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Eleições presidenciais 2012 na Coreia do Sul

Tá chegando! Dia 19 de dezembro os sul-coreanos vão às urnas para decidir quem será o(a) próximo(a) presidente da República da Coreia (ou Daehanminguk, 대한민국), o nome oficial da Coreia do Sul. Independente de quem ganhar, provavelmente teremos um cenário político interessante no país a partir de 2013. Mas antes de falar um pouco sobre os candidatos, acho importante ressaltar que o sistema eleitoral por aqui é bem diferente do brasileiro. Na Coreia do Sul, as regras do jogo são as seguintes:

  • o Presidente da República é eleito para um mandato único de 5 anos;

  • o registro das candidaturas acontece a menos de um mês das eleições;

  • o voto é facultativo, ou seja, você só vota se quiser (e puder, claro);

  • a campanha dura 23 dias para as eleições presidenciais e só 14 dias (!) para as legislativas e locais;

  • não tem segundo turno. Um candidato pode ser eleito com menos de 50% dos votos válidos;

  • a votação acontece na primeira quarta-feira a partir de 70 dias antes do fim do atual mandato. Essa quarta é feriado, e foi definido assim para que as pessoas não viajem no dia e se disponham a ir votar;

  • para evitar um grande número de candidatos e garantir a "sinceridade" da candidatura, o candidato a Presidente deve fazer um depósito de 300 milhões de wons (mais ou menos 570 mil reais), que serão devolvidos ao final do processo eleitoral;

  • assim como nos EUA, os partidos devem fazer prévias para decidir as candidaturas, exceto no caso dos candidatos sem partido, o que é permitido aqui;

  • a Comissão Eleitoral Nacional (equivalente ao TSE no Brasil) estabelece um valor máximo para as campanhas, baseado no tamanho da população, renda per capita e média de custos. Esse limite é porque os candidatos são reembolsados pelo governo (financiamento público) após o fim do processo, mas antes precisam prestar contas para receberem o dinheiro.

Como se pode ver, o negócio aqui é bem diferente do que temos no Brasil. Uma característica em particular muda toda a dinâmica eleitoral como a conhecemos: o prazo para o registro das candidaturas. Só para comparar, um ano antes das eleições presidenciais de 2010 no Brasil, já sabíamos que a Dilma seria a candidata do PT. No início do ano já vimos a movimentação da candidatura da Marina pelo PV, e o PSDB, que "demorou" (segundo analistas políticos brasileiros) já tinha escolhido o Zé Serra seis meses antes do dia do pleito. Agora imaginem só: até a semana passada, dentre os principais candidatos sul-coreanos, só tínhamos certeza da candidatura da Park Geun-hye, enquanto aguardávamos a decisão entre os dois outros candidatos da oposição. Essa enrolação se deve ao fato de que não há segundo turno, por isso a oposição precisava se decidir por um único candidato para ter mais chances de vencer a candidata do partido do atual presidente.

 
Índice de participação popular nas eleições presidenciais anteriores na Coreia do Sul. Um dos desafios é levar os jovens às urnas (fonte)

Vamos aos corredores, então. Desde sexta (dia 23/11), sabemos oficialmente que os dois principais candidatos são Park Geun-hye (do "Partido da Nova Fronteira", 새누리당) e Moon Jae-in (do "Partido Unido Democrático", 민주통합당). Até sexta passada, o candidato Moon (que não tem nada a ver com o reverendo Moon, acho eu) estava numa queda de braço com o pré-candidato independente Ahn Cheol-soo, um cara que ficou rico com uma empresa de software anti-vírus. É que as pesquisas mostravam Park com mais de 44% das intenções, enquanto os outros dois variavam entre 20 e 25% cada um. Num espectro político direita-esquerda, podemos dizer que Park representa a direita conservadora sul-coreana, enquanto os outros dois estariam mais à esquerda liberal. Daí a divisão.

No entanto, política não é tão simples. O eleitor comum não pensa muito em ideologias. Muitas vezes é a personalidade quem conta. E nessa brincadeira, Park Geun-hye pode acabar papando essa eleição, apesar de tudo. Dá uma olhadinha no perfil dela.

 
A candidata do NFP (sigla em inglês), Park Gyen-hye (à esquerda) e seu oponente, Moon Jae-in (DUP, à direita) (foto)

Park Geun-hye é a primeira candidata mulher com chances reais de ganhar uma eleição presidencial na Coreia do Sul. O que pesa a seu favor? Ela tem uma vasta experiência política não só como parlamentar na Assembleia Nacional, mas também como Primeira-Dama de seu pai, que foi Presidente nos anos 60 e 70, e ficou conhecido como aquele que colocou a economia do país nos eixos e firmou a base para o desenvolvimento. O que pesa contra? Papai também foi um ditador militar barra pesada. Ou seja: Park Geun-hye é uma figura que representa uma mudança quando se pensa na questão da representação feminina na política coreana, até porque ela nunca se casou, o que, na Coreia, até pouco tempo atrás era fortemente discriminado (e ainda é de certa forma). Mas os que temem uma volta do ultra-conservadorismo, que vai além das políticas do atual Presidente, vêem sua ligação com o governo de seu pai um grande perigo. Aliás, esse é o maior desafio de Park: descolar sua imagem tanto de seu pai quanto do atual Presidente, Lee Myung-bak (que conheci pessoalmente em 2010 numa boca-livre na Casa Azul). Para isso até mudaram o nome do partido. Antes era o "Grande Partido Nacional" (한나라당) e virou "Partido da Nova Fronteira" (새누리당). Sabem como é né: tipo PFL virando Democratas. Queimou o filme, muda de nome. Lavou tá novo.

O candidato da oposição, Moon Jae-in, tem uma história bem diferente. Ele estava "do lado de lá" na época da ditadura do pai de sua oponente. Moon foi preso diversas vezes por liderar o movimento estudantil contra a ditadura do general Park. Esse movimento começou dentro da Kyung Hee University (onde eu fiz meu mestrado, e por isso recebi inúmeros emails da instituição apoiando sua candidatura), universidade onde Moon estudou Direito e até deu umas aulinhas. Mas Moon Jae-in também tem sua imagem vinculada a um ex-Presidente: Roh Moo-hyun, que governou no período 2003-2008, quando Moon foi seu equivalente a "Ministro da Casa Civil." Por isso, nem ele nem sua rival representam algo muito novo. Além disso, Roh cometeu suicídio em 2009 por não suportar as alegações de corrupção durante seu governo. Mas Moon tem a seu favor o fato de que seu partido, assim como toda a esquerda sul-coreana, propõe uma expansão do Estado do Bem-Estar Social, que é bem fraquinho na Coreia (bem nos moldes estadunidenses). Creches de graça para crianças até 5 anos, melhora das leis trabalhistas, menos privilégios para os chaebols (grandes conglomerados como Samsung, Hyundai, etc), enfim, maior proteção social.

Park Geun-hye agora também se moveu para o centro no seu discurso, mas essa curta campanha promete pegar fogo. Moon Jae-in a tem atacado com palavras afiadas: "Enquanto eu vivia na pobreza, ela vivia uma vida de princesa na Casa Azul. Enquanto eu lutava contra a ditadura, ela estava bem em seu centro." (fonte)

Fui na casa do presidente

Há algumas semanas fui convidado pelo PCNB para participar de um evento promovido pela KOICA na Casa Azul (Cheong Wa Dae). OK, uma coisa de cada vez. PCNB é aquele esquema do governo que, para promover a Coreia, deu prêmios para estudantes estrangeiros blogueiros como eu. Lembra? KOICA é a agência de cooperação international através da qual a Coreia ajuda países pobres com projetos de desenvolvimento. Cheong Wa Dae é o palácio do governo e residência do presidente sul-coreano.

O tal evento foi mais pro presidente dar um tapinha nas costas dos muitos voluntários que trabalham em tantos projetos ao redor do mundo, como o Taekwondo Peace Corps, que ensina taekwondo para crianças e jovens como uma alternativa à vida no crime. O programa-pacotão que junta tudo isso se chama World Friends Korea, e é por isso que eu e mais alguns blogueiros (como o Gustavo) fomos convidados.

Pra resumir a história, nós fomos à Casa Azul hoje à tarde e assistimos à cerimônia com mais umas 300 pessoas no jardim, debaixo de um sol que já tá começando a esquentar de verdade. Fiquei impressionado com o esquema de segurança (claro, pro cara que nem tranca a porta, qualquer esqueminha impressiona). Não sei por quê, mas proibiram o uso de celular na cerimônia. E não apenas proibiram, como bloquearam sinal de celular assim que o presidente Lee Myung-bak chegou. E desbloquearam no instante em que ele saiu!

Proibiram também a gente de tirar fotos. Eu levantei, dei umas voltas no jardim, tentei tirar umas fotos com meu celular, mas os seguranças (daqueles com um baita fio ligado na orelha) chegavam já mandando parar na hora. Isso não impediu que eu disfarçasse e pegasse algumas cenas na hora das fotos oficiais. E, claro, fotos à vontade depois que já tinham terminado e o presidente tinha saído.

Na hora do lanche, ele foi de mesa em mesa dar um oi pra turma. Mas não tava com a cara muito boa não. Consegui me apresentar, apertar a mão dele, mas ele não falou nada, ficou parado me olhando. Sei lá se é o jeito dele, mas achei o cara muito sério (ao contrário da Primeira Dama, que distribuía sorrisos). Tá, eu sei, presidente não tem que ser animador de torcida, mas uma piada pra descontrair e um sorriso de vez em quando não faz mal a ninguém. Nesse ponto o Lula é profissional. Ninguém dorme num discurso dele. Fica todo mundo atento pra não perder a piada, a besteira ou o erro de português que ele vai falar, e no final sua mensagem é transmitida.

Ih, eu ia resumir, mas acabei escrevendo demais. Fiquem aí com algumas fotos e meu vídeo clandestino. Pra quem não sabe quem é o Lee Myung-bak, é só procurar um baixinho magrelinho com um "oclão".

Jamali, Gustavo e eu
Deram chapéu pra todo mundo aguentar o sol na cabeça 
Isso foi quando eu falei "Gustavo, disfarça pra eu tirar uma foto aqui escondido"
A minha disfarçada ficou melhor, não?
Eu gostei dessa árvore
O Gustavo esculacha, mas ama essa Coreia!
Olha, tô até parecendo gente!
Basta ampliar essa foto para constatar os bracinhos em "X" do segurança dizendo "não pode tirar foto aqui!!!"
E abaixo o vídeo que gravei pouco antes de terminarem tudo. Narração do Galvão Bueno e comentários do Pelé.

Morre Kim Dae-Jung, ex-presidente da Coreia do Sul

Agora é que a Coreia vai chorar mesmo. As duas Coreias nunca se aproximaram tanto de uma reconciliação como no governo de Kim Dae Jung. Confiram a notícia pelo G1:

"O ex-presidente da Coreia do Sul e Prêmio Nobel da Paz Kim Dae-jung, de 85 anos, morreu nesta terça-feira (18) em um hospital de Seul, vítima de um problema cardíaco derivado de uma pneumonia, informou a agência de notícias local "Yonhap".


Kim foi presidente entre 1998 e 2003, anos em que impulsionou uma política de reconciliação com a Coreia do Norte. Essa liderança lhe rendeu o Nobel da Paz em 2000, mesmo ano da histórica reunião com o ditador norte-coreano, Kim Jong-Il.


O ex-presidente era muito respeitado pela classe política sul-coreana por seu histórico de luta pela democracia em um país que viveu uma ditadura até meados dos anos 1980, período em que foi torturado, condenado à morte e exilado.


O político sul-coreano foi o primeiro presidente a chegar ao poder desde a oposição progressista, já com mais de 70 anos, após passar duas décadas preso pela ditadura.


Kim foi hospitalizado recentemente devido a uma pneumonia, e foi visitado nos últimos tempos pelo atual presidente, Lee Myung-Bak, e pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, além de ter recebido uma homenagem de Kim Jong-Il por ocasião do aniversário da primeira reunião entre líderes das duas Coreias.


Kim Dae-Jung se reuniu com o ditador norte-coreano para assinar um acordo histórico em 2000, que favoreceu a reconciliação nacional, a diminuição das tensões militares e a cooperação econômica, além de ter aberto as portas para o reencontro de famílias separadas à força pela Guerra da Coreia (1950-53).


Seu sucessor, Roh Moo-Hyun, continuou a política de aproximação com a Coreia do Norte, que rendeu vários projetos bilaterais de cooperação econômica, até sua saída do poder em 2007.


Roh se suicidou em maio deste ano por um escândalo judicial, o que desencadeou grandes atos de luto em todo o país, o que deve se repetir agora com a morte de Kim."

Choradeira no funeral

Gente, prometo que essa vai ser a última postagem trágica por esses dias, a menos que outra tragédia aconteça. Pelo andar da carruagem, se um "algo mais trágico" acontecer, talvez eu não esteja aqui para contar...

Calma, mãe! Tá tudo bem por aqui. Uma bombinha atômica aqui, outra ali, mas no geral tá supimpa!

Só queria dar um controucê (CTRL+C) no que o Juliano postou no Kimchi com Café hoje. Estou boquiaberto com a choradeira dos coreanos pela morte de Roh Moo Hyun. A gente sempre tem essa imagem de asiático como um povo que não expressa muito seus sentimentos, né? De fato, eu diria que esse estereótipo tem algum fundamento. Mas não quando se trata de chorar por alguém que morreu.

Assistam o vídeo e tirem suas conclusões. Engraçado é que encaminhei o link para a Agatha hoje à tarde, com os dizeres: "Olha o drama que esses coreanos fazem!". Mais tarde ela me respondeu: "Nossa, que tristeza... Até eu chorei quando assisti!".


http://www.youtube.com/watch?v=2yPowpJExDQ

O suicídio de Roh Moo Hyun

Devido à minha insensibilidade, acabei não dando tanta importância à morte do ex-presidente sul-coreano Roh Moo Hyun (no governo de 2003 a 2008). Eu pouco sabia a respeito dele, e quando li no Kimchi com Café que ele se suicidou e que sua administração está sendo investigada por causa de um esquema de propinas, pensei que seria um político logo esquecido.

Qual não foi minha surpresa nesse domingo, quando vi nos parques de Cheongju vários "velórios" em homenagem ao ex-presidente. E com muita gente chorando mesmo! E nesta semana teríamos o festival da Universidade de Cheongju, inclusive com a nossa barraca de comida latino-americana, mas o festival foi adiado porque o país está de luto oficial por 7 dias.

Eu, que muitas vezes perco boas chances de ficar calado, quando soube que adiaram a festança por causa da morte do ex-presidente, falei com a professora: "Só por causa disso?", ao que ela arregalou os olhinhos puxados e disse "Mas é claro! Temos que mostrar respeito aos nossos líderes!". Depois me perguntou se no Brasil não fazemos o mesmo e eu disse "Que nada! Morte de político, ainda mais corrupto, é motivo de festa...". E também que "no Brasil tudo é motivo de piada, que a gente ri pra não chorar". Ela ficou chocada, tadinha.

Depois, cá com meus botões, eu parei para pensar na bobagem que falei. Desde 2003, o governo Lula já foi investigado várias vezes, com vários "companheiros" sendo desligados por irregularidades. E ainda assim, com seus magníficos 70% de popularidade, se o Lula morresse hoje, o Brasil pararia, sem sombra de dúvida. Se bobear, viraria feriado nacional. Dia do Lula.

Nem precisa ter tanta expressão nacional (e nem a ficha tão limpa): lembro-me que quando o Antônio Carlos Magalhães morreu, a Bahia chorou durante meses e o cara quase foi beatificado.

A história de vida de uma pessoa não pode ser desprezada tão facilmente. Roh Moo Hyun, antes de seguir a carreira política foi ativista que lutou pelos direitos humanos na Coreia durante muitos anos. Em seu governo, além de reformas no sistema tributário, educacional e de distribuição de renda e desenvolvimento igualitário para as regiões mais pobres, Roh Moo Hyun também deu continuidade à política "Raio de Sol", que buscava reconciliar as duas Coreias, enviando todo mês ajuda incondicional aos pobres da Coreia do Norte - política essa que teve um fim já no primeiro dia do governo do atual presidente, Lee Myung Bak.

Não sabemos os reais motivos que o levaram a cometer suicídio. Tudo leva a crer que, se ele se matou por causa das investigações, é porque tinha culpa no cartório. Por outro lado, sua atitude demonstra que se envergonhou do que fez. O medo da vergonha, para seu próprio nome e para a família, é algo comum por estas bandas. E artigo de luxo para os políticos brasileiros: "vergonha na cara".