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discriminação

Coreano gosta de brasileiro?

As pessoas ainda me perguntam se sou discriminado por algum motivo na Coreia. Já contei aqui no blogue antes, há quase um ano, um caso de um ajoshi que me discriminou porque achou que eu fosse iraniano. E eu com minhas origens desconhecidas, ainda não tinha refletido sobre "cara de quê" eu tenho, a não ser que exista "cara de mineiro"... (bom, meu nome me leva a crer que meus tataravós vieram de um Portugal provavelmente bem mouranizado, de modo que o ajoshi foi um cretino racista, mas não deve ter errado tanto assim no cálculo das origens dos meus genes).

Mas fiquem tranquilos, porque o episódio da discriminação esdrúxula não se repetiu depois, e minha vida seguiu feliz pela Coreia (do Sul, por favor! o próximo que me perguntar se "é a do Norte ou a do Sul" vai ter o comentário apagado, pra aprender a dar uma passadinha na Wikipédia de vez em quando só pra ter uma noção básica do mundo).

Pois então, apesar de não ser discriminado abertamente, ninguém fica distribuindo sorrisos pra mim, a não ser que eu esteja num restaurante ou qualquer outro lugar onde eu vá deixar algum dinheiro. Aí sorriem até dizer chega! Tirando isso, na rua, no metrô, no ônibus, enfim, em lugares públicos, ninguém tá nem aí pra mim (em Seul, porque em Cheongju era diferente). Os coreanos evitam conversas com estranhos, contato olho a olho e até mesmo se sentar ao meu lado no ônibus (coincidentemente, o lugar ao meu lado é SEMPRE o último a ser tomado).

Até que tudo mudou na minha vida sul-coreana de uma semana pra cá. Com a Copa do Mundo, comprei umas camisetas com a estampa "Brazil" para torcer pela nossa seleção. Estava com preguiça de ir lááá em Namdaemun pra comprar uma imitação da seleção mesmo, por isso me contentei com essas camisetas descartáveis de "dez real" (válidas para somente uma Copa).

Com direito ao detalhe na manga! Brasil-sil-sil...

Resultado: agora sempre que saio nas ruas com a identificação de origem na embalagem, a reação dos coreanos comigo mudou da água para o vinho. O número de olhares, sorrisos e cumprimentos espontâneos aumentou 364% (DataHenrique Junho/2010). Hoje mesmo aconteceu algo inédito para mim aqui na Coreia: estranhos sorrindo pra mim e puxando conversa em todo canto! E também conheci alguns brasileiros na rua que também se disfarçam de iranianos. Um cara veio andando pro meu lado olhando pra mim eu já pensei logo "é homem-bomba!", até que ele perguntou: "brasileiro?!" ^^

Mas por que a diferença no comportamento? Tenho algumas hipóteses:

1. Os coreanos, em geral, gostam dos brasileiros. Não todos, claro. O perfil do coreano que tem uma profunda simpatia pelo Brasil é jovem, e a maioria são homens que gostam de futebol ou mulheres que gostam de dançar.

2. Há pouquíssimos brasileiros na Coreia do Sul. Ao contrário do Japão, por exemplo, que deve estar de saco cheio dos mais de 500.000 brazucas por lá, aqui na Coreia nós somos apenas cerca de 400. Isso mesmo: quatrocentos!

3. Eles conhecem muito poucos pontos negativos do Brasil. Se você perguntar para um coreano qualquer na rua o que ele sabe sobre o Brasil, ele vai dizer o de sempre: futebol, carnaval, samba e Amazônia (apesar de que a última tem um documentário na TV daqui mostrando a realidade).

Dito isso, o Brasil é uma lenda por aqui. Conheço jovens coreanos que estudam português porque dizem que querem viver no Brasil o resto da vida. Acreditam que a vida lá é mais tranquila, com menos pressão, e que "o amor acontece com mais facilidade..." (essa vale para os coreanos supertímidos, que não são poucos). Muitos nunca foram ao Brasil, não sabem o que é ter que fechar a janela do carro só porque parou no sinal, e não fazem ideia de como os salários são baixos. Alguns já visitaram o Brasil, foram às mais belas praias e cidades e viveram um conto de fadas de um mês, e são convictos de que o Brasil é o paraíso (claro, viajando com a graninha do papai tudo fica bonito). Mas conheço também alguns poucos que conhecem a fundo a realidade brasileira, e ainda assim (e talvez exatamente por isso) se apaixonaram para sempre. Tenho um amigo coreano que participou de um programa de voluntariado durante 4 meses no sertão da Bahia, passou fome um dia porque os mantimentos da equipe dele não chegaram no dia previsto, viu um outro voluntário coreano pegar dengue e conheceu nosso maravilhoso SUS. E ainda diz que quer voltar.

Com essa turma aficionada pelo nosso Brasilzão, de hoje em diante só vou andar fantasiado de brasileiro pela Coreia!^^ É simpatia na certa!

Bom, nem tão certa... Há também o oposto: coreanos que conhecem alguns brasileiros muito bem e por algum motivo não se dão bem, o que os leva a generalizarem e não se simpatizarem muito com nosso país. Hoje mesmo conheci uma coreana assim. Ela trabalha com vários brasileiros numa empresa em Seul, e já está de saco cheio deles. "Qual o motivo?", eu perguntei. A resposta: "Eles são excessivamente alegres enquanto trabalham!" Essa foi boa! Tá parecendo o Patch Adams, que quase perdeu o direito de exercer a Medicina por "excesso de felicidade." E ela continuou explicando: "Você vai me desculpar, mas os brasileiros só levam as coisas na brincadeira! Nunca fazem nada sério!" Eu, hein. Mas como eu não conheço os colegas de trabalho dela (que podem realmente ser umas pestes insuportáveis), não vou ficar aqui defendendo ninguém. Essa história foi só para dizer que não são todos os coreanos que vão morrer de amores por vocês, queridos compatriotas, por mais narigudos e zoiúdos que vocês sejam.

O bottom line deste post é: se vierem à Coreia, identifiquem-se como brasileiros para fazerem amigos coreanos (que gostam de brasileiros) com mais facilidade. Principalmente se você tem cara de iraniano, como eu.

Uma geral no racismo coreano

Depois que postei no twitter sobre o "desconvite" de casamento que recebi, teve gente até perdendo noite de sono (né Paula? rs). Então deixa eu esclarecer essa história e dar uma geral na questão racial na Coreia.

1. O que aconteceu?

Um amigo francês que estudou coreano com a gente em Cheongju vai se casar com uma coreana mês que vem, com quem namorou durante 4 anos e que morou na França durante 7 anos. Como já era de se esperar, a família dela não aceitou o namoro facilmente. A mãe ficou sem dormir durante 3 noites quando soube que a filha namorava uma francês (ou seja, um não-coreano). Mas no final das contas, quando viu que a filha não voltaria atrás, a família acabou engolindo a história e aceitou o casório, que todos nós esperávamos ansiosamente. O francês já havia nos enviado convites informais, dizendo o local e a data, mas enviaria os convites oficiais essa semana.

No entanto, o pai da noiva se opôs ao convite de estrangeiros para o casamento, porque seria uma cerimônia tradicional coreana, e achou que a cerimônia seria tratada como uma piada pelos estrangeiros, em especial os de pele escura (segundo as palavras que recebi no "desconvite").

2. Isso é comum na Coreia?

Sei lá, esse seria o primeiro casamento ao qual compareceria na Coreia. Estatisticamente, fui desconvidado de 100% deles! :P

3. Qual o motivo da discriminação?

O mesmo de toda discriminação pelo resto do planeta: ignorância. Os coreanos, além de extremamente nacionalistas, alimentam uma sutil e perigosa de ideia de superioridade racial, que foi muito motivada pelo complexo de inferioridade que surgiu das trocentas invasões e tentativas de extinção da nação coreana. Isso tem diminuído muito entre os jovens, mas é ainda forte entre os mais velhos. Daí a razão de se ver esse tipo de atitude partindo de coreanos mais velhos. Infelizmente, frases que enfatizam a suposta superioridade coreana é ainda encontrada até mesmo nas entrelinhas de jornais, como mostra esse vídeo do Youtube.

4. Então o coreano é um povo racista?

Olha a pergunta perigosa aí. Se eu disser que não, vou estar mentindo. E se eu disser que sim, também vou estar mentindo! Além de ser injusto com muitos coreanos que tenho certeza que não são racistas e não apoiam esse tipo de atitude.

A verdade é que o conceito de "raça pura" ainda é comum, mas com fortes tendências de diminuir nas próximas gerações. A Coreia foi um país extremamente fechado durante muitos séculos, e os únicos momentos da história quando ela se "abriu" e teve um intercâmbio racial e cultural, foi quando ela foi invadida por outros povos. O resultado foi esse povo coreano vacinado, cabreiro e desconfiado com qualquer estrangeiro.

Até 15 anos atrás, quase não havia estrangeiros na Coreia, até que o país se abriu e começou a oferecer oportunidades de estudo, trabalho e moradia para quem quisesse vir. De lá pra cá, muito mudou. As crianças que cresceram vendo Seul se tornar uma cidade cosmopolita se tornaram jovens que namoram estrangeiros e aceitam as diferenças com mais facilidade - apesar desse processo ser desigual em diferentes regiões do país.

5. Você já sofreu com o preconceito do povo coreano?

Já. Mas ri de dó do retartado do ajoshi que me discriminou, como contei aqui antes. A discriminação aqui atinge diferentes pessoas, de diferentes países, em intensidades e por motivos diferentes. No meu caso, eu fui discriminado porque acharam que eu fosse do Irã, que por sua vez é discriminado, junto com o restante do megagrupo árabe-muçulmano, por ser visto como terrorista, ainda que eu não saiba de nenhum ataque de muçulmano fundamentalista na Coreia.

Os negros são discriminados por terem pele negra. Os do sudeste asiático são discriminados por serem mais escuros e pobres. Os japoneses são discriminados por serem japoneses. Os americanos são discriminados por serem muitos e por serem vistos como os comedores de coreaninhas que depois as abandonam.

Resumindo, se você não é coreano, em alguma categoria discriminatória você tem que se encaixar!

Até coreano que foi criado em outro país é discriminado: são os traídores que abandonaram o país quando este mais precisava do seu povo!

6. Nossa, que bosta hein?

Tá bom, eu exagerei um bocado. Isso não acontece assim. Os casos em que coreanos discriminam descaradamente não são tão frequentes. É mais uma ideia sutil que permeia o subconsciente coletivo coreano, e, como já disse antes, muito mais entre os mais velhos.

Eu, por exemplo, além da vez em que o ajoshi me aprontou aquela, e desta vez em que fui "desconvidado" para o casamento coreano, nunca me senti rejeitado e mal tratado pelo povo coreano em geral. Muito pelo contrário.

Mas é bom saber que esse tipo de coisa acontece por aqui antes de cair de paraquedas achando que tudo são rosas. Assim como é um engano acreditar que o Brasil também seja um paraíso da harmonia entre as raças. Só que aí são outros 500... literalmente.

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Primeiro coreano indiciado por racismo na história da Coreia: veja aqui.
Outros casos de discriminação sofrida por estrangeiros, aqui. Desculpem, os links estão todos em inglês.

Observação: Nós brasileiros até que somos sortudos. Apesar de uma possível prévia discriminação pela aparência (como no meu caso, com cara de árabe), isso logo é quebrado assim que nos identificamos como brasileiros. Aí tudo é festa e todo mundo te ama! :)