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Daehangno, jipdeuri e cama no chão

Estou finalmente cem por cento instalado em meu novo cafofo. Para quem não entendeu a postagem anterior muito bem: não, eu não moro no buraco que a halmeoni me mostrou. Sou doido, mas não sou besta.

Moro agora num apartamento de três quartos, com dois coreanos nos outros dois quartos. Felizmente eles parecem ser tranquilos e limpos, pois desde que cheguei ainda não vi um só talher sujo na pia. E se não tiverem medo de oegugin (외국인, estrangeiro) vai ser bom para fazer amizade e praticar meu coreano, que ficou estagnado quando eu passava o dia todo no departamento, conversando só em inglês.

O bairro aqui é muito bom. Daehangno (대학로, ou "rua universitária") é o nome da rua principal, mas também o nome dado à região, que, de fato, tem muitas universidades (Sungkyunkwan, Hospital Universitário da SNU e a Católica são algumas delas). É também uma região bem movimentada artisticamente, com uma grande quantidade de teatros e outros eventos culturais. Além de bons (e baratos) restaurantes e muitas lojas por todo lado. Por isso, é um dos pontos em Seul onde praticamente só se vêem jovens.

Daehangno agora há pouco, perto da saída 4 da estação Hyehwa

E hoje alguns amigos vieram aqui comer uma pizza e fazer um jipdeuri (집들이, ou "festa de inauguração de casa"). Aliás, caso você vá a algum jipdeuri de coreano, lembre-se de levar algo de presente. Mas o que dar para um coreano que acabou de se mudar? Porta-retrato? Vaso de flor? Livro? Panela? Nada disso. Na Coreia, costuma-se dar de presente no jipdeuri papel higiênico e produtos de limpeza! Exatamente. Assim o cara consegue manter limpos tanto a casa quanto o... enfim.

Claro que não trouxeram nada disso pra mim hoje, porque não sou coreano e prefiro que me ajudem a pagar a comida que pedimos. Não me lembrei de tirar fotos da turma aqui (sim, tenho sido um péssimo paparazzo ultimamente), então aqui vão algumas fotinhos do meu novo cantinho.

Meu mini-quarto
Cozinha, com um ventilador (?) em cima da geladeira
E caso esteja curioso(a), sim, aquele colchonetezinho no chão é minha cama. Mas não fique com dó de mim. Aliás, se você é do tipo que adora uma cama supermacia e não consegue dormir no chão, pense duas vezes antes de vir pra Coreia. Aqui é muito comum as pessoas não terem camas em casa. Cama como a gente conhece é uma invenção ocidental (acredito) e aqui tradicionalmente todos dormiam no chão, principalmente no inverno, por causa do aquecimento ondol (온돌) que o esquenta (e eu particularmente gosto muito). A Ji Young, por exemplo, é a única que dorme numa cama na casa dela. Tanto os pais quanto o irmão dormem no chão. Mesmo assim, até os 11 anos de idade ela nunca tinha dormido numa cama. Às vezes os mais velhos até compram uma "cama", só que sem colchão. A tia de uma amiga tem uma que é de pedra e liga na tomada para esquentar. Praticamente um "chão suspenso."

Hoje mais pessoas têm camas em casa, mas não sei se vão aderir completamente. É algo cultural. Se você for a uma viagem com um grupo coreano ("MT" da universidade ou do trabalho, como chamam aqui), geralmente a galera dorme em quartos sem cama nenhuma. A primeira vez que fiquei num hotel, logo quando cheguei na Coreia, achei um absurdo. "A gente paga caro pra dormir no chão?" Mas hoje prefiro pensar que faz bem para as costas (algum ortopedista lê este blogue?) e economiza espaço no caso de quartos pequenos, como o meu. Aqui, acordou, enrolou o colchonete e voilà!

Para os que vão se mudar para Seul e querem ter noção de preço de aluguel, isso, como em qualquer cidade do mundo, varia de acordo com a região. Quem vem pra cá para estudar, geralmente fica no dormitório, e quem vem para trabalhar, geralmente a empresa já arranja um lugar que é maior e mais confortável que a média, por isso não precisa se preocupar tanto. Mas para os estudantes que querem uma alternativa barata para os dormitórios (que são cheios de regrinhas irritantes), a opção é dividir apartamento ou alugar um one-room ("kitchenette"). Esse meu quartinho foi o mais barato dentre os lugares habitáveis que encontrei: aluguel de 320 mil wons (480 reais) com todas as contas incluídas, e depósito de 1 milhão de wons (1500 reais, que, acreditem, é muuuuito barato!).

Ah, e se encontrar um quarto sem cama, tudo bem. Pelo menos não tem de onde cair quando tiver um pesadelo.

De mudança, de novo

Retirem-se já deste blogue todos os que concordaram que pareço com o Borat! Já basta o preconceito que sofro por minha ascendência portuguesa, moura, judaica, árabe, persa, iraniana e, agora, cazaque, que me rende ajoshis mal-educados e perguntas mais longas nos aeroportos!

Brincadeira. Podem ficar. Desta vez só passei aqui pra contar que vou me mudar de casa. Sim, de novo. Vai ser minha quarta casa desde que vim pra Coreia em 2008. Morei em Cheongju, depois vim pra Suwon, onde morei num one-room e no dormitório da KHU. Agora vou continuar minha jornada morro acima, e me mudo na sexta para Seul, num outro one-room em Daehangno. Como terminei minhas matérias e a Ji Young vai pra Tailândia fazer estágio na UNDP, achei melhor escrever minha dissertação num lugar mais perto dos amigos, já que aqui eu ficaria largado no departamento e ficaria louco, mais que o Borat.

E eu que já tinha esquecido como era procurar lugar barato pra morar, hoje refrescaram minha memória.

Quando ligava para os proprietários para conhecer o quarto, a primeira coisa que perguntavam: "Estrangeiro... é chinês?" "Não, brasileiro." (silêncio; ajoshi/ajumma para pra pensar) "Desculpa, não queremos estrangeiro."

Uma coisa é óbvia: os coreanos tem uma péssima imagem dos chineses. Acham-nos sujos, fedidos e mal-educados. Claro, é um julgamento generalizado e preconceituoso. Eu nunca morei com chineses, mas as histórias que ouço é que os estudantes chineses aqui não limpam nada. Deixam o quarto e o banheiro apodrecer. Eu mesmo, a única experiência nojenta que tive com chinês foi no teatro (calma, não era peça adulta). Foi justamente quando minha família veio me visitar e fomos ver o musical Miso. Tudo muito bonito, mas um casal chinês que estava sentado atrás de mim, além de não calar a boca, ainda escarrava e cuspia no chão do teatro.

Isso não quer dizer que todo chinês seja porco, claro. Mas pelo jeito, desfazer essa fama não vai ser fácil. Assim como não é fácil pra gente se desfazer de estereótipos que os brasileiros carregam em vários países.

Enfim, o que aconteceu foi que os ajoshis e ajummas que atenderam não queriam chineses nos seus one-rooms. E como não sabem nada sobre brasileiros, na dúvida não queriam arriscar.

E acho que o dono do quarto que consegui alugar facilitou porque achou que eu fosse alemão! Isso mesmo. Não pela aparência, claro. Mas me ouviu falando em português pelo telefone e deduziu que tal língua era alemão. É mole?

Só que o melhor desse meu dia congelado no vento de Daehangno foi uma halmeoni (vovó) que anunciou um quarto superbarato. Resolvi conferir. Essa não fazia restrição de nacionalidade, cobrava um depósito mínimo e dizia que eu ia adorar o lugar. Fomos seguindo a halmeoni morro acima. Apesar da idade, ela era meio alpinista, porque a casa era no topo da montanha. No caminho eu já tava gostando da ideia: vista ótima, lugar exótico, luz do sol... Porém... quando lá chegamos ela disse: "o único probleminha é pra entrar no quarto." Adivinhem só. A porta ficava no chão, a escada era muito vertical e o quarto era subterrâneo. Altura do pé direito? Um metro e meio. Área? Dois por dois. Janela? Um palmo. Cheguei no País das Maravilhas! E achei o melhor lugar pra me esconder se a Coreia do Norte jogar mais bomba!

Depois o Carlos (que me ajudou a procurar casa na vizinhança, já que ele mora lá) me perguntou pela foto. E até agora não sei como me esqueci de tirar uma! Contando parece mentira.


Minha casa nova!

Terça-feira eu juntei meus trapos, despedi de Cheongju e me mudei para Suwon, de onde vos falo agora. Só a minha magrela é que ficou pra trás, porque não deu para trazê-la de uma só vez. Deixei minha fiel companheira aos cuidados do Galileo, até ter tempo de ir buscá-la ou até algum Cheongjunita se enfiar num ônibus ou trem com ela rumo a Seul.

Como já disse antes, encontrei um one-room (kitnet) para morar em Yeongtong-dong, o bairro da Universidade Kyunghee, campus de Suwon. Minha vida na Coreia vai ser bem diferente agora por causa dessa mudança. A maior vantagem é que agora tenho um cantinho meu, sem as regras dos dormitórios feitos para ficar de olho na vida dos estudantes coreanos. Saio e chego quando quiser, posso cozinhar, lavar roupa e trazer amigos para passar uns dias sem problema. O outro lado da moeda é que vou pagar quase 3 vezes mais do que pagava no dormitório e não vou ter tantos amigos morando no mesmo prédio.

Olha só as fotos que tirei logo que terminei de me mudar. Não repare a bagunça. Aos pouquinhos vou ajeitando tudo pra ficar mais aconchegante.

Isso é o que você vê logo que entra. Banheiro à esquerda, cama grandinha e closet à direita.

Porta da entrada. Os brindes que vieram com o one-room foram o sofá e esse pintinho amarelinho (que tá mais pra "pintão amarelão", mas pega mal né...).

A cama é uma "magavilha"! E ao contrário dos meio-subterrâneos baratos que tinha achado, entra muita luz do sol aqui.

O banheiro é minúsculo. Mas também, queria o quê? O chuveiro, como em todo lugar na Coreia, é um daqueles chuveirinhos que você pendura na parede. O treco grudado no espelho é meu "porco-guarda-escova-de-dente", engenhoquinha prática!

Cozinha enorme também...

O prédio visto de fora.

Vista da janela da cozinha/área de serviço para a rua.

Para inaugurar a casa nova já tive duas festinhas, que os coreanos chamam de jibdeuri (집들이). Ontem veio o pessoal do yoga de Cheongju com a Agatha e hoje vieram o Juliano com a Eun Bee e o Gustavo. Ganhei vários presentes, inclusive um microondas do professor Jeon (uhuu!^^). Também aprendi a jogar Go-Stop (고스톱), um jogo de cartas coreano muito interessante, que usa um baralho chamado Hanafuda, e mais conhecido na Coreia como Hwatu.

Então é isso. Meu canto já está oficialmente inaugurado, de portas abertas pra quem quiser me visitar na Coreia! Abraços a todos e boa semana.

Um canto pra morar na Coreia

Depois de Mópi ter feito a festa comigo, o processo de renovação do visto aparentemente correu bem. Agora é esperar.

Hoje vou falar sobre minha experiência procurando um canto para viver que não fosse nosso querido kisuksa (dormitório).

No entanto, para se ter uma ideia do drama imobiliário na Coreia - pelo menos para a maioria dos ocidentais que moram aqui - saibam que já há muitos anos os coreanos não sabem o que é viver em uma casa, casa mesmo. Com exceção dos estupidamente ricos, a maioria esmagadora das famílias coreanas vivem em apartamentos (아파트). Os prédios não variam muito na arquitetura, e são bem desinteressantes por fora. Eles tendem a construir dezenas deles idênticos, lado a lado.

Mas não se deixe enganar. Apesar de serem muito simples do lado de fora, muitos deles são luxuosos por dentro. Ou pelo menos de alta qualidade. Já entrei em alguns prédios aqui que, sem exagero, pareciam ser feitos de papelão e, quando entrei... uuááá! (som de coreano quando fica espantado). Aqui não se pode dar ao luxo de encarecer o prédio ainda mais construindo fachadas de granito, como se vê no Brasil.

Não é preciso pensar muito para entender o principal motivo da população quase toda viver em apartamentos. Com uma área de cerca de 100.000km2 (para se ter ideia, o estado de Santa Catarina tem 95.000km2) e uma população de 50 milhões de pares de olhos puxados (ou não né, depois das cirurgias plásticas), já dá pra imaginar que comprar uma casa aqui seria um delírio.

E você aí achando que eu estava procurando um apartamento pra morar? HA HA HA. Além de não saber o que é um quintal de casa há um ano, também não sei mais o que ter uma sala, uma copa, uma cozinha e vários quartos num mesmo lugar, de modo que eu possa dar pelo menos uns 20 passos para ir de um lado ao outro. Que nada!

A alternativa ao dormitório para pobres como eu é o one-room (원룸) ou "one-loom", como os coreanos dizem. É o que a gente chama no Brasil de kitnet: um quarto com um banheirinho, uma piazinha, um fogãozinho, uma geladeirinha... tudo -inho!

E nem por isso o preço é baratinho. Lógico que varia muito de acordo com a localização, mas acho que posso comparar meu caso porque eu morava ao lado da UFMG em Belo Horizonte e aqui vou morar ao lado da Universidade Kyunghee. Em BH, meu apartamento tinha 2 quartos, copa, cozinha, área de serviço 2 banheiros e uma sala grande. Aluguel: R$330,00. Meu one-room aqui é só o quarto, banheiro e uma areazinha para lavar roupa e cozinhar. Aluguel: 350,000W (ou R$600,00). E quando contei para meus colegas que também estão procurando one-room pra alugar, todo mundo ficou surpreso: "Como você achou algo tão barato perto de Seul?".

Isso sem mencionar o esquema de depósitos na Coreia. Aqui, esteja preparado para dar uma grana alta quando quiser alugar um imóvel. Existem basicamente dois sistemas: jonse (전세), que é um pagamento apenas, e weolse (월세), que são pagamentos mensais. No primeiro, você paga à imobiliária uma quantia absurdamente alta (algo a partir de 40,000,000W (=R$70.000)) e não precisa pagar aluguel, ou paga um aluguel baixíssimo. No weolse, mesmo pagando o aluguel mensalmente, você tem que dar um depósito, que no caso de one-room na região de Seul, varia entre 2,000,000W e 10,000,000W (=R$3.500 ~ R$17.000). Quanto maior o valor do depósito, menor o valor do aluguel. Eles usam essas quantias para investir e gerar lucros, e no final do contrato te devolvem o exato valor que foi pago.

Sem nem uma balinha na agulha, aqui só dá pra viver em dormitório, hasukjib (pensão) ou quartos que não têm nem janela, e por isso são baratos. Outra opção que me tentou também foram os one-rooms que são "meio subterrâneos" (반지하), como o da foto ao lado. O agente da imobiliária me mostrou um que era muuuuito grande, com tudo incluído, e o preço era bem mais acessível. Mas fiquei receoso, porque afinal não entra muita luz, não se tem muita privacidade, e sei lá se dá alguma infiltração quando chove.

Bom, é isso. Espero que esta postagem tenha sido pelo menos informativa para os brasileiros que pensam em aterrisar em solo coreano por um bom tempo. Abraços!