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Seria a PUST uma semente para mudança na Coreia do Norte?

Seria a PUST uma semente para mudança na Coreia do Norte?

O projeto de construção da PUST (sigla em inglês para Universidade de Ciência e Tecnologia de Pyongyang) começou em 2001, quando havia uma grande expectativa entre os sul-coreanos de que haveria uma reaproximação rápida com os irmãos do Norte. Seu fundador, Prof. Kim Chin-kyung (ou James Kim), é uma figura interessante: nasceu em Seul em 1935, estudou Economia em Londres e na Flórida, e tem cidadanias americana e chinesa. Em 1992, ele fundou a YUST (Universidade de Ciência e Tecnologia de Yanbian), numa região chinesa de maioria étnica coreana.

O corpo docente da PUST é formado por acadêmicos sul-coreanos, americanos e de outras nacionalidades, e as aulas são todas em coreano ou inglês. A universidade é mantida em parte pelos governos do Sul e do Norte, mas em sua maioria por grupos cristãos que apoiam a causa do Prof. Kim, um cristão devoto. Ele jura que tem total liberdade em seu trabalho, mas os professores sabem que precisam ter muito cuidado no desenvolvimento curricular. Uma simples aula de Introdução à Economia pode ser mais complicada, pois a lógica ocidental não faz sentido no país.

Primeira turma de formandos da PUST 

Alunos e professores numa sala de aula da PUST

Professores numa Conferência Internacional na PUST

Contudo, a principal questão é se a PUST pode realmente gerar o resultado que almeja: mudança. Inaugurada em 2010, a universidade ainda tem poucos formandos, e pode demorar muito para que esses jovens cheguem a posições de liderança no país. E, ainda que cheguem, que poder (e vontade) eles teriam para mudar o sistema atual? Se o próprio Kim Jong-un, que foi educado na Suíça, ainda não demonstrou disposição para mudar o

status quo

, não dá para esperar muito.

O documentário "Educando a Coreia do Norte" mostra como o controle da informação é forte por lá. Vigias ficam de ouvidos em pé o tempo todo, e interrompem quando acham que as conversas podem gerar questionamentos provocadores. Uma das professoras estrangeiras foi demitida semanas depois do documentário ser filmado, e entrou para a lista negra do governo por "falar demais o que pensa". Apesar de tudo, alguns professores acreditam que o simples contato com eles no dia-a-dia gera um resultado positivo à medida em que os alunos vão criando mais confiança para falar. 

Aí cada norte-coreanista (amador ou profissional) tem seu ponto de vista. Engajar ou confrontar, qual a melhor abordagem?

Kim Jong-un dançando com seus amiguinhos

De acordo com o Chosun Ilbo, o governo norte-coreano não gostou nada nada de um vídeo chinês que faz uma montagem com Kim Jong-un dançando uma musiquinha chinesa viral. Mas apesar de ser a estrela do vídeo, outros personagens também aparecem, como Obama, Putin, Ban Ki-moon, Shinzo Abe, papai Kim Jong-il e vovô Kim Il-sung.

Segundo "fontes anônimas" que o jornal cita, a Coreia do Norte teria pedido à China que bloqueasse o vídeo na internet. Se é verdade ou não, vai saber. Mas como recentemente ele fizeram um apelo oficial até à ONU para que o filme de James Franco, "The Interview", fosse censurado, não é tão difícil de acreditar nessa história... Abaixo, o vídeo da dancinha:


Jovens sul-coreanos que recusam o serviço militar

Eu me lembro bem de quando me alistei no serviço militar no Brasil, aos 18 anos. Morando no interior de Minas, a opção era apenas o "Tiro de Guerra", que para mim não tinha apelo nenhum. Nem se fosse um exército "de verdade" teria algum apelo, mas o fato é que consegui escapar dessa perda de tempo -- para mim, claro. Respeito e admiro os que servem com gosto, trabalham na seguranças das fronteiras, em ajuda humanitária e em missões multilaterais internacionais. Mas não era para mim, e o pequeno contingente brasileiro, relativo à população do Brasil, me ajudou a pular fora dessa.


Agora, imagine um jovem sul-coreano que também não queira prestar o serviço militar. Aqui, colega, não tem desculpa. Óbvio, casos extremos de problemas de saúde dispensam o sujeito, mas em regra, ninguém escapa desse destino. O tempo de serviço já foi de três anos, caiu para dois, e no momento me parece que, somando tudo dá um pouco menos de dois anos (porque tem umas férias no meio). Só que no vizinho do Norte o período de serviço é de DEZ anos, por isso conseguem ter um dos maiores exércitos do mundo, em número de tropas.

Porém, o que me dá pena ao ver a meninada aqui partindo para essa aventura, é que isso geralmente acontece não antes, nem depois, da faculdade, mas no meio. Isso mesmo. Eles entram na universidade, fazem um ou dois semestres, trancam, param a vida por dois anos, e depois voltam, totalmente diferentes. Mais maduros, talvez. Mais fortinhos, com certeza, porque antes de servirem, a maioria é magra feito Olívia Palito.
Soldados sul-coreanos treinando durante o inverno
Nesse final de ano me partiu o coração ver alguns dos meus melhores alunos dizer "até daqui a dois anos, professor!". Eles estavam estudando português muito yolshimi (pra caramba!), empolgados com o curso, curtindo a vida universitária com as namoradas, e de repente o Tio Sam sul-coreano (Tio Park?) convoca os caras. Quando voltam, muitos precisam refazer algumas matérias, porque já perderam o ritmo.

E... se o rapaz se recusar a servir? Bom, todo ano cerca de mil jovens sul-coreanos vão contra o sistema, por motivos religiosos, filosóficos ou qualquer outra coisa, e não prestam o serviço militar. A consequência é ficar com a ficha queimada pelo resto da vida, taxado de covarde, e ainda permanecer preso durante o período em que deveria servir.

Essa é parte do (alto) preço que a Coreia do Sul paga pelo seu desenvolvimento e estabilidade econômica. Gerações militarizadas de tal forma, e com um inimigo tão próximo, que é difícil para um brasileiro entender. E esse aspecto é melhor que nunca entendamos mesmo.

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Abaixo, um vídeo da Al Jazeera (desculpa, em inglês) sobre os jovens que não prestam o serviço militar na Coreia do Sul:

Pergunte a um norte-coreano: "O que os norte-coreanos pensam sobre os sul-coreanos?"

O site NK News tem uma seção chamada "Ask a North Korean" (Pergunte a um Norte-Coreano), na qual desertores norte-coreanos que conseguiram chegar à Coreia do Sul respondem algumas das perguntas enviadas pelos leitores. Como o material está todo em inglês, achei que seria interessante traduzir alguns dos artigos do site, para os que se interessam pelo assunto mas ainda não dominam nem o coreano nem o inglês. O artigo original é este aqui.

Pergunta: O que os norte-coreanos pensam sobre os sul-coreanos? A propaganda do governo da Coreia do Norte realmente influencia em como as pessoas vêem a Coreia do Sul?

Jae-young: Os que vivem próximos da fronteira com a China sabem muito sobre a Coreia do Sul. Informação sobre a Coreia do Sul entra no país com os produtos, vídeos e rádios chineses que são contrabandeados para a Coreia do Norte. Muitos programas da TV sul-coreana também são pirateados e surpreendem os norte-coreanos que os obtêm e os assistem escondidos. No entanto, na maioria das regiões longe da fronteira, as pessoas não sabem muito sobre a Coreia do Sul. Um norte-coreano que se ficou meu amigo durante nossa fuga da Coreia do Norte me contou que um amigo dele só chegou a saber mais sobre a Coreia do Sul depois de chegar à China. As pessoas na maior parte do interior não têm muito acesso a transporte e comunicação, e recebem a "educação ideológica" através da TV estatal, que é a ferramenta de propaganda do governo. Portanto, informação sobre a Coreia do Sul é escassa, mesmo no boca-a-boca.

Eu estava no ensino médio quando fui exposta pela primeira vez a notícias sobre a Coreia do Sul. Eu fui visitar a casa do meu tio, onde pude assistir uma novela da TV sul-coreana chamada "Staircase to Heaven" (천국의 계단). Foi a primeira vez na minha vida em que eu vi uma novela sul-coreana, e fiquei muito surpresa. Pude sentir pela primeira vez como os sul-coreanos vivem muito melhor do que a gente. Foi chocante ver que jovens sul-coreanos, que pareciam ter mais ou menos a mesma idade que eu, tinham um estilo de vida completamente diferente. A aparência sofisticada das ruas da cidade, os atores e as atrizes da novela eram o suficiente para me empolgar. Eu fiquei tão triste pela morte da mocinha na novela que tive um leve caso de depressão por três dias, e meu coração batia mais rápido sempre que eu via o ator que fazia o personagem principal. Nunca me esqueço daqueles sentimentos estranhos, a empolgação e o medo da possibilidade de ser pega. Foi uma experiência tão inesquecível que eu procurei por aquela mesma novela assim que cheguei na Coreia do Sul, mesmo sendo tudo parte agora de uma das minhas memórias distantes.

A novela "Staircase to Heaven" (2003) foi o primeiro contato de Jae-young com a cultura sul-coreana
Aquela primeira experiência abriu os meus olhos para a Coreia do Sul e aguçou minha curiosidade. Comecei a ouvir estações de rádios sul-coreanas. Eu conseguia pegar sinal de rádios da Coreia do Sul e da China onde eu morava. Meus pais tentavam de tudo para me fazer parar com aquilo, por medo de que eu fosse pega, mas eu era atraída pela rádio sul-coreana ainda com mais força, como um ímã a um metal, e tudo começou apenas por curiosidade. Eu ainda me lembro claramente que todas as noites, depois das 10 horas, eu tirava o pedacinho de palito de fósforo que ficava enfiado no buraco do rádio para bloquear as rádios estrangeiras, e então as ouvia com o volume bem baixo, enquanto prestava atenção para ver se ninguém estava vindo. A chatice de ter que tirar e colocar o palitinho de novo durante o dia de nenhuma forma apagava a minha curiosidade.

Eu tinha que assegurar a segurança da nossa família quando ouvia a rádio. Todas as luzes tinham que ficar apagadas, todas as cortinas fechadas, e o volume do rádio não podia ficar mais alto que o cochicho de uma formiga. Um latido do cachorro do vizinho já fazia meu coração subir à garganta e meus olhos ficavam arregalados. Situações como que de um filme eram a nossa realidade. Os sons do rádio eram mais claros em dias nublados. Eu estava tão tomada pelos sotaques diferentes do nosso, que eu tentava imitar o sotaque de Seul, tudo em voz baixa, quase inaudível.

O que me chamava a atenção, especialmente naquela época, era o noticiário. Tão diferente do noticiário norte-coreano, o da Coreia do Sul falava sobre eventos que estavam acontecendo em tempo real. Também incluíam notícias sobre comida e remédios que estavam sendo enviados para a Coreia do Norte como ajuda humanitária. Durante um tempo eu fiquei confusa, quando me dei conta de que a Coreia do Sul e os EUA enviavam ajuda para a Coreia do Norte, porque isso era muito diferente do que o governo nos dizia. Eu comecei a questionar quem estava dizendo a verdade. Enquanto isso, eu apenas escrevia as letras de músicas alegres e aprendia a cantá-las. Eram muito simples, e me lembro que até meus pais às vezes cantavam comigo.

Toda semana, o governo da Coreia do Norte conduzia as "Kangyeonhwe" (palestras), que desmereciam e diminuíam a Coreia do Sul. Alguns norte-coreanos até acreditavam nessa propaganda de coração, mas para a maioria, entrava por um ouvido e saía pelo outro. As palestras pintavam o Sul como mau e pobre, mas os norte-coreanos já tinham evidências do contrário através da comida, fertilizantes e remédios que vinham de lá. Por isso, muitos norte-coreanos sabem que a Coreia do Sul é rica, e sentem inveja. No entanto, as duras leis da Coreia do Norte ainda proíbem as pessoas de expressarem suas ideias e sentimentos em relação ao Sul. Eu creio que cada vez mais as informações sobre a Coreia do Sul têm se tornado acessíveis, o que tem mudado a imagem que os norte-coreanos têm, portanto, um crescente sentimento positivo em relação ao Sul parece exceder o negativo. Creio também que esse sentimento positivo para o Sul tem levado mais norte-coreanos a tentarem fugir do país e finalmente chegarem à Coreia do Sul.

A brincadeira de mau gosto de Kim Jong-un

Primeiro quero me desculpar pelo sumiço. Nos últimos dois meses minha vida mudou, porque comecei a trabalhar como professor na Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros e por isso tive que deixar de lado o blogue e as vídeo-aulas por enquanto. Pelo menos até me acostumar com a nova rotina.


Agora, sobre a Coreia do Norte. Eu não queria falar do que tem acontecido aqui, porque o que tenho tentado fazer é fugir do assunto, correr dos noticiários. Mas não adianta: a prosa tá por todo lado. Os portais de notícias e jornais no Brasil, em geral, tratam muito mal do assunto, e os comentários me embrulham o estômago. Para muitos, parece que a Coreia é apenas um filme, um vídeo-game, e torcem para a guerra estourar pra valer. E não aguento mais os jornalistas sensacionalistas que invadem as redes sociais atrás de brasileiros que moram aqui, torcendo para ter notícia ruim. Quando tem notícia ruim, eles aparecem por toda a parte e querem ver o pânico. Eu, inocente, dou minha entrevista, e noto a decepção do jornalista ao ver que não tem nada diferente. Claro que tem jornalista bom, comprometido com a verdade, mas nesse assunto, quanto mais drama, melhor.

Monumento no Museu da Guerra da Coreia, em Seul, mostrando o mundo dividido e soldados norte e sul-coreanos abraçados
Monumento no Museu da Guerra da Coreia, em Seul, mostrando o mundo dividido e soldados norte e sul-coreanos abraçados
Vamos então ao resumo dessa novela que ainda não terminou:

1) Coreia do Norte faz testes de mísseis balísticos - e leva bronca.

2) Coreia do Norte faz teste nuclear - leva bronca e sanções.

3) EUA e Coreia do Sul começam os exercícios militares anuais perto da fronteira, simulando uma guerra contra a Coreia do Norte - ouvem protesto de Kim Jong-un.

4) Os exercícios continuam e, somados às novas sanções, irritam profundamente Pyongyang.

5) Começa a série de ameaças. Primeiro com o de sempre: "vamos tomar atitudes drásticas, Seul vai virar um mar de fogo", etc.

6) As ameaças não param (nem os exercícios militares no Sul). Pyongyang promete cortar a linha de comunicação militar. Ninguém leva muito a sério.

7) A linha é cortada.

8) Kim Jong-un começa a ameaçar os EUA diretamente, dizendo que podem lançar mísseis nucleares ao Havaí, Guam (território americano no Pacífico) e até mesmo ao continente.

9) A Coreia do Sul se mantém calma, afinal o complexo industrial de Kaesong (uma joint-venture industrial, único símbolo de alguma cooperação entre Norte e Sul) continua operando.

10) Kaesong é fechado, e os sul-coreanos expulsos.

11) A TV estatal norte-coreana dá avisos aos diplomatas em Pyongyang, e depois aos estrangeiros residentes na Coreia do Sul, aconselhando-os a deixarem a península.

12) Dois mísseis Musudan de médio alcance são movidos para a costa leste da Coreia do Norte, onde espera-se que aconteçam testes que já eram previstos.

E cá estamos nós, esperando para ver o que vai acontecer depois que dispararem os mísseis. O Japão já posicionou uma bateria anti-mísseis para abatê-los caso ameace o país. Os EUA também fizeram o mesmo em Guam, onde têm uma base militar.

E você me pergunta: como está a situação por aí? E eu repito o que talvez já tenham lido ou ouvido: a vida sul-coreana segue normalmente, com exceção daqueles que trabalhavam no complexo industrial de Kaesong, e agora estão à espera de uma resolução do problema.

Mas uma coisa é verdade: os sul-coreanos estão mais do que vacinados contra as ameaças da Coreia do Norte. Desta vez, no entanto, percebi uma ligeira preocupação maior, porque nunca fizeram tantas ameaças seguidas, e de conteúdo tão forte. Nunca foram tão sem-noção a ponto de ameaçar atacar o território dos EUA diretamente. E desde a abertura do complexo em Kaesong, nunca o tinham fechado. Portanto é, sim, uma situação um pouco diferente.

E outro fator faz dessa novela algo muito especial: temos caras novas dos quatro lados: na Coreia do Norte um playboy jovem, na Coreia do Sul uma senhora cuja mãe foi morta por espiões do avô do playboy, nos EUA John Kerry em vez de Hillary, e na China Xi Jinping. São jogadores novos num jogo velho, por isso podem estar se testando.

Quais são as perspectivas? Quando se trata de Coreia do Norte com líder novo (novo e jovem!), a bola de cristal entra em pane. Mas vale discutirmos algumas ideias.

Primeiro, o que o Kim Jong-un quer? Simples: um tratado de paz com os EUA que reconheça a Coreia do Norte como potência nuclear - o que Kerry já disse hoje que está fora de questão. KJU não quer negociar com a Coreia do Sul, que é apenas uma "marionete" dos EUA. Ele quer ser tratado de igual para igual pelos EUA, que são considerados por ele como o verdadeiro inimigo.

E por que essa estratégia belicosa e de forte retórica? Essa é a questão mais difícil. Se considerarmos as ameaças passadas, podemos simplesmente dizer que eles querem dinheiro e comida em troca de calarem a boca e pararem com as ameaças. Mas li hipóteses mais interessantes a respeito. Uma delas é que existem rumores de que o tio de Kim Jong-un, um militar de carreira e prestígio no país, e quem o tem guiado desde que subiu ao poder, teria tentado dar um golpe de estado, por acreditar que o sobrinho não é forte o suficiente para manter o controle do país. Indícios disso é que o tio, que antes aparecia ao seu lado em todas as fotos, desapareceu de cena logo antes de começar o show de ameaças, que pode ser voltado para os linhas-duras do governo. Outra hipótese, para mim mais esperançosa e otimista, é a de que o número de reformistas civis no governo norte-coreano tem aumentado, e essa balela toda pode ser uma maneira de manter o povo controlado num momento em que se pode tentar fazer reformas.

Afinal, vai rolar guerra ou não? Já disse, a bola de cristal pifou. Mas existem inúmeros motivos para acreditar que não. Um artigo do The Korea Times expõe quatro deles: 1) Kim Jong-un conhece muito bem o poderio militar dos EUA e não tem instinto suicida; 2) estima-se que haja cerca de 300 mil chineses vivendo em Seul, o que causaria um grande problema com Pequim, caso a CdN atacasse a cidade; 3) Kim Jong-un sabe o que tem e o que não tem, e ele não tem poder de fogo e nem recursos para manter uma guerra por mais do que alguns dias; 4) Kim Jong-un, ao mesmo tempo em que faz ameaças, prepara-se para governar a Coreia do Norte durante muitos e muitos anos, apresentando propostas para o sistema de educação e desenvolvimento no longo prazo, e uma guerra simplesmente acabaria com tudo. Além do mais, a elite norte-coreana é que tem tudo a perder. E KJU não quer ser o próximo Saddam Hussein.

E a previsão do tempo para o fim de semana: muita festança e uma maratona internacional (!) em Pyongyang, com as celebrações do aniversário de Kim Il-sung, o avô do playboy e fundador do país.

Por isso, caros leitores, quando virem notícias na TV ou lerem algo nos jornais, pensem em tudo isso. O conflito em larga escala entre as Coreias é mais improvável do que Israel e Palestina, ou outros conflitos locais na África e Oriente Médio. Numa guerra aqui, ninguém ganha. Acredito que a reunificação das Coreias vai acontecer algum dia, mas torço para que seja pacífica, e que comece com uma mudança interna de regime no Norte, por mais impossível que pareça neste momento. Só assim todos ganham.

K-pop Norte-Coreano?

Ultimamente tenho falado tanto da Coreia do Norte que tem gente perguntando o porquê. Ora, a prosa é na Coreia - o que inclui a do norte e a do sul. Mas acima de tudo, porque, ao contrário da maioria dos sul-coreanos jovens, eu me interesso pelo que se passa por lá, e passo horas lendo sobre e tentando imaginar o que pode mudar aqui na península nos próximos anos (ou décadas).


Conjeturas à parte, a cada momento em que o mundo descobre uma coisinha mínima sobre aquele país tão fechado causa espanto. Como a questão da maconha, no post anterior. E como a questão da música popular norte-coreana: o k-pop do Norte. Ou talvez o "NK-pop". Alguns amigos coreanos (e a leitora Vanessa) me mandaram um vídeo com um grupo feminino norte-coreano que dizem ser o equivalente ao Girls' Generation de lá. E aqui vai o tal vídeo com as belezuras acima do paralelo 38 da península:


O grupo se chama Yeoshin (여신), que, traduzido, seria "Deusas". Ele foi lançado no primeiro semestre de 2012 com um único objetivo: animar o exército norte-coreano. Isso fica claro na letra da música, extremamente nacionalista. Para quem não sabe, as menininhas do Girls' Generation também já rebolaram muito para o exército sul-coreano, por isso a comparação faz sentido.

O estilo, no entanto, é bem... norte-coreano. As músicas têm elementos antigos, que parecem mais os trotes sul-coreanos dos anos 70. E o figurino também não é dos mais reveladores, em nome da moral e dos bons costumes, mas com certeza muito mais ousado do que a média no país. Porém, em um quesito não dá para comparar: as norte-coreanas são muito superiores no que diz respeito seu talento com os instrumentos musicais. Não é um mero playback, como na maioria dos grupinhos aqui do Sul. A mulherada sabe mesmo tocar violino, violoncelo, guitarra, bateria, enfim, tem mais substância musical. As vozes não variam muito por causa do estilo, mas quanto a isso não há o que se fazer.

Agora, para quem acha que esse grupinho é uma revolução feminina norte-coreana, muito se engana. Desde os anos 80 já havia um grupo chamado "Wangjaesan Light Music Band" (왕재산 경음악단), formado por mulheres dançarinas que faziam apresentações muito bem coreografadas, com um quê de mágica no meio. Inclusive, dizem que a atual esposa de Kim Jong-un foi integrante desse grupo. Aí vai um vídeo delas:


Ainda descubro como é que elas terminam com um vestido maior do que começaram...

Um outro vídeo, que gravou a TV de um hotel em Pyongyang, mostra como é a música pop dos norte-coreanos. Realmente, um grupo de mulheres que realmente tocam todos os instrumentos é algo que a TV sul-coreana não mostra com frequência. Aliás, apesar de todas as mazelas do comunismo, um mérito há que se reconhecer: eles estão à frente na igualdade de gêneros. Na Coreia do Norte, as mulheres também prestam o serviço militar e não são cheias de frescuras como as japonesas e as sul-coreanas. Logo depois da retirada dos japoneses, os norte-coreanos aprovaram a Lei de Igualdade de Gêneros que dava direitos iguais às mulheres, e as favorecia na posse de terras. O fato de uma mulher ter sido eleita aqui no Sul não significa que no geral elas tenham resolvido o problema da desigualdade de oportunidades. Mas aqui estou eu divagando e falando de política outra vez...

Encerro com o tal vídeo da TV norte-coreana:

A Maconha na Península Coreana

Para qualquer estrangeiro, não é novidade que as drogas (além do álcool e do tabaco) não são um problema social e de saúde na Coreia do Sul. Praticamente não existem usuários de maconha, muito menos de cocaína e outras drogas mais pesadas. A Crackolândia, então, é algo desconhecido na Kimchilândia.
Os poucos usuários de maconha no país geralmente são estrangeiros, muitos professores de inglês de países onde fumar maconha não é um grande problema. Mas esses desavisados, quando pegos pela polícia sul-coreana, vão diretinho para a cadeia, porque a lei aqui coloca a maconha na mesma lista que a cocaína, e não diferencia muito o usuário do traficante - até porque o conceito de "traficante de drogas" não faz parte da sociedade sul-coreana.

No vizinho do Norte, no entanto, a história é muito diferente. A gente sabe que o controle social por lá é grande, assim como o controle fronteiriço com a China. Por isso, não é fácil traficar o que quer que seja. E mesmo assim, segundo o site NKNews, a maconha rola solta na Coreia do Norte! Isso porque seu consumo não é policiado nem considerado ilegal. Não existe nenhuma lei por lá que restrinja o uso dessa ervinha que causa tanta polêmica no Ocidente.

Kim Marley 
Kim Marley fumando um baseado enrolado no jornal

Os norte-coreanos cultivam a maconha por ser mais fácil e mais barato que o tabaco, e não para ficarem rindo à toa. Eles chamam o tal o bagulho de "ip dambae" (잎담배), que, traduzido, significa "cigarro de folha", e é muito popular no meio militar da Coreia do Norte. Aliás, o cultivo da erva na península já é tão antigo, que há testemunhos de ex-combatentes norte-americanos que diziam que, durante a Guerra da Coreia (1950-1953), os soldados encontravam a planta da maconha nos acampamentos militares da região da DMZ e, claro, a galera fumava geral.

O site também menciona um turista americano que viaja para a Coreia do Norte todos os anos, e certa vez estava sentado em frente a uma casa, quando percebeu que a planta que cobria o jardim da casa era nada mais nada menos do que maconha!

Campo de maconha norte-coreano 
Campo de maconha norte-coreano em Chongjin

Kim Marley
Kim Marley felizão

Mas, é claro, se você for para lá como turista, achando que vai para a nova Amsterdã da liberação da erva, pode se deparar com oficiais do governo te dizendo que não sabem do que você está falando. Justamente porque sabem que isso pode gerar mais propaganda negativa em relação a um país que se preocupa tanto em esconder os fatos.

Taí uma coisa que seria interessante de se observar no caso de uma futura reunificação das Coreias: como a maconha seria tratada? Liberariam geral na península toda ou tirariam a diversão de milhões de usuários do Norte que nunca viram mal nenhum na ervinha? Se bobear, as negociações de paz nem travam na questão nuclear, mas na questão maconhística.

Promessas de campanha de Park Geun-hye, a primeira mulher eleitapresidente da Coreia do Sul

Minhas previsões se confirmaram: Park Geun-hye ganhou as eleições presidenciais da Coreia do Sul. Não foi grande surpresa um país ainda conservador eleger uma conservadora, mesmo sendo filha do ex-ditador Park Chung-hee, pois ainda existe gente saudosista na Coreia que acredita que a ditadura foi boa para o povo.


Park Geun-hye, a primeira presidenta da Coreia do Sul (foto) Park Geun-hye, a primeira presidenta da Coreia do Sul (foto). Olha a felicidade!


Park Geun-hye, no entanto, tentou se livrar desse legado pesado para fisgar os indecisos - e conseguiu. Suas promessas de campanha foram muito parecidas com as do seu opositor. O jornal The Korea Herald relembrou algumas dessas promessas, que eu resumo abaixo.

Coreia do Norte: criação da confiança mútua

Ela prometeu uma política equilibrada com a Coreia do Norte - nem linha dura, nem generosa demais. As duas versões foram tentadas em governos anteriores (o atual presidente, do seu partido, mantém um linha dura com os vizinhos). Para preparar o país para uma futura reunificação, ela propôs um plano passo-a-passo que lista o estabelecimento da paz, integração econômica, e a instalação de "escritórios" da Coreia do Norte em Seul, e da Coreia do Sul em Pyongyang, para melhorar a comunicação bilateral. Outras propostas incluem ajuda humanitária para os pobres do Norte, regularizar os encontros de famílias separadas, internacionalizar o complexo industrial de Gaeseong, e explorar conjuntamente os recursos naturais do subsolo da península.

Reforma política

Park Geun-hye prometeu um sistema de eleições primárias diretas para os candidatos ao Parlamento, limitar a imunidade parlamentar, descentralizar o poder e aumentar as penas para o crime de suborno. Para reduzir o poder presidencial, ela propôs delegar ao Primeiro-Ministro e outros ministros a decisão de escolha dos chefes de secretarias e outras instituições ligadas a cada ministério.

Mulheres

Esse foi o centro do marketing de sua campanha: o fato dela ser mulher, e portanto, prometeu lutar pelos direitos das mulheres. Sua proposta inclui: creches de graça, horas de trabalho reduzidas para mulheres grávidas, um mês de licença paternidade, serviços para cuidar de crianças depois da aula para pais e mães que trabalham, apoio às mulheres que desejam voltar ao trabalho depois da licença maternidade. Prometeu também aumentar o número de mulheres em cargos de liderança no governo. Para estimular os pais a terem mais filhos (pois a Coreia sofre com a baixa taxa de natalidade), prometeu bolsas de estudos para o terceiro filho, bem como apoio às famílias de baixa renda, provendo leite e fraldas. E também apoio aos pais e mães solteiros, e às famílias multiculturais.

Empregos e crescimento econômico

Ela propõe se focar mais na criação de emprego do que no crescimento econômico. Park Geun-hye prometeu investir mais na "economia criativa", como a indústria de software. Ela diz também que é necessário aplicar a ciência e tecnologia nas indústrias para agregar valor aos setores manufatureiros tradicionais para criar novos mercados para o setor de serviços.

Bem-estar social e saúde

PGH propôs um sistema adaptado às necessidades de cada grupo social, e cada idade, em vez de algo universal. Ela prometeu tratamento médico completo para pacientes com uma dessas quatro doenças: câncer, distúrbios cardíacos e cerebrovasculares, e doenças terminais. Apoio aos idosos também é uma de suas prioridades: ela prometeu expandir as pensões para aposentados e incluir implante dentário para idosos nos seguros-saúde. Também propõe criar um seguro-saúde 50% mais barato para estudantes universitários de famílias de baixa renda. Uma parte ambiciosa de seu plano inclui educação de graça para alunos do ensino médio, independente da classe social.

Democratização econômica

Um dos problemas da economia sul-coreana é que os grandes conglomerados têm muito poder e influência no governo, o que faz com que a economia cresça, mas os pequenos empresários sofram. PGH propôs proteger as pequenas e médias empresas, bem como os pequenos mercados dos bairros, que estão sendo varridos pelas grandes redes.

Melhora da competitividade das pequenas e médias empresas

O governo anterior focou muito no apoio aos chaebols para atingir seus objetivos econômicos. PGH quer priorizar a classe média empreendedora, criando mais empregos de qualidade desenvolvidos pela própria classe média. Ela prometeu criar um sistema para aumentar a competitividade global de empresas médias, e para que essas trabalhem em parceria com os grandes grupos existentes. No entanto, detalhes do plano não foram apresentados nessa área, mas sim para a área de pesca e agricultura, para que o setor use mais tecnologia disponível.

Reforma educacional

Para reduzir os custos com educação, ela propôs uma reelaboração de todos os livros escolares, para que os alunos não precisem de professores particulares em casa, e possam aprender melhor sozinhos. Ela também disse que vai proibir as escolas de fazerem provas com questões de nível acima do nível apropriado, o que gera estresse entre os estudantes. As escolas primárias também terão aulas depois das aulas. Além do ensino médio de graça e de bolsas universitárias, PGH prometeu reduzir os juros de empréstimos para educação para algo próximo de zero.

Economia criativa

Essa expressão foi usada no centro da propaganda de PGH na área econômica, e engloba uma ligação entre tecnologia, inovação, financiamento e marketing. Ela acredita que é hora da Coreia mudar o motor do crescimento da economia coreana para as indústrias do conhecimento. Ela propõe o smart new deal, que expandiria a indústria de software e IT na economia. Para tornar a economia mais "criativa", ela também propõe criar mais empregos que não requeiram pontos em exames quantitativos (o que beneficia o cara que memoriza bem, mas prejudica o criativo).

Segurança pública

PGH diz ser necessário investir mais na polícia para combater o que chamou de "os quatro males sociais", que são: violência sexual, violência escolar, crimes relacionados à comida e crimes que destroem a família. Para isso, ela propõe aumentar a força policial em 4 mil policiais por ano, atingindo um total de 20 mil a mais no final dos 5 anos de seu mandato. O combate aos crimes sexuais foi muito enfatizado, pois é uma de suas promessas às mulheres coreanas. Ela também vai revisar as leis brandas em relação aos criminosos sexuais com menos de 16 anos. Além disso, a prostituição e a pedofilia serão combatidos com mais força, segundo ela.

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É promessa pra caramba, né? Pois então. Quem lê assim, nem pensa que se trata de uma candidata do mesmo partido do atual presidente. Se ela cumprir o que prometeu, terá sido uma presidenta arretada. Mas se tiver sido só marketing para ser eleita, isso vai ser cobrado nas eleições de 2017.

Em relação às promessas de paz com a Coreia do Norte, não podemos nos esquecer de que sem os EUA não se toma decisão neste país. Não nessa área. E além disso, Kim Jong-eun e seus companheiros já estão com 40 mil pulgas atrás da orelha com Park Geun-hye. Por mais lindas que suas propostas sejam, ela é filha do cara que tentou matar seu avô, que por sua vez, também tentou matar o pai de Park Geun-hye inúmeras vezes. Portanto, a tal da "confiança mútua" não vai ser um trabalho fácil...

Mas pra mim, e muito mais para os sul-coreanos, se ela conseguir cumprir o que prometeu no que diz respeito à expansão do estado de bem-estar social, já será um grandioso feito. Agora é torcer para que venham as mudanças, e para melhor.

Vamos pra Coreia do Norte?

Aqui vai mais uma recomendação bloguística. Alguns amigos recomendaram o blogue Gabriel Quer Viajar e resolvi conferir. É de um viajante brasileiro que saiu percorrendo o mundo, e recentemente pousou em terras norte-coreanas. Confesso que fiquei com invejinha. Já faz um bom tempo que vim pra Coreia, mas ainda não deu pra eu conhecer o outro lado da fronteira do Paralelo 38.

Foto miniaturizada de Pyongyang 
Foto miniaturizada de Pyongyang (Gabriel Quer Viajar)



Para quem não sabe, não é tão difícil assim visitar a Coreia do Norte. Só é caro (detalhe). É que você tem que pedir o visto na China, através de agências, o que encarece tudo. Além disso, como sabemos, você vai ser acompanhado durante a viagem toda por um oficial do governo. Mas tirando isso, dá pra ir. Com a minha curiosidade mórbida, eu vou acabar indo em algum momento, pra tentar entender um pouco as diferenças entre as culturas e, especialmente, as comidas (sim!) do Norte e do Sul.

É possível ir de avião, de Pequim a Pyongyang, ou de trem, a partir da cidade chinesa de Dandong, que fica na fronteira. Esta seria uma opção mais interessante, porque assim talvez se possa ver um pouco do interiorzão norte-coreano, que os "guias turísticos" não vão te mostrar.

Bom, enquanto eu não me aventuro por lá, aproveitem os relatos do cara do blogue que citei acima.

O prédio mais alto da península coreana

"Onde fica o prédio mais alto da península coreana?"

Se alguém me fizesse essa pergunta, eu responderia com convicção que seria algum prédio na Coreia do Sul, provavelmente na região metropolitana de Seul, e possivelmente o 63 Building (que, aliás, aparece muito no vídeo do post anterior). Bom, pelo menos até que o Seoul Lite seja concluído (estima-se que fique pronto em 2015), esse teria sido meu palpite.

No entanto, ao dar uma conferida na lista de prédios mais altos do mundo, descobri que o 63 Building não apenas é menor que outros três prédios na Coreia do Sul, como todos esses são menores que o maior prédio da península, que fica em Pyongyang, na Coreia do Norte!


O nome do monstro é Ryugyong Hotel (류경 호텔), e começou a ser construído em 1987. Mas devido às dificuldades econômicas do país, a construção foi paralisada em 1992, quando o esqueleto de concreto do prédio já estava pronto (com 330m de altura). O prédio, então, passou a ser um dos maiores elefantes brancos do mundo, e provavelmente por isso não tenha sido muito usado na propaganda norte-coreana no exterior. Contudo, em 2008, o grupo egípcio Orascom propôs ao governo de Kim Jong-il a retomada das obras do elefante, com a  condição de que o grupo também atue em outras áreas no país, como o desenvolvimento da telefonia celular.


O resultado é que as obras parecem estar indo bem, e o prédio deve ficar concluído até 2012. Só resta saber onde é que o tal "hotel" vai arranjar tanto hóspede para seus 105 andares. Mas talvez este seja um ponto positivo, pois com esse arranha-céu faraônico, com toda certeza o governo norte-coreano vai querer promover o turismo no país. Mais gente entrando na Coreia do Norte significaria um controle mais difícil e, espero, uma abertura gradual do regime... Se isso não acontecer, vão deixar o prédio lá pra entrar nas fotos e vídeos oficiais do governo.

Com uma arquitetura, digamos, questionável, já tem gente se perguntando qual seria a verdadeira função do prédio pyongyangense. O vídeo abaixo (uma montagem) dá um palpite...

Corte de cabelo em Pyongyang

Nos últimos anos mais vídeos gravados por estrangeiros dentro da Coreia do Norte têm aparecido na internet. Todos em Pyongyang, ou em lugares onde alguém do governo esteja de olho no turista. Mas este é um dos vídeos mais despretensiosos e com melhor qualidade de imagem que já vi. O sujeito, que parece ser chinês, gravou cenas da capital norte-coreana, alternadas com sua experiência numa cabeleireira. Em determinado momento ela questiona o porquê dele estar "tirando foto", mas ele aparentemente não entende coreano, ou não quis responder.


Pyongyang Style - North Korean Haircut from Steve Gong on Vimeo.


Me lembrou uma cabeleireira em Cheongju à la dona de petshop que me tosava todo mês. Lá, como em Pyongyang, um simples corte de cabelo incluía massagem facial e no couro cabeludo. De olhos fechados, se eu não soubesse que eram mãos de uma ajumma, até daria para me apaixonar. Já as cabeleireiras de Seul perderam sua exoticidade aos olhos ocidentais. Se é uma pena ou não, depende do cliente.

Reencontro de famílias coreanas separadas pela guerra há 60 anos

Eu não poderia deixar de comentar isso. Enquanto estava em Busan no fim de semana, vi, na TV dentro do carro, uma cena do reencontro de famílias separadas pela Guerra da Coreia, há 60 anos. Sessenta anos! Não consigo imaginar o que é estar a apenas algumas centenas de quilômetros de distância, e não poder encontrar, ver, ouvir, ter notícias, saber como está seu irmão, filho, pai, primo... Pior: não saber nem se ainda estão vivos. A cena do choro dos familiares que vi na TV ficou na minha cabeça, e só me faz confirmar que a estupidez das guerras (físicas e ideológicas) são cegas ao coração humano e à vida.

Aqui vão alguns trechos da agência Yonhap, sobre o reencontro de 3 dias durante o fim de semana no monte Keumgang, na fronteira entre os dois países:

O reencontro juntou 430 sul-coreanos e 110 norte-coreanos no famoso resort na montanha da Coreia do Norte, onde as cores do outono combinavam com a alegria das famílias que se reuniam pela primeira vez desde a Guerra da Coreia.


A guerra de 1950 a 1953 terminou numa trégua, e não num tratado de paz, deixando as duas Coreias tecnicamente num estado de conflito até hoje. Não há meio de contato entre civis entre os dois países, e mais de 80 mil sul-coreanos estão numa lista de espera para rever seus queridos familiares que estão no norte.


E o número não leva em consideração os sul-coreanos que morreram esperando, número que chega a mais de 40 mil.


Três irmãs sul-coreanas dançam para seu irmão norte-coreano no segundo dia do reencontro na Coreia do Norte


A sul-coreana Shim Boon-rye, 80, sorria enquanto cantava uma canção popular sobre a saudade daqueles que ama, mas acabou em prantos assim que terminou de cantar. Ela então abraçou seu irmão norte-coreano de 77 anos que cantou junto com ela: "Como eu poderia te esquecer? Como eu poderia te esquecer?"


(...)


A animação durante o almoço mais cedo foi desaparecendo assim que as famílias começaram a encarar a realidade de que teriam que se separar novamente no terceiro dia do reencontro.


"Pergunte ao seu pai tudo o que você sempre quis perguntar, ou poderá se arrepender de não tê-lo feito", disse um parente a Ko Pae-il, de 62 anos, que encontrou seu pai de 81. Ko, um coreano-americano do Alabama, disse que era muito cruel ele ter que dizer adeus a seu pai, de quem foi separado aos 3 anos de idade.


"Pai, pai, cuida da saúde, hein?" disse Ko, aos prantos.

Vídeo do momento da despedida (Ko Pae-il aparece no início, se despedindo de seu pai):



Um homem norte-coreano em lágrimas durante o reencontro com seus filhos que vivem na Coreia do Sul


(...)


Esses reencontros, organizados através da Cruz Vermelha, são facilitados pelo fato da Coreia do Norte receber maciças doações "humanitárias". Nas conversas pela Cruz Vermelha na semana passada, a Coreia do Norte pediu 500 mil toneladas de arroz e 300 mil de fertilizantes para a Coreia do Sul.

O artigo original da YonhapNews se encontra aqui.
Uma outra reportagem da CNN com vídeo você pode ver aqui.