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A brincadeira de mau gosto de Kim Jong-un

Primeiro quero me desculpar pelo sumiço. Nos últimos dois meses minha vida mudou, porque comecei a trabalhar como professor na Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros e por isso tive que deixar de lado o blogue e as vídeo-aulas por enquanto. Pelo menos até me acostumar com a nova rotina.


Agora, sobre a Coreia do Norte. Eu não queria falar do que tem acontecido aqui, porque o que tenho tentado fazer é fugir do assunto, correr dos noticiários. Mas não adianta: a prosa tá por todo lado. Os portais de notícias e jornais no Brasil, em geral, tratam muito mal do assunto, e os comentários me embrulham o estômago. Para muitos, parece que a Coreia é apenas um filme, um vídeo-game, e torcem para a guerra estourar pra valer. E não aguento mais os jornalistas sensacionalistas que invadem as redes sociais atrás de brasileiros que moram aqui, torcendo para ter notícia ruim. Quando tem notícia ruim, eles aparecem por toda a parte e querem ver o pânico. Eu, inocente, dou minha entrevista, e noto a decepção do jornalista ao ver que não tem nada diferente. Claro que tem jornalista bom, comprometido com a verdade, mas nesse assunto, quanto mais drama, melhor.

Monumento no Museu da Guerra da Coreia, em Seul, mostrando o mundo dividido e soldados norte e sul-coreanos abraçados
Monumento no Museu da Guerra da Coreia, em Seul, mostrando o mundo dividido e soldados norte e sul-coreanos abraçados
Vamos então ao resumo dessa novela que ainda não terminou:

1) Coreia do Norte faz testes de mísseis balísticos - e leva bronca.

2) Coreia do Norte faz teste nuclear - leva bronca e sanções.

3) EUA e Coreia do Sul começam os exercícios militares anuais perto da fronteira, simulando uma guerra contra a Coreia do Norte - ouvem protesto de Kim Jong-un.

4) Os exercícios continuam e, somados às novas sanções, irritam profundamente Pyongyang.

5) Começa a série de ameaças. Primeiro com o de sempre: "vamos tomar atitudes drásticas, Seul vai virar um mar de fogo", etc.

6) As ameaças não param (nem os exercícios militares no Sul). Pyongyang promete cortar a linha de comunicação militar. Ninguém leva muito a sério.

7) A linha é cortada.

8) Kim Jong-un começa a ameaçar os EUA diretamente, dizendo que podem lançar mísseis nucleares ao Havaí, Guam (território americano no Pacífico) e até mesmo ao continente.

9) A Coreia do Sul se mantém calma, afinal o complexo industrial de Kaesong (uma joint-venture industrial, único símbolo de alguma cooperação entre Norte e Sul) continua operando.

10) Kaesong é fechado, e os sul-coreanos expulsos.

11) A TV estatal norte-coreana dá avisos aos diplomatas em Pyongyang, e depois aos estrangeiros residentes na Coreia do Sul, aconselhando-os a deixarem a península.

12) Dois mísseis Musudan de médio alcance são movidos para a costa leste da Coreia do Norte, onde espera-se que aconteçam testes que já eram previstos.

E cá estamos nós, esperando para ver o que vai acontecer depois que dispararem os mísseis. O Japão já posicionou uma bateria anti-mísseis para abatê-los caso ameace o país. Os EUA também fizeram o mesmo em Guam, onde têm uma base militar.

E você me pergunta: como está a situação por aí? E eu repito o que talvez já tenham lido ou ouvido: a vida sul-coreana segue normalmente, com exceção daqueles que trabalhavam no complexo industrial de Kaesong, e agora estão à espera de uma resolução do problema.

Mas uma coisa é verdade: os sul-coreanos estão mais do que vacinados contra as ameaças da Coreia do Norte. Desta vez, no entanto, percebi uma ligeira preocupação maior, porque nunca fizeram tantas ameaças seguidas, e de conteúdo tão forte. Nunca foram tão sem-noção a ponto de ameaçar atacar o território dos EUA diretamente. E desde a abertura do complexo em Kaesong, nunca o tinham fechado. Portanto é, sim, uma situação um pouco diferente.

E outro fator faz dessa novela algo muito especial: temos caras novas dos quatro lados: na Coreia do Norte um playboy jovem, na Coreia do Sul uma senhora cuja mãe foi morta por espiões do avô do playboy, nos EUA John Kerry em vez de Hillary, e na China Xi Jinping. São jogadores novos num jogo velho, por isso podem estar se testando.

Quais são as perspectivas? Quando se trata de Coreia do Norte com líder novo (novo e jovem!), a bola de cristal entra em pane. Mas vale discutirmos algumas ideias.

Primeiro, o que o Kim Jong-un quer? Simples: um tratado de paz com os EUA que reconheça a Coreia do Norte como potência nuclear - o que Kerry já disse hoje que está fora de questão. KJU não quer negociar com a Coreia do Sul, que é apenas uma "marionete" dos EUA. Ele quer ser tratado de igual para igual pelos EUA, que são considerados por ele como o verdadeiro inimigo.

E por que essa estratégia belicosa e de forte retórica? Essa é a questão mais difícil. Se considerarmos as ameaças passadas, podemos simplesmente dizer que eles querem dinheiro e comida em troca de calarem a boca e pararem com as ameaças. Mas li hipóteses mais interessantes a respeito. Uma delas é que existem rumores de que o tio de Kim Jong-un, um militar de carreira e prestígio no país, e quem o tem guiado desde que subiu ao poder, teria tentado dar um golpe de estado, por acreditar que o sobrinho não é forte o suficiente para manter o controle do país. Indícios disso é que o tio, que antes aparecia ao seu lado em todas as fotos, desapareceu de cena logo antes de começar o show de ameaças, que pode ser voltado para os linhas-duras do governo. Outra hipótese, para mim mais esperançosa e otimista, é a de que o número de reformistas civis no governo norte-coreano tem aumentado, e essa balela toda pode ser uma maneira de manter o povo controlado num momento em que se pode tentar fazer reformas.

Afinal, vai rolar guerra ou não? Já disse, a bola de cristal pifou. Mas existem inúmeros motivos para acreditar que não. Um artigo do The Korea Times expõe quatro deles: 1) Kim Jong-un conhece muito bem o poderio militar dos EUA e não tem instinto suicida; 2) estima-se que haja cerca de 300 mil chineses vivendo em Seul, o que causaria um grande problema com Pequim, caso a CdN atacasse a cidade; 3) Kim Jong-un sabe o que tem e o que não tem, e ele não tem poder de fogo e nem recursos para manter uma guerra por mais do que alguns dias; 4) Kim Jong-un, ao mesmo tempo em que faz ameaças, prepara-se para governar a Coreia do Norte durante muitos e muitos anos, apresentando propostas para o sistema de educação e desenvolvimento no longo prazo, e uma guerra simplesmente acabaria com tudo. Além do mais, a elite norte-coreana é que tem tudo a perder. E KJU não quer ser o próximo Saddam Hussein.

E a previsão do tempo para o fim de semana: muita festança e uma maratona internacional (!) em Pyongyang, com as celebrações do aniversário de Kim Il-sung, o avô do playboy e fundador do país.

Por isso, caros leitores, quando virem notícias na TV ou lerem algo nos jornais, pensem em tudo isso. O conflito em larga escala entre as Coreias é mais improvável do que Israel e Palestina, ou outros conflitos locais na África e Oriente Médio. Numa guerra aqui, ninguém ganha. Acredito que a reunificação das Coreias vai acontecer algum dia, mas torço para que seja pacífica, e que comece com uma mudança interna de regime no Norte, por mais impossível que pareça neste momento. Só assim todos ganham.

O massacre de Gwangju

Nas eleições presidenciais da semana passada, a nova presidente foi eleita com 51,5% dos votos, enquanto Moon Jae-in ficou com 48%. Não foi uma vitória folgada. Mas se dermos uma olhada no mapa da Coreia de acordo com o resultado, veremos que praticamente só duas grandes regiões optaram pelo candidato da oposição: Seul e Jeolla-do, onde fica a cidade de Gwangju. Seul, naturalmente, é menos conservadora que as outras regiões, mas ainda assim o votou em Moon Jae-in só com 51,4% dos votos, uma margem pequena. Já em Gwangju, a vitória dele sobre Park Geun-hye foi gigante: 92% contra 7.7%.

Mapa do resultado das eleições presidenciais da Coreia do Sul em 2012. Vermelho representa as regiões que escolheram Park Geun-hye, e amarelo as regiões que escolheram Moon Jae-in Mapa do resultado das eleições presidenciais da Coreia do Sul em 2012. Vermelho representa as regiões que escolheram Park Geun-hye, e amarelo as regiões que escolheram Moon Jae-in



O que explica essa rejeição tão grande pela candidata que acabou ganhando? A resposta é simples: o massacre de Gwangju, de 18 de maio de 1980. Como já contei antes, o pai de Park Geun-hye, o general Park Chung-hee, foi presidente através de um golpe militar e governou de 1961 até 1979, quando foi assassinado. Nesse momento, o movimento estudantil ganhou força na luta pela democratização do país. E Gwangju foi a cidade com a maior mobilização popular: não apenas estudantes, mas a cidade toda saiu às ruas para protestar contra a ditadura que se manteve com o sucessor de Park Chung-hee. O que o governo fez? O que as ditaduras fazem: tentam abafar e amedrontar os que protestam. Mandaram o exército para as ruas de Gwangju, e mataram sem mirar a quem: jovens, crianças, todos. No final, foram 165 mortes e mais 65 desaparecidos. E mais umas centenas de feridos.

Manifestantes em Gwangju, 1980 
Manifestantes em Gwangju, 1980

Obviamente, não quero com este post dizer que a presidente-eleita foi a responsável pelo massacre. Claro que não. Porém, o que o povo de Gwangju não suporta é a mínima ideia de que ela tenha feito parte desse sistema ditatorial que tem as mãos tão sujas de sangue na história sul-coreana. É a imagem dela que, na memória de Gwangju, está muito associada aos velhos militares antidemocratas.

Por conta disso, Gwangju é também a cidade com o maior sentimento antiamericano no país inteiro, pois quem financiava a ditadura sul-coreana eram os EUA (como foi na América Latina, na Indonésia, no Egito, e a lista segue). Gwangju e Jeolla-do portanto, destoam do restante do interior coreano, mesmo tendo um ar provinciano. A luta pela democracia é o maior orgulho do povo de lá, e as feridas deixadas pelo massacre ainda não se cicatrizaram completamente.

Abaixo, algumas cenas do filme "Feriado Esplêndido" (화려한 휴가, que foi traduzido como "May 18" em inglês). O filme foi feito a partir de relatos dos sobreviventes do massacre. Um coisa impressionante.

Promessas de campanha de Park Geun-hye, a primeira mulher eleitapresidente da Coreia do Sul

Minhas previsões se confirmaram: Park Geun-hye ganhou as eleições presidenciais da Coreia do Sul. Não foi grande surpresa um país ainda conservador eleger uma conservadora, mesmo sendo filha do ex-ditador Park Chung-hee, pois ainda existe gente saudosista na Coreia que acredita que a ditadura foi boa para o povo.


Park Geun-hye, a primeira presidenta da Coreia do Sul (foto) Park Geun-hye, a primeira presidenta da Coreia do Sul (foto). Olha a felicidade!


Park Geun-hye, no entanto, tentou se livrar desse legado pesado para fisgar os indecisos - e conseguiu. Suas promessas de campanha foram muito parecidas com as do seu opositor. O jornal The Korea Herald relembrou algumas dessas promessas, que eu resumo abaixo.

Coreia do Norte: criação da confiança mútua

Ela prometeu uma política equilibrada com a Coreia do Norte - nem linha dura, nem generosa demais. As duas versões foram tentadas em governos anteriores (o atual presidente, do seu partido, mantém um linha dura com os vizinhos). Para preparar o país para uma futura reunificação, ela propôs um plano passo-a-passo que lista o estabelecimento da paz, integração econômica, e a instalação de "escritórios" da Coreia do Norte em Seul, e da Coreia do Sul em Pyongyang, para melhorar a comunicação bilateral. Outras propostas incluem ajuda humanitária para os pobres do Norte, regularizar os encontros de famílias separadas, internacionalizar o complexo industrial de Gaeseong, e explorar conjuntamente os recursos naturais do subsolo da península.

Reforma política

Park Geun-hye prometeu um sistema de eleições primárias diretas para os candidatos ao Parlamento, limitar a imunidade parlamentar, descentralizar o poder e aumentar as penas para o crime de suborno. Para reduzir o poder presidencial, ela propôs delegar ao Primeiro-Ministro e outros ministros a decisão de escolha dos chefes de secretarias e outras instituições ligadas a cada ministério.

Mulheres

Esse foi o centro do marketing de sua campanha: o fato dela ser mulher, e portanto, prometeu lutar pelos direitos das mulheres. Sua proposta inclui: creches de graça, horas de trabalho reduzidas para mulheres grávidas, um mês de licença paternidade, serviços para cuidar de crianças depois da aula para pais e mães que trabalham, apoio às mulheres que desejam voltar ao trabalho depois da licença maternidade. Prometeu também aumentar o número de mulheres em cargos de liderança no governo. Para estimular os pais a terem mais filhos (pois a Coreia sofre com a baixa taxa de natalidade), prometeu bolsas de estudos para o terceiro filho, bem como apoio às famílias de baixa renda, provendo leite e fraldas. E também apoio aos pais e mães solteiros, e às famílias multiculturais.

Empregos e crescimento econômico

Ela propõe se focar mais na criação de emprego do que no crescimento econômico. Park Geun-hye prometeu investir mais na "economia criativa", como a indústria de software. Ela diz também que é necessário aplicar a ciência e tecnologia nas indústrias para agregar valor aos setores manufatureiros tradicionais para criar novos mercados para o setor de serviços.

Bem-estar social e saúde

PGH propôs um sistema adaptado às necessidades de cada grupo social, e cada idade, em vez de algo universal. Ela prometeu tratamento médico completo para pacientes com uma dessas quatro doenças: câncer, distúrbios cardíacos e cerebrovasculares, e doenças terminais. Apoio aos idosos também é uma de suas prioridades: ela prometeu expandir as pensões para aposentados e incluir implante dentário para idosos nos seguros-saúde. Também propõe criar um seguro-saúde 50% mais barato para estudantes universitários de famílias de baixa renda. Uma parte ambiciosa de seu plano inclui educação de graça para alunos do ensino médio, independente da classe social.

Democratização econômica

Um dos problemas da economia sul-coreana é que os grandes conglomerados têm muito poder e influência no governo, o que faz com que a economia cresça, mas os pequenos empresários sofram. PGH propôs proteger as pequenas e médias empresas, bem como os pequenos mercados dos bairros, que estão sendo varridos pelas grandes redes.

Melhora da competitividade das pequenas e médias empresas

O governo anterior focou muito no apoio aos chaebols para atingir seus objetivos econômicos. PGH quer priorizar a classe média empreendedora, criando mais empregos de qualidade desenvolvidos pela própria classe média. Ela prometeu criar um sistema para aumentar a competitividade global de empresas médias, e para que essas trabalhem em parceria com os grandes grupos existentes. No entanto, detalhes do plano não foram apresentados nessa área, mas sim para a área de pesca e agricultura, para que o setor use mais tecnologia disponível.

Reforma educacional

Para reduzir os custos com educação, ela propôs uma reelaboração de todos os livros escolares, para que os alunos não precisem de professores particulares em casa, e possam aprender melhor sozinhos. Ela também disse que vai proibir as escolas de fazerem provas com questões de nível acima do nível apropriado, o que gera estresse entre os estudantes. As escolas primárias também terão aulas depois das aulas. Além do ensino médio de graça e de bolsas universitárias, PGH prometeu reduzir os juros de empréstimos para educação para algo próximo de zero.

Economia criativa

Essa expressão foi usada no centro da propaganda de PGH na área econômica, e engloba uma ligação entre tecnologia, inovação, financiamento e marketing. Ela acredita que é hora da Coreia mudar o motor do crescimento da economia coreana para as indústrias do conhecimento. Ela propõe o smart new deal, que expandiria a indústria de software e IT na economia. Para tornar a economia mais "criativa", ela também propõe criar mais empregos que não requeiram pontos em exames quantitativos (o que beneficia o cara que memoriza bem, mas prejudica o criativo).

Segurança pública

PGH diz ser necessário investir mais na polícia para combater o que chamou de "os quatro males sociais", que são: violência sexual, violência escolar, crimes relacionados à comida e crimes que destroem a família. Para isso, ela propõe aumentar a força policial em 4 mil policiais por ano, atingindo um total de 20 mil a mais no final dos 5 anos de seu mandato. O combate aos crimes sexuais foi muito enfatizado, pois é uma de suas promessas às mulheres coreanas. Ela também vai revisar as leis brandas em relação aos criminosos sexuais com menos de 16 anos. Além disso, a prostituição e a pedofilia serão combatidos com mais força, segundo ela.

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É promessa pra caramba, né? Pois então. Quem lê assim, nem pensa que se trata de uma candidata do mesmo partido do atual presidente. Se ela cumprir o que prometeu, terá sido uma presidenta arretada. Mas se tiver sido só marketing para ser eleita, isso vai ser cobrado nas eleições de 2017.

Em relação às promessas de paz com a Coreia do Norte, não podemos nos esquecer de que sem os EUA não se toma decisão neste país. Não nessa área. E além disso, Kim Jong-eun e seus companheiros já estão com 40 mil pulgas atrás da orelha com Park Geun-hye. Por mais lindas que suas propostas sejam, ela é filha do cara que tentou matar seu avô, que por sua vez, também tentou matar o pai de Park Geun-hye inúmeras vezes. Portanto, a tal da "confiança mútua" não vai ser um trabalho fácil...

Mas pra mim, e muito mais para os sul-coreanos, se ela conseguir cumprir o que prometeu no que diz respeito à expansão do estado de bem-estar social, já será um grandioso feito. Agora é torcer para que venham as mudanças, e para melhor.

Moon se opõe ao casamento gay

Estamos a dois dias das eleições, e temos algumas novidades: a candidata Lee Jeong-hee (a "Plínio de Arruda" dos coreanos) saiu da corrida. Talvez tenha calculado que tomaria eleitores da ala esquerdista, mas não de Park Geun-hye.

A outra novidade é que o candidato esquerdista está indo para a direita para ver se consegue pescar os indecisos. E em mais uma semelhança com as eleições presidenciais no Brasil em 2010, parece que os religiosos é que vão decidir a parada. Moon Jae-in prometeu aos cristãos sul-coreanos que não deixará que seja aprovada nenhuma lei permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo.


O candidato, que se auto-entitula defensor dos direitos humanos e cujo slogan de campanha é "As pessoas em primeiro lugar", está sendo criticado por Hahn Chae-yoon, presidente do Centro de Direitos e Cultura da Minoria Sexual Coreana. Com esse slogan, "o que é que o candidato considera como pessoa"?

Obviamente, a candidata do partido conservador não sofre a mesma pressão, pois sabe que sua base de apoio nem levanta a questão. Mas a posição de Moon foi uma surpresa para alguns. O gay coreano deve estar se perguntando: "Ó, e agora, quem poderá nos defender?"

A legislação coreana apenas permite aos que passam por cirurgia de mudança de sexo de terem sua identidade modificada também (segundo a Marmota), mas debater a homossexualidade (ou mesmo a sexualidade em geral) na Coreia é um tabu tão grande, que pelo jeito vai ser uma daquelas questões empurradas com a barriga por mais um bom tempo.

O primeiro casal gay de uma novela da SBS, "Life is Beautiful", em 2010 
O primeiro casal gay de uma novela da SBS, "Life is Beautiful", em 2010

O mais próximo de um debate amplo sobre o assunto na Coreia foi em 2010, quando uma novela do canal SBS chamada "Life is Beautiful" (이생은 아름다워) levou para a TV um casal gay, atuado por Song Chang-eui e Lee Sang-woo. Eles faziam o papel de um casal estável e sem estereótipos. Muitos fãs não gostaram da "novidade", mas o restante ficou revoltado mesmo foi quando uma cena da novela foi proibida de ir ao ar. Na cena, os dois trocavam votos de fidelidade numa igreja na ilha de Jeju, e esta fez muito barulho, reclamou no canal, exigindo que a cena fosse retirada. Os produtores ficaram com medo da polêmica e acabaram fazendo o corte na edição final, para a decepção da autora, Kim Soo-hyun. Agora, se nem na novela os caras podem se casar, na vida real vão ter que esperar um bocado...

O que é ser coreano?

O jornalista coreano Choe Sang-hun publicou recentemente no jornal The New York Times um artigo sobre as transformações étnicas e culturais que vêm acontecendo na Coreia do Sul nos últimos anos. O artigo conta a história de Jasmine Lee, a primeira coreana naturalizada a se tornar membro do Parlamento Nacional em abril deste ano, e lembra a rapidez com que as mudanças têm ocorrido na Coreia para diversificar sua constituição étnica.

Apenas uma década atrás, livros escolares incitavam os sul-coreanos a se orgulharem de terem "um só sangue" e serem etnicamente homogêneos. Agora, o país se depara com a perspectiva de se tornarem uma sociedade multiétnica. Apesar da população imigrante ser ainda pequena comparada à de países de tradição imigratória, ela é suficiente para desafiar a maneira como os sul-coreanos se vêem.

"É hora de redefinir o 'coreano'", afirma Kim Yi-seon, pesquisador-chefe sobre multiculturalismo no Instituto de Desenvolvimento das Mulheres Coreanas, financiado pelo governo. "Tradicionalmente, ser coreano significava ser alguém que nasceu de pais coreanos, que fala coreano, tem aparência e nacionalidade coreana. As pessoas não vêem alguém como coreano só porque ele tem cidadania coreana."
 
A parlamentar de origem filipina Jasmine Lee, presente numa cerimônia de casamento coletivo entre casais multiétnicos

Jasmine Lee foi uma das primeiras mulheres a desafiar a noção de "coreanidade." Nascida e criada nas Filipinas, ela se mudou para a Coreia do Sul em 1994, e se casou com um coreano em 1995, um tempo em que havia pouquíssimos estrangeiros residindo no país.
"Em 1995, as pessoas adoravam me ver falando 'oi' e 'obrigado' em coreano, apesar de que era praticamente tudo o que eu sabia da língua", diz Jasmine. "Mas no início dos anos 2000, no entanto, as pessoas começaram a me olhar suspeitosamente. No ônibus me perguntavam 'Por que você está aqui?'"

Jasmine Lee participou de vários programas e até novelas na TV coreana 
Jasmine Lee participou de vários programas e até novelas na TV coreana

Felizmente, Jasmine foi uma história de sucesso, em parte facilitada pelo fato dela ser considerada bonita pelos coreanos. Logo, ela participou de vários programas de TV, inclusive um sobre "famílias multiculturais" na Coreia. O número dessas famílias tem crescido, em grande parte, graças às mulheres imigrantes do Vietnã e das Filipinas que se casam com coreanos da zona rural do país. Estes têm sido responsáveis por um aumento gigante no nascimento de crianças mestiças no interior coreano: estima-se que hoje, 25% de todos os recém-nascidos do interior sejam mestiços. Essa mudança demográfica sem dúvida alguma ajudou a erguer o capital político de Jasmine, que hoje é representante no Parlamento.

No entanto, como em muitos outros países que abriram suas portas para os imigrantes, as reações xenofóbicas de alguns grupos é inevitável.
Depois da eleição de Jasmine Lee, ativistas anti-imigração alertaram que "ervas daninhas" vindas do exterior estavam "corrompendo a linhagem sanguínea coreana, "e incitaram partidos políticos a se "purificarem", expelindo Jasmine do Parlamento Nacional.

O Primeiro Ministro Kim Hwang-sik condenou essa explosão xenofóbica como "patológica," e pediu que os sul-coreanos aceitem a transição para uma sociedade multicultural "não como uma escolha, mas como um imperativo."

Outros grupos nacionalistas também alegam que essa mistura pela qual os sul-coreanos estão passando pode afetar uma possível reunificação das Coreias, pois no Norte eles ainda adotam políticas de "purificação étnica."

Bem ou mal, a Coreia do Sul tem caminhado e enfrentado essa questão. Eu já recebi muitos emails de pessoas me perguntando se serão bem-vindas na Coreia, se poderão se casar com um(a) coreano(a) sem problemas, e coisas assim. E a cada dia que passa fica mais difícil responder a essa pergunta. Nós, estrangeiros que vivemos na Coreia, estamos vivendo uma experiência única na história sul-coreana que não sabemos aonde vai dar. É possível que a xenofobia ganhe força? Sim, claro, principalmente em tempos de crise. Mas também é possível que ocorra uma mudança demográfica irreversível, como já vem ocorrendo graças à baixa taxa de natalidade dos "coreanos puros."

No ano passado o governo já liberou a entrada de coreanos não-étnicos no serviço militar, e também facilitou o processo para obtenção do visto de residência permanente, o "green card." Resta saber se essa política veio para ficar.

A terceira candidata: Lee Jeong-hee

Talvez eu tenha subestimado (assim como a mídia coreana toda) a força de uma outra candidata à Presidência da Coreia do Sul: Lee Jeong-hee, do Partido Progressista Unificado (통합진보당). Ontem tivemos um debate entre os três candidatos: os dois dos quais falei antes, Moon Jae-in e Park Geun-hye, e essa terceira via, Lee Jeong-hee. Lee surpreendeu não por sua própria popularidade, mas por sua capacidade em desferir argumentos contra Park o tempo todo, possivelmente causando danos à imagem de Park que só serão comprovados no dia da eleição. A Marmota postou trechos dos ataques de Lee Jeong-hee a Park Geun-hye em seu site, e vou transcrever alguns abaixo.

Lee Jeong-hee, do Partido Progressista Unificado 
Lee Jeong-hee, do Partido Progressista Unificado (foto)



Sobre corrupção: "A Sra. Park falou em acabar com a corrupção. É difícil de acreditar nisso, pois vem de alguém que manteve seu status recebendo salários derivados de bens roubados. O ex-presidente Chun Doo-hwan pagou à Sra. Park 600 milhões de wons. Naquela época, você poderia comprar 30 prédios com esse dinheiro, e esse foi o dinheiro que a ditadura Yushin de [seu pai] Park Chung-hee recebeu dos conglomerados. A Fundação Jeonsu, a qual Park preside, tem bens roubados que o ex-presidente Park Chung-hee extorquiu de Kim Ji-tae (...) Seu partido tem tanta corrupção, mas eles fazem vista grossa para proteger os números de Park Geun-hye nas pesquisas. Será que ela prometeria ao povo renunciar imediatamente caso alguém próximo de si recebesse propina?"

Sobre diplomacia: "O fundamento da diplomacia é proteger a soberania da nação. Takagi Masao, cujo nome coreano era Park Chung-hee, se tornou oficial do exército japonês ao escrever uma carta de lealdade de sangue. Depois da independência, ele subiu ao poder através de um golpe e forçou o Tratado Básico Coreia-Japão. 'A maçã não cai longe da árvore'. A Sra. Park e seu partido - os descendentes da ditadura e da colaboração com os japoneses - venderam a soberania econômica da Coreia com o Tratado de Livre Comércio com os EUA. Eles não merecem nem cantar o Hino Nacional"

Sobre o motivo de estar concorrendo à Presidência da República: "Lembrem-se disto: estou concorrendo nestas eleições apenas para garantir que a Sra. Park perca."

Eu só percebi que Lee Jeong-hee estava sendo a sensação do debate quando vi amigos coreanos postando comentários no Facebook sobre uma candidata que quase não havia aparecido até então. Resta saber se ela é apenas uma versão coreana do Plínio de Arruda - que anima o debate, mas tem pouco impacto no resultado final - ou se consegue mesmo tirar Park Geun-hye da liderança nas pesquisas. Em duas semanas saberemos.

Dokdo é terra coreana!

Quer um assunto sensível para discutir com um coreano? Fale sobre Dokdo. Quer que a conversa dê pano pra manga, fale sobre Takeshima. As duas palavras se referem à mesma coisa: duas ilhotas pedregosas que ficam no Mar do Japão ("Mar do Leste", para os coreanos) e que são disputadas entre a Coreia do Sul e o Japão. Cada país tem seus argumentos históricos quanto à nacionalidade das ilhas, mas isso não vem ao caso aqui. A ocupação de facto é sul-coreana (com uma população enorme: dois habitantes), e acho que devia mesmo ficar mesmo com os coreanos. Só que o pessoal aqui faz tanto barulho por causa dessa briga, que só resta aos estrangeiros se divertirem.


E nos divertimos mesmo! Os coreanos acreditam estar fazendo uma campanha extraordinária para comover as comunidade internacional, e eu fico me perguntando: num mundo onde ainda temos uma Palestina sem território soberano, que tipo de apoio internacional eles querem para esfregar na cara dos japoneses que Dokdo é Dokdo, e não Takeshima? Ativistas nus protestando em Tóquio contra a o terror da pressão japonesa?

A grandiosa Dokdo. Ou seria Takeshima? 
A grandiosa Dokdo. Ou seria Takeshima? (foto)

Implicações políticas à parte, o bom dessa história toda é uma musiquinha que ensinam pras crianças coreanas aqui, chamada "Dokdo-neun uri ddang" (독도는 우리 땅), que significa "Dokdo é terra coreana". A explicação lógica para dizer que Dokdo pertence à Coreia é fantástica: "O Havaí é americano, Daemado é japonês"... consequentemente, Dokdo é da Coreia. Tão simples! Não sei como esses japoneses não entendem isso...

Aqui vai a música original em coreano:


Mas o melhor MESMO é a campanha que fizeram para traduzir a música para diversas línguas. Eles pegaram alunos estrangeiros na Coreia, devem ter dado alguns trocados ou pagado um samgyeopsal, e zás! Temos a maravilhosa tradução dessa belíssima composição coreana até em português! Desativaram a opção de classificar no vídeo no YouTube (não faço ideia do porquê!), mas aqui posto a versão à la Latino de 독도는 우리 땅! Fica a dica para a Argentina quando quiser apoio internacional na questão das Malvinas. :)

"A 1ª Presidenta" em coreano

A 1ª Presidenta. Em coreano.

E falando de política, olha só: estive hoje no escritório do KOBRAS (Korea Brazil Society) em Seul, e soube do lançamento na Coreia da versão traduzida do livro "A 1ª Presidenta", de Helder Caldeira. A tradução foi feita por Kim Yong-Jae, que até me presenteou com uma cópia do livro em coreano. Ainda não o li, mas meu primeiro comentário (um pouco confuso) foi: "e esse tucaninho aqui na cara da Dilma?" E a explicação: "O livro faz parte de uma série de livros sobre o Brasil, chamada Tucano Books, por ser um animal típico do país." Acho que a ideia se baseou na série britânica Penguin Books, apesar de que os pinguins passam bem longe da Inglaterra...

Eleições presidenciais 2012 na Coreia do Sul

Tá chegando! Dia 19 de dezembro os sul-coreanos vão às urnas para decidir quem será o(a) próximo(a) presidente da República da Coreia (ou Daehanminguk, 대한민국), o nome oficial da Coreia do Sul. Independente de quem ganhar, provavelmente teremos um cenário político interessante no país a partir de 2013. Mas antes de falar um pouco sobre os candidatos, acho importante ressaltar que o sistema eleitoral por aqui é bem diferente do brasileiro. Na Coreia do Sul, as regras do jogo são as seguintes:

  • o Presidente da República é eleito para um mandato único de 5 anos;

  • o registro das candidaturas acontece a menos de um mês das eleições;

  • o voto é facultativo, ou seja, você só vota se quiser (e puder, claro);

  • a campanha dura 23 dias para as eleições presidenciais e só 14 dias (!) para as legislativas e locais;

  • não tem segundo turno. Um candidato pode ser eleito com menos de 50% dos votos válidos;

  • a votação acontece na primeira quarta-feira a partir de 70 dias antes do fim do atual mandato. Essa quarta é feriado, e foi definido assim para que as pessoas não viajem no dia e se disponham a ir votar;

  • para evitar um grande número de candidatos e garantir a "sinceridade" da candidatura, o candidato a Presidente deve fazer um depósito de 300 milhões de wons (mais ou menos 570 mil reais), que serão devolvidos ao final do processo eleitoral;

  • assim como nos EUA, os partidos devem fazer prévias para decidir as candidaturas, exceto no caso dos candidatos sem partido, o que é permitido aqui;

  • a Comissão Eleitoral Nacional (equivalente ao TSE no Brasil) estabelece um valor máximo para as campanhas, baseado no tamanho da população, renda per capita e média de custos. Esse limite é porque os candidatos são reembolsados pelo governo (financiamento público) após o fim do processo, mas antes precisam prestar contas para receberem o dinheiro.

Como se pode ver, o negócio aqui é bem diferente do que temos no Brasil. Uma característica em particular muda toda a dinâmica eleitoral como a conhecemos: o prazo para o registro das candidaturas. Só para comparar, um ano antes das eleições presidenciais de 2010 no Brasil, já sabíamos que a Dilma seria a candidata do PT. No início do ano já vimos a movimentação da candidatura da Marina pelo PV, e o PSDB, que "demorou" (segundo analistas políticos brasileiros) já tinha escolhido o Zé Serra seis meses antes do dia do pleito. Agora imaginem só: até a semana passada, dentre os principais candidatos sul-coreanos, só tínhamos certeza da candidatura da Park Geun-hye, enquanto aguardávamos a decisão entre os dois outros candidatos da oposição. Essa enrolação se deve ao fato de que não há segundo turno, por isso a oposição precisava se decidir por um único candidato para ter mais chances de vencer a candidata do partido do atual presidente.

 
Índice de participação popular nas eleições presidenciais anteriores na Coreia do Sul. Um dos desafios é levar os jovens às urnas (fonte)

Vamos aos corredores, então. Desde sexta (dia 23/11), sabemos oficialmente que os dois principais candidatos são Park Geun-hye (do "Partido da Nova Fronteira", 새누리당) e Moon Jae-in (do "Partido Unido Democrático", 민주통합당). Até sexta passada, o candidato Moon (que não tem nada a ver com o reverendo Moon, acho eu) estava numa queda de braço com o pré-candidato independente Ahn Cheol-soo, um cara que ficou rico com uma empresa de software anti-vírus. É que as pesquisas mostravam Park com mais de 44% das intenções, enquanto os outros dois variavam entre 20 e 25% cada um. Num espectro político direita-esquerda, podemos dizer que Park representa a direita conservadora sul-coreana, enquanto os outros dois estariam mais à esquerda liberal. Daí a divisão.

No entanto, política não é tão simples. O eleitor comum não pensa muito em ideologias. Muitas vezes é a personalidade quem conta. E nessa brincadeira, Park Geun-hye pode acabar papando essa eleição, apesar de tudo. Dá uma olhadinha no perfil dela.

 
A candidata do NFP (sigla em inglês), Park Gyen-hye (à esquerda) e seu oponente, Moon Jae-in (DUP, à direita) (foto)

Park Geun-hye é a primeira candidata mulher com chances reais de ganhar uma eleição presidencial na Coreia do Sul. O que pesa a seu favor? Ela tem uma vasta experiência política não só como parlamentar na Assembleia Nacional, mas também como Primeira-Dama de seu pai, que foi Presidente nos anos 60 e 70, e ficou conhecido como aquele que colocou a economia do país nos eixos e firmou a base para o desenvolvimento. O que pesa contra? Papai também foi um ditador militar barra pesada. Ou seja: Park Geun-hye é uma figura que representa uma mudança quando se pensa na questão da representação feminina na política coreana, até porque ela nunca se casou, o que, na Coreia, até pouco tempo atrás era fortemente discriminado (e ainda é de certa forma). Mas os que temem uma volta do ultra-conservadorismo, que vai além das políticas do atual Presidente, vêem sua ligação com o governo de seu pai um grande perigo. Aliás, esse é o maior desafio de Park: descolar sua imagem tanto de seu pai quanto do atual Presidente, Lee Myung-bak (que conheci pessoalmente em 2010 numa boca-livre na Casa Azul). Para isso até mudaram o nome do partido. Antes era o "Grande Partido Nacional" (한나라당) e virou "Partido da Nova Fronteira" (새누리당). Sabem como é né: tipo PFL virando Democratas. Queimou o filme, muda de nome. Lavou tá novo.

O candidato da oposição, Moon Jae-in, tem uma história bem diferente. Ele estava "do lado de lá" na época da ditadura do pai de sua oponente. Moon foi preso diversas vezes por liderar o movimento estudantil contra a ditadura do general Park. Esse movimento começou dentro da Kyung Hee University (onde eu fiz meu mestrado, e por isso recebi inúmeros emails da instituição apoiando sua candidatura), universidade onde Moon estudou Direito e até deu umas aulinhas. Mas Moon Jae-in também tem sua imagem vinculada a um ex-Presidente: Roh Moo-hyun, que governou no período 2003-2008, quando Moon foi seu equivalente a "Ministro da Casa Civil." Por isso, nem ele nem sua rival representam algo muito novo. Além disso, Roh cometeu suicídio em 2009 por não suportar as alegações de corrupção durante seu governo. Mas Moon tem a seu favor o fato de que seu partido, assim como toda a esquerda sul-coreana, propõe uma expansão do Estado do Bem-Estar Social, que é bem fraquinho na Coreia (bem nos moldes estadunidenses). Creches de graça para crianças até 5 anos, melhora das leis trabalhistas, menos privilégios para os chaebols (grandes conglomerados como Samsung, Hyundai, etc), enfim, maior proteção social.

Park Geun-hye agora também se moveu para o centro no seu discurso, mas essa curta campanha promete pegar fogo. Moon Jae-in a tem atacado com palavras afiadas: "Enquanto eu vivia na pobreza, ela vivia uma vida de princesa na Casa Azul. Enquanto eu lutava contra a ditadura, ela estava bem em seu centro." (fonte)

A [falta de] liberdade de expressão dos sul-coreanos

Este semestre estou fazendo uma matéria sobre as relações entre a Coreia do Norte e a do Sul. E também estou coletando material para revisar a literatura sobre o assunto para possivelmente usar na minha dissertação. O problema é achar dados oficiais confiáveis sobre a Coreia do Norte. Então, pela primeira vez, pensei em procurar algum site oficial do governo norte-coreano, já que ultimamente eles estão mais saidinhos e criando até conta no Twitter. Eu não esperava encontrar nenhum dado totalmente confiável vindo de um órgão do governo norte-coreano. Mas esperava, pelo menos, ter acesso a eles.

Rá! Qual não foi minha surpresa ao encontrar o endereço do tal site (www.korea-dpr.com) só pra descobrir que o bendito estava bloqueado para IPs sul-coreanos. Uma baita mensagem aparece dizendo que o site é ilegal. Assim como qualquer outro tipo de veiculação do governo norte-coreano: TV, rádio, Twitter, etc.

Além de ficar revoltado por descobrir cada vez mais que a democracia sul-coreana sofre de esquizofrenia guerra-friística, o bloqueio cibernético me matou de curiosidade de ver o conteúdo do site. Então pedi para meu amigo Ivan, que mora no Brasil, para acessar o site, salvar as páginas e me enviar.

Uma coisa me surpreendeu positivamente no site. Eles divulgam uns pacotes de viagem para turistas assistirem a dois grandes espetáculos do país, dentre eles o famoso Arirang Mass Games. Lógico que os pacotes devem ser caríssimos, porque cada turista ganha de presente um oficial do governo para vigiá-lo durante toda a viagem. De qualquer forma acho a divulgação positiva. O que não me surpreendeu, porém, foi a propaganda contra o governo do Sul, que como sempre é considerado por eles "uma marionete dos americanos imperialistas."

No entanto, meu amigo leu uma página que o assustou e me perguntou se era verdade. O site norte-coreano diz que na Coreia do Sul existe uma Lei de Segurança Nacional (National Security Law) que proíbe os cidadãos sul-coreanos de lerem qualquer coisa sobre a Coreia do Norte, sob pena de prisão ou até de morte. E quem tentar atravessar a fronteira para o Norte será morto pelos soldados americanos.

Minha primeira reação foi dizer que isso era uma mentira sem tamanho, claro. Que aqui na Coreia do Sul as pessoas são livres para dizerem o que pensam e para pesquisarem sobre o regime norte-coreano. Mas depois fiquei ligando alguns fatos: Lee Myung-bak proibiu protestos em multidão, sob pena de prisão; os sites norte-coreanos são bloqueados... e eu que não sabia nada sobre a tal Lei de Segurança Nacional, resolvi dar uma googladinha rápida.

Surpresa! A tal lei realmente existe, não é tão rígida como o site norte-coreano diz, mas sem dúvida alguma restringe a liberdade de expressão de qualquer cidadão sul-coreano. Ela foi criada em 1948, baseada numa lei anterior que os japoneses tinham estabelecido, proibindo qualquer tipo de informação sobre o comunismo. Ao longo dos anos ela foi modificada, e foi amplamente usada para reprimir e prender qualquer manifestação contra o governo ou a favor do comunismo até 1994. Depois ela deu uma abrandada, com a democratização do país, mas vejam algumas coisas que ela ainda restringe:

Os cidadãos não podem:
- se juntar a uma organização que tente derrubar o governo; (caras-pintadas do Collor, hellooo!)
- criar, distribuir ou possuir materiais que promovam ideias contra o governo;
- se negar a denunciar os que violam a lei.

Desde 1978, mais de 1.200 livros e outros materiais foram proibidos no país por carregarem "ideias do inimigo", e apesar de os tribunais terem abrandado desde os anos 90, multas ainda são aplicadas para editoras que publicam materiais que alimentem grupos subversivos.

E ainda segundo o mesmo artigo sobre a lei na Wikipédia, em 2002, um estudante que servia o exército foi condenado a 2 anos de prisão por ter dito aos colegas: "Eu acho que a separação das Coreias não é culpa da Coreia do Norte, e sim dos americanos". O estudante também possuía em casa livros que se enquadravam nos descritos anteriormente.

Eu que achava que vivia numa democracia de primeiro mundo...!

Mas é exatamente isso que o governo quer que pensemos. Com tanto autoritarismo na Coreia do Norte, qualquer leizinha aqui ou ali não vai estragar a imagem da Coreia do Sul. Mas a verdade é que são países-irmãos ainda tentando vencer um briguinha ideológica na queda de braço, esperando em vão o dia em que o outro vai cair de repente para poder controlar a península toda. Afinal é isso que as constituições dos dois países dizem: "a península é nossa!" e "o outro governo não é legítimo, é invasor".

Na minha opinião, a Coreia do Sul -- esta maravilhosa recém-desenvolvida democracia asiática anfitriã da reunião do G20 em novembro -- deveria dar o exemplo de liberdade. Já passou da hora de anular leis da época da Guerra Fria. Já passou da hora de reconhecer a Coreia do Norte como um país independente (ainda que autoritário). E já passou da hora de mandar esses 35 mil estadunidenses pra casa e ter forças armadas capazes de proteger seu próprio país.

Já passou da hora. A mais avançada das duas Coreias ainda está atrasada.

LMB e os rios da Coreia

Toda semana sai algum artigo no Hankyoreh (um jornal claramente de oposição ao governo de Lee Myung-bak) sobre o "Projeto de Restauração dos Quatro Rios". O que eu acho estranho é que nenhum outro jornal coreano fala tanto do tal projeto, e o Hankyoreh não explica o porquê da oposição. Só vejo editoriais com títulos como "O governo deve parar as obras nos quatro rios imediatamente!" ou "Lee Myung-bak não ouve o povo e segue com as obras nos quatro rios".

Imparcialidade passa longe nos jornais daqui. E eu, mesmo tendo várias críticas ao governo de LMB, gostaria de ver os dados do governo e as críticas, para fazer meu próprio julgamento. Parece que a maior crítica é em relação ao processo de licitação, que acabou por beneficiar empreiteiras que apoiaram a campanha do atual presidente. Se for isso, realmente tem que parar e fazer a coisa certa. O problema é que o Hankyoreh coloca a coisa de tal forma que parece que a obra é totalmente desnecessária, e que não tem cabimento nenhum.

Mas como eu não tenho conhecimento técnico sobre o assunto, vou falar de outro exemplo de obra que enfrentou oposição igualmente feroz: a restauração do Cheonggyecheon. E adivinha quem era prefeito de Seul na época? O próprio Lee Myung-bak!

O Cheonggyecheon passou por um profundo processo de deterioração ao longo dos anos, chegando até a ser tampado completamente, continuando a ser poluído longe dos olhos da população. LMB levou adiante então o projeto, que previa a remoção de grande parte do trânsito e comércio da região, a abertura e despoluição completa do rio.

As críticas diziam que o projeto era caro demais e que muitas pessoas perderiam seus empregos. LMB foi contra a opinião pública e levou a cabo o projeto, que hoje é ponto de parada obrigatória para o turista em Seul e motivo de orgulho para os sul-coreanos.

E engraçado é que aqui na Coreia as divisões em esquerda e direita política são meio diferentes de outros países. A direita fica com o discurso duro na política externa ao mesmo tempo em que abraça a bandeira ambiental (meio que Bush pra fora e Obama pra dentro), enquanto a esquerda fala vagamente de movimentos sociais e se opõe a projetos ambientais, sem apresentar alternativas.

Sabe qual vai ser o resultado? LMB vai tapar os ouvidos para os protestos, vai levar o tal projeto dos quatro grandes rios até o fim, e no final das contas o povo vai esquecer que odiava tanto o presidente e vai se orgulhar dos rios sul-coreanos com um sentimento nacionalista. E se LMB acabar por se suicidar, eles vão chorar e dizer que foi um dos maiores líderes que a Coreia já teve.

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Abaixo algumas fotos do Cheonggyecheon ao longo dos anos.

Antes 
(fotos daqui)

Cheonggyechon em 1965
1965
1965
1967, quando começaram as obras para tampar o rio.
1967


Depois 
(fotos daqui)





É, parece que os jovens coreanos participaram um pouco mais desta vez

Foto daqui
Quando resolvi fazer especulação política, tive uma bela surpresa: a participação dos jovens nas eleições de 2 de junho aqui na Coreia foi a maior de todos os tempos. E a participação geral foi a maior em 15 anos, com 54,5% dos eleitores comparecendo às urnas. (Fonte: NYTimes)

O resultado foi que o partido da oposição ganhou na maior parte das cidades e províncias, surpreendendo o partido do governo, que vinha fazendo suas piruetas pra atrair a atenção do eleitorado. E outra: as pesquisas indicavam vitória esmagadora do partido de Lee Myung-bak. Pesquisas essas que já eram estranhas, tendo em vista a impopularidade do tio presidente. Credibilidade total hein?

Mas pra não desfazer do meu último post, vamos ver o copo como "meio vazio". Afinal, são 45,5% dos eleitores que não votaram! Entre os jovens, não vi nenhum número oficial. Os jornais só falam que a mobilização foi grande. No meio em que vivo, no entanto, minha percepção não mudou. Não conheço um só coreano, entre 20 e 30 anos, no meu departamento que tenha votado. A Denise até sugeriu no Twitter que pudesse ser uma diferença entre Seul e as outras cidades. Mas segundo o The Korea Times, a participação nas urnas, em média, foi mais alta nas outras cidades do que em Seul.

É a tal coisa: Se 20% dos jovens votavam, e agora são 30%, o aumento é espantoso, mas no final ainda é pouco. A sociedade coreana está mudando, não tenha dúvida. Mas acho que ainda vão mais umas duas levas de ajoshis até os jovens sentirem que têm poder de decisão nas questões importantes.

Ah, e tem também outro fator importante: os jovens dão muito mais importância às eleições presidenciais, e tendem a ignorar as locais. Isso fica claro na figura ao lado (do mesmo artigo do KT), que compara a porcentagem dos eleitores coreanos entre 20 e 30, e entre 60 e 70 anos que votaram em eleições passadas. Os jovens nunca chegaram aos níveis dos mais velhos, mas a participação deles foi significativa nas eleições nacionais.

Só espero que os jovens coreanos não estejam apenas seguindo ordens, como a pesquisa Data-Henrique apurou. Numa mesa de restaurante em que eu almoçava, 3 entre 4 coreanos em seus 20 e poucos anos disseram ter votado em quem o pai ou a mãe mandou.