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Viciados em jogos online, a Coreia tem um curso universitário para vocês!


O país com a maior febre de jogos online do planeta não ia deixar passar essa. Depois dos canais exclusivos de transmissão de disputas em jogos online como o Starcraft, a Coreia do Sul agora vai contar com uma universidade que oferece um curso superior em "eSports". O curso vai ficar no Departamento de Ciências Esportivas da Universidade Chung-Ang, em Seul.

Pode parecer uma boa desculpa para não fazer mais nada da vida além de jogar online. Que nada, colega. A grade curricular vai exigir um pouco mais do que noites varadas na tela do computador, jogando. Além de tornarem "atletas-gamers" profissionais, os alunos vão aprender a ganhar dinheiro com essa indústria que movimenta uma grana altíssima no país.

Do lado do governo, no entanto, as restrições aos jogos online continuam duras: cada faixa etária tem que usar sua identidade para acessar os jogos, e existe um limite de tempo diário, para combater o vício. Mas, sabe como é, tudo o que é proibido ou limitado...

Agora você, gamer brasileiro que vive enchendo o saco da comunidade brasileira na Coreia para acessar o jogo X ou Y, talvez seja hora de procurar uma bolsa de estudos na Chung-Ang.

Tira-calçado-põe-calçado-tira-calçado...

Encontrei há um tempo um blogue chamado My Korean Husband. É de uma estrangeira (australiana, acho) que se casou com um coreano. Ela conta histórias bem-humoradas sobre as peculiaridades da vida matrimonial entre um coreano e uma "ocidental", e sempre ilustra as histórias com desenhos que ela mesma faz.

Resolvi postar a tirinha abaixo porque não tem a ver necessariamente com a vida de casada dela, mas com a vida de todos nós, não-orientais, que vivemos aqui. Mais especificamente, é sobre essa história de ter que tirar o calçado em quase todo lugar. Quem nasce aqui e faz isso desde que se entende por gente, acaba desenvolvendo técnicas mais ágeis para tirar e calçar os sapatos. Mas pra mim (e muitos outros) é uma tristeza. Numa turma de amigos saindo do restaurante, por exemplo, os coreanos já saem encaixando o tênis, sapato, sandalha, etc. na maior facilidade. Eu tenho que me sentar pra colocar bonitinho, amarrar e tudo.

O segredo é que eles nunca amarram o tênis apertado, deixam sempre frouxo - o que eu não consigo fazer, especialmente nesse frio congelante desses dias. Bom mesmo vai ser quando inventarem um tênis estilo Iron Man pra eu calçar sem esforço.
MyKoreanHusband

Eleições presidenciais 2012 na Coreia do Sul

Tá chegando! Dia 19 de dezembro os sul-coreanos vão às urnas para decidir quem será o(a) próximo(a) presidente da República da Coreia (ou Daehanminguk, 대한민국), o nome oficial da Coreia do Sul. Independente de quem ganhar, provavelmente teremos um cenário político interessante no país a partir de 2013. Mas antes de falar um pouco sobre os candidatos, acho importante ressaltar que o sistema eleitoral por aqui é bem diferente do brasileiro. Na Coreia do Sul, as regras do jogo são as seguintes:

  • o Presidente da República é eleito para um mandato único de 5 anos;

  • o registro das candidaturas acontece a menos de um mês das eleições;

  • o voto é facultativo, ou seja, você só vota se quiser (e puder, claro);

  • a campanha dura 23 dias para as eleições presidenciais e só 14 dias (!) para as legislativas e locais;

  • não tem segundo turno. Um candidato pode ser eleito com menos de 50% dos votos válidos;

  • a votação acontece na primeira quarta-feira a partir de 70 dias antes do fim do atual mandato. Essa quarta é feriado, e foi definido assim para que as pessoas não viajem no dia e se disponham a ir votar;

  • para evitar um grande número de candidatos e garantir a "sinceridade" da candidatura, o candidato a Presidente deve fazer um depósito de 300 milhões de wons (mais ou menos 570 mil reais), que serão devolvidos ao final do processo eleitoral;

  • assim como nos EUA, os partidos devem fazer prévias para decidir as candidaturas, exceto no caso dos candidatos sem partido, o que é permitido aqui;

  • a Comissão Eleitoral Nacional (equivalente ao TSE no Brasil) estabelece um valor máximo para as campanhas, baseado no tamanho da população, renda per capita e média de custos. Esse limite é porque os candidatos são reembolsados pelo governo (financiamento público) após o fim do processo, mas antes precisam prestar contas para receberem o dinheiro.

Como se pode ver, o negócio aqui é bem diferente do que temos no Brasil. Uma característica em particular muda toda a dinâmica eleitoral como a conhecemos: o prazo para o registro das candidaturas. Só para comparar, um ano antes das eleições presidenciais de 2010 no Brasil, já sabíamos que a Dilma seria a candidata do PT. No início do ano já vimos a movimentação da candidatura da Marina pelo PV, e o PSDB, que "demorou" (segundo analistas políticos brasileiros) já tinha escolhido o Zé Serra seis meses antes do dia do pleito. Agora imaginem só: até a semana passada, dentre os principais candidatos sul-coreanos, só tínhamos certeza da candidatura da Park Geun-hye, enquanto aguardávamos a decisão entre os dois outros candidatos da oposição. Essa enrolação se deve ao fato de que não há segundo turno, por isso a oposição precisava se decidir por um único candidato para ter mais chances de vencer a candidata do partido do atual presidente.

 
Índice de participação popular nas eleições presidenciais anteriores na Coreia do Sul. Um dos desafios é levar os jovens às urnas (fonte)

Vamos aos corredores, então. Desde sexta (dia 23/11), sabemos oficialmente que os dois principais candidatos são Park Geun-hye (do "Partido da Nova Fronteira", 새누리당) e Moon Jae-in (do "Partido Unido Democrático", 민주통합당). Até sexta passada, o candidato Moon (que não tem nada a ver com o reverendo Moon, acho eu) estava numa queda de braço com o pré-candidato independente Ahn Cheol-soo, um cara que ficou rico com uma empresa de software anti-vírus. É que as pesquisas mostravam Park com mais de 44% das intenções, enquanto os outros dois variavam entre 20 e 25% cada um. Num espectro político direita-esquerda, podemos dizer que Park representa a direita conservadora sul-coreana, enquanto os outros dois estariam mais à esquerda liberal. Daí a divisão.

No entanto, política não é tão simples. O eleitor comum não pensa muito em ideologias. Muitas vezes é a personalidade quem conta. E nessa brincadeira, Park Geun-hye pode acabar papando essa eleição, apesar de tudo. Dá uma olhadinha no perfil dela.

 
A candidata do NFP (sigla em inglês), Park Gyen-hye (à esquerda) e seu oponente, Moon Jae-in (DUP, à direita) (foto)

Park Geun-hye é a primeira candidata mulher com chances reais de ganhar uma eleição presidencial na Coreia do Sul. O que pesa a seu favor? Ela tem uma vasta experiência política não só como parlamentar na Assembleia Nacional, mas também como Primeira-Dama de seu pai, que foi Presidente nos anos 60 e 70, e ficou conhecido como aquele que colocou a economia do país nos eixos e firmou a base para o desenvolvimento. O que pesa contra? Papai também foi um ditador militar barra pesada. Ou seja: Park Geun-hye é uma figura que representa uma mudança quando se pensa na questão da representação feminina na política coreana, até porque ela nunca se casou, o que, na Coreia, até pouco tempo atrás era fortemente discriminado (e ainda é de certa forma). Mas os que temem uma volta do ultra-conservadorismo, que vai além das políticas do atual Presidente, vêem sua ligação com o governo de seu pai um grande perigo. Aliás, esse é o maior desafio de Park: descolar sua imagem tanto de seu pai quanto do atual Presidente, Lee Myung-bak (que conheci pessoalmente em 2010 numa boca-livre na Casa Azul). Para isso até mudaram o nome do partido. Antes era o "Grande Partido Nacional" (한나라당) e virou "Partido da Nova Fronteira" (새누리당). Sabem como é né: tipo PFL virando Democratas. Queimou o filme, muda de nome. Lavou tá novo.

O candidato da oposição, Moon Jae-in, tem uma história bem diferente. Ele estava "do lado de lá" na época da ditadura do pai de sua oponente. Moon foi preso diversas vezes por liderar o movimento estudantil contra a ditadura do general Park. Esse movimento começou dentro da Kyung Hee University (onde eu fiz meu mestrado, e por isso recebi inúmeros emails da instituição apoiando sua candidatura), universidade onde Moon estudou Direito e até deu umas aulinhas. Mas Moon Jae-in também tem sua imagem vinculada a um ex-Presidente: Roh Moo-hyun, que governou no período 2003-2008, quando Moon foi seu equivalente a "Ministro da Casa Civil." Por isso, nem ele nem sua rival representam algo muito novo. Além disso, Roh cometeu suicídio em 2009 por não suportar as alegações de corrupção durante seu governo. Mas Moon tem a seu favor o fato de que seu partido, assim como toda a esquerda sul-coreana, propõe uma expansão do Estado do Bem-Estar Social, que é bem fraquinho na Coreia (bem nos moldes estadunidenses). Creches de graça para crianças até 5 anos, melhora das leis trabalhistas, menos privilégios para os chaebols (grandes conglomerados como Samsung, Hyundai, etc), enfim, maior proteção social.

Park Geun-hye agora também se moveu para o centro no seu discurso, mas essa curta campanha promete pegar fogo. Moon Jae-in a tem atacado com palavras afiadas: "Enquanto eu vivia na pobreza, ela vivia uma vida de princesa na Casa Azul. Enquanto eu lutava contra a ditadura, ela estava bem em seu centro." (fonte)

Coreano gosta de brasileiro?

As pessoas ainda me perguntam se sou discriminado por algum motivo na Coreia. Já contei aqui no blogue antes, há quase um ano, um caso de um ajoshi que me discriminou porque achou que eu fosse iraniano. E eu com minhas origens desconhecidas, ainda não tinha refletido sobre "cara de quê" eu tenho, a não ser que exista "cara de mineiro"... (bom, meu nome me leva a crer que meus tataravós vieram de um Portugal provavelmente bem mouranizado, de modo que o ajoshi foi um cretino racista, mas não deve ter errado tanto assim no cálculo das origens dos meus genes).

Mas fiquem tranquilos, porque o episódio da discriminação esdrúxula não se repetiu depois, e minha vida seguiu feliz pela Coreia (do Sul, por favor! o próximo que me perguntar se "é a do Norte ou a do Sul" vai ter o comentário apagado, pra aprender a dar uma passadinha na Wikipédia de vez em quando só pra ter uma noção básica do mundo).

Pois então, apesar de não ser discriminado abertamente, ninguém fica distribuindo sorrisos pra mim, a não ser que eu esteja num restaurante ou qualquer outro lugar onde eu vá deixar algum dinheiro. Aí sorriem até dizer chega! Tirando isso, na rua, no metrô, no ônibus, enfim, em lugares públicos, ninguém tá nem aí pra mim (em Seul, porque em Cheongju era diferente). Os coreanos evitam conversas com estranhos, contato olho a olho e até mesmo se sentar ao meu lado no ônibus (coincidentemente, o lugar ao meu lado é SEMPRE o último a ser tomado).

Até que tudo mudou na minha vida sul-coreana de uma semana pra cá. Com a Copa do Mundo, comprei umas camisetas com a estampa "Brazil" para torcer pela nossa seleção. Estava com preguiça de ir lááá em Namdaemun pra comprar uma imitação da seleção mesmo, por isso me contentei com essas camisetas descartáveis de "dez real" (válidas para somente uma Copa).

Com direito ao detalhe na manga! Brasil-sil-sil...

Resultado: agora sempre que saio nas ruas com a identificação de origem na embalagem, a reação dos coreanos comigo mudou da água para o vinho. O número de olhares, sorrisos e cumprimentos espontâneos aumentou 364% (DataHenrique Junho/2010). Hoje mesmo aconteceu algo inédito para mim aqui na Coreia: estranhos sorrindo pra mim e puxando conversa em todo canto! E também conheci alguns brasileiros na rua que também se disfarçam de iranianos. Um cara veio andando pro meu lado olhando pra mim eu já pensei logo "é homem-bomba!", até que ele perguntou: "brasileiro?!" ^^

Mas por que a diferença no comportamento? Tenho algumas hipóteses:

1. Os coreanos, em geral, gostam dos brasileiros. Não todos, claro. O perfil do coreano que tem uma profunda simpatia pelo Brasil é jovem, e a maioria são homens que gostam de futebol ou mulheres que gostam de dançar.

2. Há pouquíssimos brasileiros na Coreia do Sul. Ao contrário do Japão, por exemplo, que deve estar de saco cheio dos mais de 500.000 brazucas por lá, aqui na Coreia nós somos apenas cerca de 400. Isso mesmo: quatrocentos!

3. Eles conhecem muito poucos pontos negativos do Brasil. Se você perguntar para um coreano qualquer na rua o que ele sabe sobre o Brasil, ele vai dizer o de sempre: futebol, carnaval, samba e Amazônia (apesar de que a última tem um documentário na TV daqui mostrando a realidade).

Dito isso, o Brasil é uma lenda por aqui. Conheço jovens coreanos que estudam português porque dizem que querem viver no Brasil o resto da vida. Acreditam que a vida lá é mais tranquila, com menos pressão, e que "o amor acontece com mais facilidade..." (essa vale para os coreanos supertímidos, que não são poucos). Muitos nunca foram ao Brasil, não sabem o que é ter que fechar a janela do carro só porque parou no sinal, e não fazem ideia de como os salários são baixos. Alguns já visitaram o Brasil, foram às mais belas praias e cidades e viveram um conto de fadas de um mês, e são convictos de que o Brasil é o paraíso (claro, viajando com a graninha do papai tudo fica bonito). Mas conheço também alguns poucos que conhecem a fundo a realidade brasileira, e ainda assim (e talvez exatamente por isso) se apaixonaram para sempre. Tenho um amigo coreano que participou de um programa de voluntariado durante 4 meses no sertão da Bahia, passou fome um dia porque os mantimentos da equipe dele não chegaram no dia previsto, viu um outro voluntário coreano pegar dengue e conheceu nosso maravilhoso SUS. E ainda diz que quer voltar.

Com essa turma aficionada pelo nosso Brasilzão, de hoje em diante só vou andar fantasiado de brasileiro pela Coreia!^^ É simpatia na certa!

Bom, nem tão certa... Há também o oposto: coreanos que conhecem alguns brasileiros muito bem e por algum motivo não se dão bem, o que os leva a generalizarem e não se simpatizarem muito com nosso país. Hoje mesmo conheci uma coreana assim. Ela trabalha com vários brasileiros numa empresa em Seul, e já está de saco cheio deles. "Qual o motivo?", eu perguntei. A resposta: "Eles são excessivamente alegres enquanto trabalham!" Essa foi boa! Tá parecendo o Patch Adams, que quase perdeu o direito de exercer a Medicina por "excesso de felicidade." E ela continuou explicando: "Você vai me desculpar, mas os brasileiros só levam as coisas na brincadeira! Nunca fazem nada sério!" Eu, hein. Mas como eu não conheço os colegas de trabalho dela (que podem realmente ser umas pestes insuportáveis), não vou ficar aqui defendendo ninguém. Essa história foi só para dizer que não são todos os coreanos que vão morrer de amores por vocês, queridos compatriotas, por mais narigudos e zoiúdos que vocês sejam.

O bottom line deste post é: se vierem à Coreia, identifiquem-se como brasileiros para fazerem amigos coreanos (que gostam de brasileiros) com mais facilidade. Principalmente se você tem cara de iraniano, como eu.

Festival das Lanternas de Seul

Tô de volta! Antes que me perguntem como foi no Vietnã, digo que aguardem pelas fotos e vídeos semana que vem. Se der! Essa reta final de semestre promete mais uns ramos de cabelo branco para a minha velhice precoce. Para relaxar eu saio por aí com os amigos, e gravo de vez em quando pra compartilhar com a galera.

Domingo, dia 16, fomos ao Festival das Lanternas de Seul. São as festividades em comemoração ao aniversário de Buda. Eu não sou budista, mas esse festival é muito bonito de se ver. Aliás, pelo que me falaram, parece que a prefeitura de Seul tem investido pesado para que esse festival cresça cada vez mais. Um amigo me disse que há alguns anos o Festival das Lanternas era mais modesto, talvez como o de Cheongju, que vi no ano passado. Agora, para não ser algo tão só pra budista, eles promovem várias outras coisas pra virar uma festa da cidade toda.


Gravei algumas cenas e juntei rapidinho hoje pra eu não esquecer de postar. Fiquem com a lanternada aí, com direito a música de fundo repetida.


E mais tarde, lá pelas onze e meia, quando eu caçava o rumo de casa, passei perto do palco e descobri que a festa não tinha terminado. Geral tava dançando na rua! Eu já tinha achado o desfile bem parecido com o carnaval em alguns momentos, mas nessa hora ficou mais ainda. Foi a primeira vez que vi coreanos dançando, pulando e se divertindo tão "soltinhos" assim em público. Melhor ainda foi ver coreanos de todas as idades se divertindo com os estrangeiros. Gostei tanto da bagunça que nesse dia perdi o último ônibus pra casa! :P

"Um chopps e dois pastel", perto do Cheonggye

Domingo, como eu tinha avisado, fui ajudar a brasileirada na Feira da Amizade de Seul. Gravei algumas cenas porque tinha gente curiosa pra saber como era. Tudo muito simples: pastel, torta de frango, café, bombom e arroz-doce (que acabou rapidinho!). Mas pra mim, o melhor é estar perto de gente que fala a mesma língua, ri das mesmas bobagens e se sente mais unida, mesmo sendo todos brasileiros de lugares muito diferentes.

Então fiquem com os dois vídeos que fiz. O primeiro é mais pra mostrar a nossa barraca, e o segundo são os arredores, o rio Cheonggye (parece replay do ano passado) e a meninada brincando. Sempre que filmo algum lugar, não posso ver um catatau cuticuti que mando ver no zoom!

Obs.: Para os que sempre elogiam as músicas de fundo que escolho, quero ver os comentários sobre a trilha sonora de hoje. Uma combinação um tanto, digamos, diferente.


A prostituição na Coreia

O assunto agora é triste. Não, não vou falar do navio sul-coreano que afundou. Vou esperar mais um pouco pra ver no que dá a história.

O papo é prostituição e as puladas de cerca na Coreia. Me deparei com estes dados na internet e fiquei boquiaberto:

"Estudos revelam que 1 entre 10 homens no mundo já contrataram uma prostituta"
"E 1 entre 5 homens coreanos pagam por sexo mais de 4 vezes por mês"


Como assim? 20% dos homens coreanos “usufruem” dos serviços de uma prostituta mais de 4 vezes por mês?! Então qual será a porcentagem dos que dão uma passadinha na casa da luz vermelha 3, 2 ou 1 vez por mês? E qual será a porcentagem dos que já procuraram uma prostituta pelo menos uma vez na vida? Se esses números correspondem à realidade, receio que a resposta para a última pergunta esteja bem acima dos 50%.

Em Seul, dependendo do horário e do bairro, é impressionante como as tias "empresárias" das prostitutas te oferecem "agashis" abertamente: "Quer fazer sékseu?"

Não sei qual vai ser a reação dos leitores aqui, mas encontrei esse debate no Korean Rum Diary, e parece que 80% dos comentários são a favor da prostituição, já que, argumentam “é a profissão mais antiga do mundo”.

Tentando colocar posições morais à parte (mas não conseguindo muito), eu acho simplesmente o fundo do poço da dignidade humana (1) o sujeito ter que pagar para se satisfazer sexualmente, e (2) a mulher ter que transar com esses caras mais nojentos, violentos e perturbados da sociedade para poder se sustentar.

Mas por que é que eu estou focando no dado que fala dos coreanos? Afinal, alguém vai dizer que no Brasil a situação não deve ser muito diferente. Pois eu vou te dizer qual é a diferença: no Brasil, as pessoas não escondem que a vaca já foi pro brejo em nível nacional, mas na Coreia, as pessoas têm a hipocrisia de esconder esses fatos, exaltar a “pureza” da cultura coreana e apontar o dedo para os “japoneses pervertidos”.

Outra coisa interessante é que no Brasil, geralmente, quando se prega a virgindade antes do casamento é por motivos religiosos (i.e, é pecado), ou no máximo relacionados a uma moral com fundo religioso (i.e, a pessoa quer se guardar para aquele(a) com quem ele(a) vai viver o resto da vida). Na Coreia, um país predominantemente supersticioso mas não muito religioso, prega-se a virgindade entre os jovens quase que por patriotismo. “É a cultura coreana”.

Obviamente que hoje as coisas estão mudando muito rápido, mas entre os jovens coreanos mais conservadores que já conheci, a maioria dos que alegavam se manter (ou pelo menos “querer se manter”) virgens até o casamento eram mulheres.

Então, peraí. Se tem um monte de coreaninha virgem e um bando de marmanjo coreano que diz que não é virgem mais, adivinha com quem os caras praticam?

Pois é. Mas esses ainda são a minoria da clientela das prostitutas. De acordo com os dados do mesmo site, os clientes mais comuns estão entre 35 e 44 anos. É a ajoshizada pulando a cerca geral! E isso todo mundo na Coreia sabe mas faz vista grossa.



E são 3 os principais motivos para procurarem uma prostituta: (1) Satisfazer uma necessidade sexual imediata, (2) experimentar um fetiche físico ou racial e (3) insatisfação com o cônjuge.


Eu diria que nessa faixa etária o motivo 3 é o mais comum na Coreia. Quem trabalha em empresa coreana aqui diz que é impressionante como muitos fazem de tudo para não ter que voltar pra casa mais cedo. Em vez disso, preferem beber soju até altas horas, chegar em casa fedendo e vomitando para a mulher-serva-babá cuidar dele.

Aí as coreanas lembram que também existem os estrangeiros pra casar e os homens coreanos ficam revoltados! ^_^

(Só por curiosidade, gravei esse vídeo há uma hora atrás, quando estava vindo pra casa. Como já vim pensando em postar sobre esse assunto, resolvi mostrar a região de bares que fica a uns 200m aqui da minha casa. À noite, essas propagandas de karaokês com "acompanhantes" pipocam em todo lugar.)

Vamos falar mal

Acho que ultimamente tenho falado muito mal da Coreia. Então agora eu vou falar mais um pouco. Por motivos que não vêm ao caso, eu tô temporariamente mal-humorado. Nessas horas, nada melhor que descarregar as energias negativas no meu ente personificado e envuduzado que se chama Coreia.

A Coreia é uma generalização, um estereótipo, um conceito pré-estabelecido (preconceito!), uma pintura imutável, um ajoshi de cara feia, uma ajumma de permanente, uma estudante colegial com cabelinho playmobil.

Na hora de falar bem, a gente generaliza, e ninguém reclama. Então na hora de espancar, vamos bater na Coreia que fica tudo bem. Aqui vão duas coisas na lista de hoje:

1. Meus vizinhos são uns idiotas.

Durante toda a minha vida mineira, eu tive vizinhos bons e ruins. Eu conversava sempre com os bons e pelo menos cumprimentava os ruins. Na minha última residência pré-vinda-pra-Coreia eu tive a melhor vizinha do mundo inteiro bem na porta da frente. A Tânia, como se não bastasse ter quatro filhos, era quase uma mãe pra mim. Não podia fazer um pão-de-queijozinho que me levava meia dúzia pra comer!

Quando me mudei pra Suwon, a primeira coisa que tentei fazer foi estabelecer um bom relacionamento com meus vizinhos. Puxei conversa, me apresentei, chamei pra sair... Acreditem: só levei toco! Os homens não olham na minha cara, e as mulheres acham que sou um tarado por querer saber o nome delas. O resultado é que todo mundo no meu prédio vive na sua bolhinha e ninguém é amigo de ninguém. O motivo é que aqui tem uma cultura imbecil em que as pessoas geralmente só confiam em quem é apresentado por alguém que ela já conhece.

2. Os homens coreanos não lavam as mãos depois de irem ao banheiro.

Sim, todos eles. Meu ente personificado não aceita exceções. Você já deve ter lido algo do tipo em posts mais ácidos no blogue do Renato. Mas aqui vai a ênfase: eles não lavam mesmo. Hoje, num banheiro do metrô, eu fiquei observando. Um entra-e-sai de nego no banheiro, e nenhum lavou as mãos. Enquanto eu lavava as minhas, de vez em quando chegava um pertinho da pia... mas era só pra retocar seu cabelinho com permanente.

Implicância minha? Isso é questão de saúde pública! Aquele sanduíche que você comeu 5 minutos depois de apertar a mão empiruzada do seu amigo pode estar todinho contaminado. E não é só de xixi de soju, mas também coliformes kimchicais! Juro que uma vez vi um ajoshi saindo da cabine depois de fazer um número dois animal (pelo cheiro), e não passou nem perto do lavatório. Pois é: esse cara pode ser o seu colega de trabalho! Por isso, na hora de cumprimentar, prefira o estilo oriental. Dá só uma encurvadinha de longe.

Outra hora eu volto pra falar de coisa boa. Por enquanto, deixa eu curtir minha maracujina coreana, porque não há nada que expatriado faça melhor do que falar mal do país - seja do seu próprio ou de qualquer outro.

Trabalho que faz sentido

Vi esse vídeo do TED num post do blogue Roboseyo e não pude deixar de repostar. A palestra é interessante para qualquer um no mundo capitalista, mas os sul-coreanos deveriam assisti-la mais de uma vez e tentar colocar em prática.

Os coreanos trabalham mais, muito mais, que os brasileiros. Também estudam mais, muito mais. Mas isso não significa, necessariamente, que trabalhem e estudem bem! O palestrante fala exatamente de uma pesquisa científica que comprova o quão ineficiente é o sistema de meras recompensas e punições nas empresas, e como é importante ter sentido no que você faz, em vez de simplesmente obedecer como a turma do lado de cá faz. Confira você mesmo a palestra, porque vale a pena (e você pode selecionar a legenda em português).


PS1: Ao comparar Coreia e Brasil, não quero dizer que os brasileiros saibam trabalhar melhor. Mas acho que a Coreia já chegou a um ponto em que pode questionar seu próprio sistema e dar um salto ainda maior para o futuro. Não sei se uma palestra de 20 minutos mudaria algo que está tão enraizado na cultura coreana, mas se pegar a turma que manda nesse país já tá ótimo.

PS2: Também concordo com o autor do Roboseyo, quando ele diz que a maior parte dos problemas culturais na Coreia seria magicamente resolvida se 50% das pessoas que comandam o governo e as empresas sul-coreanas fossem mulheres. Elas com certeza seriam mais sensíveis a outros valores que não sejam os corporativos sangue-suga.

Por que é que as Coreias não acabam com essa palhaçada?

Se você já parou para pensar alguma vez na vida sobre um lugar muito, muito distante que se chama Coreia, é provável que tenha se perguntado por que essa nação são dois, e não um, país, como antes. E se esse assunto te interessa mesmo, você já deve ter dado uma googladinha básica e encontrado a resposta. Por isso não vou ficar aqui repetindo a mesma história de sempre.

A minha pergunta é: por que é tão difícil assim um único povo se entender e viver em paz?
O que a mídia vai sempre dizer é o mesmo que sempre disse: a Coreia do Norte e seu regime de amalucados não dão brecha para uma conversa civilizada. O resultado é o que já sabemos: uma zona desmilitarizada, famílias separadas, ninguém sobe e ninguém desce (ou quase ninguém), e um estado técnico de guerra, sem tratado de paz assinado.

No entanto, na semana passada uma nova informação me fez enxergar as causas de tal estado por uma nova perspectiva. Eu já falei aqui antes que, na Coreia do Sul, praticamente todos os mapas do país que vemos nas escolas não mostram as duas Coreias como dois países diferentes. Na maioria esmagadora das vezes o mapa mostra a península coreana toda com, no máximo, uma linhazinha fininha e pontilhada mostrando a divisão, e os dizeres "Mapa do Nosso País", como este logo abaixo:


A minha reação ao ver mapas assim quando cheguei à Coreia era sempre positiva. "Nossa, que bonito! Eles ensinam às crianças na escola que eles são um só povo, com uma só história..." Uma atitude bacana do governo sul-coreano, não?

Mas a nova informação que mudou minha maneira de pensar surgiu numa aula, sexta-feira passada. O Prof. Kwak fez uma breve menção a uma cláusula pétrea da Constituição da Coreia do Sul, que diz que o território da República da Coreia (i.e. Coreia do Sul) se estende até o ponto mais ao norte da península coreana. Ou seja: o governo norte-coreano não é legítimo e são uma cambada de invasores que estão controlando a parte norte da península. Algo como as FARC na Colômbia, só que maiores e mais organizados.

Qual é o impacto dessa breve parte da Constituição da Coreia do Sul? Simples: eles jamais poderão assinar um tratado de paz, a menos que reunam uma Assembleia e decidam desistir do território do norte, o que é muito improvável.

Até agora a Coreia do Sul ainda não reconheceu o governo norte-coreano como legítimo (e vice-versa). O pouco progresso que obtiveram foi por pressão da ONU. Os países só integraram à ONU, por exemplo, em 1991, simultaneamente, porque nenhum dos dois aceitaria que o outro entrasse para representar o "povo coreano".

Uma outra consequência desse pequeno trecho da Constituição é que a Coreia do Sul tem administradores designados para cada província na Coreia do Norte. É mole? Os bichos nem podem atravessar a fronteira, mas já estão prontinhos para administrar um território em que não têm jurisdição!

Agora, me digam aí, por mais que Kim Jong-il seja surtado, o que você faria no lugar dele se soubesse que o governo do sul tem tudo engatilhado para tomar conta do seu território? Não importa o quanto os americanos e sul-coreanos pareçam querer negociar, o problema está na lei daqui.

A meu ver, a reunificação pacífica hoje é impossível. Pelo menos assim, de uma vez. A melhor maneira seria os dois países reconhecerem um ao outro como países com governos legítimos, ainda que com ideologias diferentes, e começarem a se abrir aos poucos. E depois de muito tempo de amizade, aí sim, conversa de reunifição pode voltar a fazer sentido.

Enquanto isso a gente vai vivendo nessa maravilhosa tranquilidade sul-coreana, que faz a gente até esquecer dos milhares de mísseis apontando pra nossa cabeça.

Como ajudar os coreanos a fazerem mais coreaninhos?

O leitor André, que aparentemente trabalha na Samsung no Brasil, deixou um comentário com um link para esta reportagem do Estadão sobre a taxa de natalidade na Coreia do Sul. Para quem tá com preguiça de ler, vou resumir: ela fala sobre as medidas que o Ministro da Saúde do governo sul-coreano tem tomado para aumentar a taxa de natalidade que é uma das mais baixas do mundo (1,2 se não me engano) e ajudar os coreanos a passarem mais tempo fazendo coreaninhos.

Para um país manter a reposição da população e, portanto, garantir uma população economicamente ativa que sustente a base e o topo da pirâmide (as crianças e os idosos), é necessária uma taxa de natalidade de pelo menos 2,1* filhos por casal. (*Não me perguntem de onde veio esse 0,1. Mas suspeito que seja para garantir que 2 cheguem à fase adulta, já que uma turma se perde aí no meio do caminho).

O que fazer então, ó Coreia? A reportagem do Estadão falou - não muito seriamente - das medidas tomadas para atacar um dos problemas: os trabalhadores passam tempo demais no trabalho e pouco tempo com a família. A cultura corporativa na Coreia é simplesmente massacrante: os coreanos trabalham em média 12 horas por dia, raramente recebem hora-extra e ainda têm o costume de sair com os colegas de trabalho à noite durante a semana. Resultado: se têm cônjuge em casa, chegam cansados demais para "dar no couro" e fazer filhinhos. Se já têm filhos, não têm tempo para ficar com eles. E é isso que o Ministro da Saúde está tentando estimular: uma mudança cultural que permitam que os trabalhadores passem menos tempo no trabalho e mais tempo com a família.


"Quase não vejo meu papai!" :(

A meu ver, esse problema é grave porém não o maior. Digo, no que diz respeito o número de filhos que cada casal tem. Afinal, "fazer" o filho é fácil. Ainda que os casais só se encontrassem nos fins de semana, se quisessem ter filhos, eles teriam. Acho que outros problemas mais graves são: o altíssimo índice de abortos e de custo de vida (principalmente de educação).

Para quem vem de um país tão católico, é de assustar a naturalidade com que as pessoas falam em fazer um aborto na Coreia. A questão deles não é "se o feto já é 'gente' ou não", mas simplesmente se os pais já estão casados, se já têm dinheiro suficiente, ou se foi só uma escapulida. A lei aqui proíbe o aborto, mas ainda é fraca em coibir que eles aconteçam em larga escala.

Só para ilustrar a gravidade da coisa. Um dia eu conversava com alguns coreanos sobre esse assunto, perguntei a uma menina: "Se você descobrisse que está grávida de 2 meses mas não é casada, abortaria?". A resposta foi mais rápida que o Chapolim Colorado, sem titubear: "Claro!". Tentei questionar: "Mas você não considera um feto de 2 meses como um ser humano, para se descartar tão fácil assim?". "Ahn? É só um feto, não é uma pessoa ainda." Depois eu comentei também sobre uma reportagem que vi no Brasil mostrando os traumas emocionais nas mães que cometeram abortos, e que isso também é algo a se pensar. Algumas das meninas disseram conhecer alguém que já tenha feito um aborto, mas nunca ouviram falar de trauma nenhum por causa disso.


Foto do AsiaNews.it, que fala sobre como os abortos prejudicam a sociedade coreana

Outra coisa: não se vê propaganda de preservativo na TV, e mesmo nas escolas ainda é tabu. Pelo que andei perguntando, o uso da camisinha é quase nulo entre os coreanos e, portanto, o índice de gravidez indesejada que leva ao aborto é muito alto.

O outro motivo que leva os casais a terem menos filhos é o mesmo dos casais de classe média nas grandes cidades do Brasil: o alto custo de vida, principalmente de educação. Ao contrário do que se pensa, escola na Coreia não é de graça do jardim de infância ao ensino médio. Universidade, muito menos! O governo oferece educação de graça em alguns níveis (não sei exatamente quais) e há muitos programas de bolsas para bons alunos, mas em geral sempre tem que haver uma contrapartida da família. E como o nível educacional do país é alto, a competitividade aumenta, e os pais terão que pagar mais para seus filhos conseguirem competir no mercado de trabalho. É curso de inglês, japonês, chinês, matemática, música, natação, ginástica, cirurgia na pálpebra, no nariz, nado sincronizado, enfim... o que o menino puder fazer para se diferenciar, os pais devem pagar. Como é que você convence um casal a ter mais de um filho nessas condições?

O que tem segurado as pontas legal, e os próprios coreanos ainda não deram o devido reconhecimento, são as famílias mistas do interior do país. Geralmente são fazendeiros que se casam com mulheres vietnamitas (compradas?) e têm seus 3, 4 filhos. Seguram a onda também os estrangeiros que têm vindo em massa nos últimos anos para trabalhar ou que se casam e têm mais filhos que a média. Se você der um pulinho em Itaewon por exemplo, vai ver casais de indianos e muçulmanos com sua meia-dúzia de pimpolhos andando nas ruas.

Acho bom ver o governo sul-coreano finalmente acordando para a questão, mas vão precisar de muito mais esforço do que o "Ministro de Encontro de Casais" já tem feito. Se não tiverem sucesso, o bom é que vai sobrar emprego pros estrangeiros daqui a alguns anos.

Você já experimentou tteok-mandu-kuk?

AVISO: Este post contém linguagem imprópria para menores.

Semana passada, um amigo coreano chegou para mim e falou: "Vi uma reportagem sobre o Brasil na TV e aprendi uma expressão em português!". Eu: "Ah, é? Que expressão?". "Tomá no **!". Eu fiquei perplexo. Tentei imaginar por que motivo o sujeito aprenderia tal expressão num programa de TV.

Depois até esqueci do assunto, mas no fim de semana conversamos sobre isso com o Juliano, que parece ter visto o programa, e explicou sobre o que era. É que tem um prato coreano que se chama tteok-mandu-kuk (떡만두국), mas quando se pronuncia rápido, soa exatamente como "tomá no **".

Tteok (떡) é o bolinho de arroz, que inclusive vão comer muito aí no Ano Novo Chinês que está por vir. Mandu (만두) é um tipo de pastelzinho que se vende em todo lugar, cozido ou frito. Eu mesmo sempre como aqui em casa. E kuk (국) significa "sopa". Ou seja: tteok-mandu-kuk é uma "sopa de tteok com mandu". Agora, imagina a confusão que isso não deve dar nos restaurantes coreanos no Brasil?

É sobre isso que o tal programa fala. O Juliano achou o vídeo no Youtube e compartilhou pelo Twitter. Notem como eles repetem e repetem e repetem a expressão sem o menor pudor, já que para eles não faz sentido nenhum.


E você? Já experimentou tteok-mandu-kuk? ^_^