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Uma geral no racismo coreano

Depois que postei no twitter sobre o "desconvite" de casamento que recebi, teve gente até perdendo noite de sono (né Paula? rs). Então deixa eu esclarecer essa história e dar uma geral na questão racial na Coreia.

1. O que aconteceu?

Um amigo francês que estudou coreano com a gente em Cheongju vai se casar com uma coreana mês que vem, com quem namorou durante 4 anos e que morou na França durante 7 anos. Como já era de se esperar, a família dela não aceitou o namoro facilmente. A mãe ficou sem dormir durante 3 noites quando soube que a filha namorava uma francês (ou seja, um não-coreano). Mas no final das contas, quando viu que a filha não voltaria atrás, a família acabou engolindo a história e aceitou o casório, que todos nós esperávamos ansiosamente. O francês já havia nos enviado convites informais, dizendo o local e a data, mas enviaria os convites oficiais essa semana.

No entanto, o pai da noiva se opôs ao convite de estrangeiros para o casamento, porque seria uma cerimônia tradicional coreana, e achou que a cerimônia seria tratada como uma piada pelos estrangeiros, em especial os de pele escura (segundo as palavras que recebi no "desconvite").

2. Isso é comum na Coreia?

Sei lá, esse seria o primeiro casamento ao qual compareceria na Coreia. Estatisticamente, fui desconvidado de 100% deles! :P

3. Qual o motivo da discriminação?

O mesmo de toda discriminação pelo resto do planeta: ignorância. Os coreanos, além de extremamente nacionalistas, alimentam uma sutil e perigosa de ideia de superioridade racial, que foi muito motivada pelo complexo de inferioridade que surgiu das trocentas invasões e tentativas de extinção da nação coreana. Isso tem diminuído muito entre os jovens, mas é ainda forte entre os mais velhos. Daí a razão de se ver esse tipo de atitude partindo de coreanos mais velhos. Infelizmente, frases que enfatizam a suposta superioridade coreana é ainda encontrada até mesmo nas entrelinhas de jornais, como mostra esse vídeo do Youtube.

4. Então o coreano é um povo racista?

Olha a pergunta perigosa aí. Se eu disser que não, vou estar mentindo. E se eu disser que sim, também vou estar mentindo! Além de ser injusto com muitos coreanos que tenho certeza que não são racistas e não apoiam esse tipo de atitude.

A verdade é que o conceito de "raça pura" ainda é comum, mas com fortes tendências de diminuir nas próximas gerações. A Coreia foi um país extremamente fechado durante muitos séculos, e os únicos momentos da história quando ela se "abriu" e teve um intercâmbio racial e cultural, foi quando ela foi invadida por outros povos. O resultado foi esse povo coreano vacinado, cabreiro e desconfiado com qualquer estrangeiro.

Até 15 anos atrás, quase não havia estrangeiros na Coreia, até que o país se abriu e começou a oferecer oportunidades de estudo, trabalho e moradia para quem quisesse vir. De lá pra cá, muito mudou. As crianças que cresceram vendo Seul se tornar uma cidade cosmopolita se tornaram jovens que namoram estrangeiros e aceitam as diferenças com mais facilidade - apesar desse processo ser desigual em diferentes regiões do país.

5. Você já sofreu com o preconceito do povo coreano?

Já. Mas ri de dó do retartado do ajoshi que me discriminou, como contei aqui antes. A discriminação aqui atinge diferentes pessoas, de diferentes países, em intensidades e por motivos diferentes. No meu caso, eu fui discriminado porque acharam que eu fosse do Irã, que por sua vez é discriminado, junto com o restante do megagrupo árabe-muçulmano, por ser visto como terrorista, ainda que eu não saiba de nenhum ataque de muçulmano fundamentalista na Coreia.

Os negros são discriminados por terem pele negra. Os do sudeste asiático são discriminados por serem mais escuros e pobres. Os japoneses são discriminados por serem japoneses. Os americanos são discriminados por serem muitos e por serem vistos como os comedores de coreaninhas que depois as abandonam.

Resumindo, se você não é coreano, em alguma categoria discriminatória você tem que se encaixar!

Até coreano que foi criado em outro país é discriminado: são os traídores que abandonaram o país quando este mais precisava do seu povo!

6. Nossa, que bosta hein?

Tá bom, eu exagerei um bocado. Isso não acontece assim. Os casos em que coreanos discriminam descaradamente não são tão frequentes. É mais uma ideia sutil que permeia o subconsciente coletivo coreano, e, como já disse antes, muito mais entre os mais velhos.

Eu, por exemplo, além da vez em que o ajoshi me aprontou aquela, e desta vez em que fui "desconvidado" para o casamento coreano, nunca me senti rejeitado e mal tratado pelo povo coreano em geral. Muito pelo contrário.

Mas é bom saber que esse tipo de coisa acontece por aqui antes de cair de paraquedas achando que tudo são rosas. Assim como é um engano acreditar que o Brasil também seja um paraíso da harmonia entre as raças. Só que aí são outros 500... literalmente.

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Primeiro coreano indiciado por racismo na história da Coreia: veja aqui.
Outros casos de discriminação sofrida por estrangeiros, aqui. Desculpem, os links estão todos em inglês.

Observação: Nós brasileiros até que somos sortudos. Apesar de uma possível prévia discriminação pela aparência (como no meu caso, com cara de árabe), isso logo é quebrado assim que nos identificamos como brasileiros. Aí tudo é festa e todo mundo te ama! :)

Namoro, tipos sanguíneos e personalidade

Namoro na Coreia

Aqui na Coreia a vida de quem quer namorar não é fácil. Descobri que os brasileiros (e brasileiras) solteiros reclamam de barriga cheia, porque arranjar namorado no Brasil é mamão com açúcar comparado à Coreia.

Primeiro que aqui namoro não é brincadeira. De maneira geral, só se namora para casar. E a moçada (leia-se "as meninas"), fazem jogo duríssimo na hora da conquista. Como os coreanos são tímidos e tem dificuldades em abordar as meninas, o resultado é o que eles chamam por aqui de "exército dos solteiros".

Para os estrangeiros, como eu, ainda existe um empecilho a mais: namorar um estrangeiro acaba com a reputação da menina coreana. É uma mistura de racismo com machismo.

Racismo, não porque os coreanos tratem mal as pessoas baseados na raça ou nacionalidade. Pelo menos eu nunca vi isso. Muito pelo contrário, vi sempre muitos sorrisos abertos e pessoas dispostas a me ajudar com tudo, além de ouvir elogios aos montes sobre meu nariz grande, olho redondo e sobrancelha grossa. :D

O que chamo de racismo coreano é a ideia de que existe algo como "coreano raça pura", e que eles devem fazer de tudo para que essa raça permaneça pura. Tanto que quando fui a Daejeon visitar os pais do meu amigo Yosep, a primeira coisa que o pai dele me perguntou é se eu era "brasileiro de sangue puro". Eu caí na gargalhada, claro. Mais vira-lata que brasileiro, tá pra existir!

Essa é a desculpa que usam os mais velhos para pressionarem as meninas coreanas a não se deixarem seduzir pelos estrangeiros, que aumentam a cada dia aqui na Coreia. Mas é também um argumento machista, porque quando é um coreano (homem) namorando uma estrangeira, todo mundo bate palma e diz que ele é "o cara". A ideia é de possessão: uma coreana namorando um estrangeiro está sendo roubada deles, enquanto um coreano namorando uma estrangeira está roubando mulher de outro país.

Tipos sanguíneos e personalidade

Mais uma questão para dificultar a vida de quem quer namorar. "Qual é seu tipo sanguíneo?" é uma pergunta que ouvi várias vezes na Coreia e até então não sabia o porquê. Só hoje a professora nos explicou o motivo da pergunta ser tão frequente.

Os coreanos acreditam piamente que o tipo sanguíneo da pessoa afeta sua personalidade, apesar não haver ainda comprovação científica.

Aí vai uma análise de cada tipo, de acordo com os coreanos.

Tipo A

Prós: paciente, pontual, reservado, persistente.
Contras: cabeça-dura, obsessivo, excessivamente autoconfiante.

Às vezes são chamados de "caipiras", gostam das tradições e são leais.

Tipo B

Prós: criativo, flexível, otimista, passional.
Contras: esquecidinho, irresponsável, egoísta.

São considerados os piores tipos na Coreia. O tipo B é visto como o safado, cachorro, sem-vergonha coreano, e se a menina souber que o cara é tipo B no primeiro encontro, muito provavelmente essa será a última vez que se vêem. Ainda que a menina seja mais "cabeça aberta", a pressão da família para que não se case com um tipo B ainda é muito comum. Assistam o filme My boyfriend is type B (Meu namorado é tipo B), estrelado por Han Ji Hye e Lee Dong Gun, e saberão sobre o que estou falando.

Tipo AB

Prós: bacana, simpático, controlado, racional.
Contras: crítico, indeciso, não perdoa facilmente.

Chamados de "humanistas", os do tipo AB são guiados mais pela razão do que pela emoção. Lidam bem com o dinheiro, mas são imprevisíveis.

Tipo O

Prós: ambicioso, atlético, autoconfiante.
Contras: arrogante, insensível, raso.

Chamados de "guerreiros", os do tipo O são vistos como líderes e excelentes atletas. Eles são extrovertidos e divertidos, mas levam seus objetivos de vencer até as últimas consequências.

(Traduzido do site korea4expats.com)

Interessante é que eu perguntei para o Yosep qual o tipo sanguíneo dele e a resposta foi "A". Então perguntei: "A positivo ou A negativo?". Ele fez cara de interrogação e disse que nunca ouviu falar disso. Então hoje perguntei para a professora e ela disse que isso não faz diferença na Coreia, porque "todo mundo é tipo positivo". Não sei se é ignorância dela, ou se é falha do maravilhoso sistema educacional coreano que não produziu bons livros de biologia, mas até onde eu sei, uma pessoa pode morrer por causa dessa informação!

Bom, taí mais uma coreanice pra vocês. Fico por aqui porque esta postagem já ficou longa demais.