tudo isso com os devidos gestos. Nesse jogo dá pra mais de uma pessoa errar, então mais gente bebe.

"Corrida de Cavalos" (경마 게임)
Este jogo é bem simples, mas tem que ficar atento o tempo todo. A musiquinha de início diz "Esse é um que gostamos muito: Corrida de Cavalos!" (어떤 많이 좋아하는 경마 게임!♬). Depois é só fazer uma rodada estabelecendo os número: "Número 1, número 2, número 3...". O "cavalo" número 1 começa chamando outro cavalo, dizendo "número 1, número 7" e o 7 responde para quem quiser: "número 7, número 3". Quem errar ou demorar, bebe.

"Jogo do Bobo" (바보 게임)
Esse não tem nada de mais, e até bobo mesmo. Mas confesso que dá pra confundir a cabeça se você não se concentrar. Tudo o que você tem que fazer é dizer um número (de 0 a 10) e mostrar outro número com a mão para a pessoa ao lado. A pessoa tem que dizer o número que você mostrou e mostrar outro diferente. Se você disser e mostrar o mesmo número, erra. E quem erra... bebe!


Cenas do sábado (ou "Coisas do dia-a-dia")

É, parece que minha última postagem não deu muito ibope, não. Acho que ninguém tá querendo saber de estudar mesmo... ^_^

Então vamos falar da falta do que fazer. Quem acompanhou minha empolgação videonística do início até meados deste ano deve ter notado que de uns tempos pra cá não tenho postado vídeos bonitinhos mais. Além das desculpas de sempre - falta de tempo, estudos e preguiça - eu cansei de filmar tudo o que passava na minha frente. O motivo é que eu notei que quando eu filmo muito, vivencio e curto o momento muito pouco. Então para não cair na tentação, tenho deixado minha câmera em casa na maioria das vezes.

Isso tem me custado instantes de profundo arrependimento, porque nessa Coreia eu me deparo com coisas que até Deus duvida, e como não sei quando e onde vou presenciar essas coisas de novo, uma filmadinha viria a calhar. São coisas pequenas do dia-a-dia, como as mães no supermercado carregando seus coreaninhos no carrinho de compras e alguns deles travando conversas impagáveis comigo. Tem também os coreaninhos que dormem pendurados nas costas de suas mães e ficam com o pescoço virado pra trás igual galinha recém-degolada. E uma cena inacreditável de um menininho que dormiu deitado dentro do carrinho e a mãe ia fazendo compras e colocando os produtos em cima dele. O resultado foi um carrinho cheio de verduras, frutas, carnes e etcéteras com duas perninhas saindo do meio, apontando pra cima!

Eu poderia fazer uma "lista de Itu" aqui pra vocês, só com coisas do dia-a-dia que me espantam e me fazem rir sozinho. Mas acredito que, sem foto ou vídeo, o leitor vai acabar achando que minha imaginação é muito fértil (apesar que ela é mesmo).

Então, no sábado, sem querer querendo, coloquei a câmera na minha mochila e fui para Seul fazer outras coisas, sem nem imaginar que acabaria saindo à noite com a Eun Bee e o Juliano. Jantamos em Gangnam, passamos na "Rua do Caroço" (é que o nome é 가로수길 · karosu-gil, que se pronuncia exatamente como "caroço"), e desembestamos à pé para o rio Han (segundo a Eun Bee, para fazer o kkilo, com ㄲ mesmo pra soar mais forte).

No caminho filmei algumas coisinhas interessantes, como essa propaganda de soju. Os carinhas se vestem de sei-lá-o-quê (Power Rangers? Chapolin multicor?) e seguram a plaquinha da garota modelo daquela marca de soju (pra quem não se lembra, é meio que a "pinga coreana", só que menos alcoólica). A gente vê propagandas como essa em todo canto, tanto que os coreanos nem param pra ver os caras pagarem mico. A gente parou.


http://www.youtube.com/watch?v=r0Ygb5u-Nuw

Outra coisa que filmei, mas bem rapidinho e de relance, foi um casalzinho com as famosas couple shirts. Aqui na Coreia tem até loja de "roupa pra casal". No auge do seu apaixonismo, os casais coreanos saem pra todo lado vestindo exatamente a mesma roupa, como sinal de sua perfeita união♡! Olha só esse:


http://www.youtube.com/watch?v=20Zzd4b0khc

E para terminar, eu fui dar um de papparazzo só para seguir um casal que deixou a gente na dúvida sobre quem era a mulher da relação, já que um casal de lésbicas é ainda coisa que não se vê por aqui facilmente. A imagem ficou meio de repórter correndo atrás de político recém-eleito, mas acho que dá pra ver na direita o sujeito que eu tava seguindo e que mostra a moda de muitos homens coreanos que não assusta mulher nenhuma por aqui. De lambuja, na mesma cena passa uma moto do meu lado, na calçada, que é outra coisa comum por aqui, mesmo nos lugares mais modernos da Coreia.


http://www.youtube.com/watch?v=TfOfY4rxwuc

Ah, perto do restaurante onde jantamos também tirei a tradicional foto do frango escangalhado. Segundo a lenda do Kimchi com Café, todo brasileiro que vai a Seul tem que tirar uma foto com a cabeça fedorenta do bicho (Carlos, essa você tem que comentar). Eu não só tirei a foto com a cabeça do frango, como também estava usando o moletom rosinha que ganhei no meu aniversário! Para quem tava curioso, deleite-se. Abração pra todo mundo!



Hierarquias, aqui e aí

O Juliano já tinha me avisado que isso aconteceria, mas não imaginei que fosse tão rápido.

(Parêntese introdutório para o comentário final: ontem tivemos um workshop, no qual uma professora canadense nos ensinou como fazer apresentações e discursos num ambiente internacional. Além de todas as lições de retórica, ela mencionou a importância de se conhecer o público a quem se fala - sua cultura, religião, etc -, caso o grupo seja homogêneo. Lá pelas tantas, ela exemplifica com a cultura coreana, dizendo que, de acordo com uma pesquisa, ocupa o segundo lugar em nível de hierarquias nos tratamentos interpessoais. Até aí tudo bem. O problema foi quando ela continuou: "...ficando atrás apenas do Brasil." Parêntese fechado temporariamente.)

Ainda ontem, uns 10 alunos do departamento, incluindo eu (foto abaixo), recebemos uma mensagem no celular convidando para jantar com os professores Kwak e Bae. Graças a Deus (que é brasileiro) fomos a um restaurante comer samgyeopsal, que é o churrasco coreano, o qual não tenho frescura nenhuma pra comer - muito pelo contrário.

Para evitar delongas, vou resumir: os professores enfiaram soju na galera! (soju, pra quem não sabe, é a "cachaça" coreana... não tão forte quanto, mas faz muito estrago!) E assim que saímos do restaurante, quando a coreanada tava toda alegrinha, alguém solta a típica: "E agora, vamos pra onde?". Já eram quase 11h da noite, numa quarta-feira, e todo mundo tinha que acordar cedo no dia seguinte. Quando um coreano sai pra beber, ele sai por rounds, pulando de um bar ao outro, até se estribuchar num noraebang e chorar as mágoas com os amigos.

Eu já tava pingando de sono, doido de vontade de ir embora, mas quando o professor Bae me pegou pelo pescoço dando uma gravata (!) e me chamou pra tomar cerveja com ele, só lembrei da frase do mestre Junho, que me ensinou: "Quando um professor te chamar pra beber, jamais rejeite o convite!".

Acabamos ficando até muito tarde no outro bar, e todo mundo ficou sabendo de tudo da vida de todo mundo. Os professores me perguntaram sobre assuntos que abrangiam uma gama enorme, de Lula a namoro.

Hoje de manhã eu tava quebrado, e os professores novinhos em folha. DNA de soju é fogo.

(Parêntese conclusivo (ou não): Isso tudo me fez pensar sobre a questão da hierarquia. Desde que cheguei na Coreia, se tem uma coisa da qual nunca tive dúvida foi essa: aqui o respeito aos mais velhos e às autoridades vem antes de qualquer coisa. Quando a professora canadense citou a tal pesquisa dizendo que o Brasil é o país com o maior nível de hierarquias, eu me segurei para não atrapalhar a palestra, mas no final tive que chamá-la num canto e questioná-la quanto à credibilidade daquela informação. Ela ficou de encontrar a fonte com o estudo detalhado e me passar.

No entanto, quando vi o nível de informalidade e abertura dos professores, que são tratados com toda a reverência na Coreia, fiquei com a pulga atrás da orelha. Quando se bebe com alguém mais velho aqui, existe uma série de procedimentos que você não pode esquecer, como segurar o copo com as duas mãos, virar para o lado quando beber e servir a quem te serviu de volta. E como pode o cara abrir a vida dele pra você assim, na boa? E ainda te dar um peteleco e falar "esse é o cara!".

Não consigo deixar de pensar também em como nós, brasileiros, nos orgulhamos de toda a nossa irreverência e informalidade, e mantemos uma sociedade altamente estratificada, na qual uma parcela grande das classes média e toda a classe alta tem empregados domésticos que recebem uma merreca e na maioria das vezes não têm nem carteira assinada.

E como é interessante a maneira como os políticos, os megaempresários e os profissionais liberais super bem-sucedidos brasileiros dizem não gostarem de cerimônias e se achegam ao povo, mas a maioria deles não sabe viver sem um subalterno na altura do seu calcanhar.

A irreverência do povo brasileiro só serve para relaxarmos enquanto esquecemos que a hierarquia de classes é grande, profunda, e escraviza os que estão por baixo.

Talvez a pesquisa esteja certa. Talvez...

Fecha parêntese!)