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Moon Jae-in

O massacre de Gwangju

Nas eleições presidenciais da semana passada, a nova presidente foi eleita com 51,5% dos votos, enquanto Moon Jae-in ficou com 48%. Não foi uma vitória folgada. Mas se dermos uma olhada no mapa da Coreia de acordo com o resultado, veremos que praticamente só duas grandes regiões optaram pelo candidato da oposição: Seul e Jeolla-do, onde fica a cidade de Gwangju. Seul, naturalmente, é menos conservadora que as outras regiões, mas ainda assim o votou em Moon Jae-in só com 51,4% dos votos, uma margem pequena. Já em Gwangju, a vitória dele sobre Park Geun-hye foi gigante: 92% contra 7.7%.

Mapa do resultado das eleições presidenciais da Coreia do Sul em 2012. Vermelho representa as regiões que escolheram Park Geun-hye, e amarelo as regiões que escolheram Moon Jae-in Mapa do resultado das eleições presidenciais da Coreia do Sul em 2012. Vermelho representa as regiões que escolheram Park Geun-hye, e amarelo as regiões que escolheram Moon Jae-in



O que explica essa rejeição tão grande pela candidata que acabou ganhando? A resposta é simples: o massacre de Gwangju, de 18 de maio de 1980. Como já contei antes, o pai de Park Geun-hye, o general Park Chung-hee, foi presidente através de um golpe militar e governou de 1961 até 1979, quando foi assassinado. Nesse momento, o movimento estudantil ganhou força na luta pela democratização do país. E Gwangju foi a cidade com a maior mobilização popular: não apenas estudantes, mas a cidade toda saiu às ruas para protestar contra a ditadura que se manteve com o sucessor de Park Chung-hee. O que o governo fez? O que as ditaduras fazem: tentam abafar e amedrontar os que protestam. Mandaram o exército para as ruas de Gwangju, e mataram sem mirar a quem: jovens, crianças, todos. No final, foram 165 mortes e mais 65 desaparecidos. E mais umas centenas de feridos.

Manifestantes em Gwangju, 1980 
Manifestantes em Gwangju, 1980

Obviamente, não quero com este post dizer que a presidente-eleita foi a responsável pelo massacre. Claro que não. Porém, o que o povo de Gwangju não suporta é a mínima ideia de que ela tenha feito parte desse sistema ditatorial que tem as mãos tão sujas de sangue na história sul-coreana. É a imagem dela que, na memória de Gwangju, está muito associada aos velhos militares antidemocratas.

Por conta disso, Gwangju é também a cidade com o maior sentimento antiamericano no país inteiro, pois quem financiava a ditadura sul-coreana eram os EUA (como foi na América Latina, na Indonésia, no Egito, e a lista segue). Gwangju e Jeolla-do portanto, destoam do restante do interior coreano, mesmo tendo um ar provinciano. A luta pela democracia é o maior orgulho do povo de lá, e as feridas deixadas pelo massacre ainda não se cicatrizaram completamente.

Abaixo, algumas cenas do filme "Feriado Esplêndido" (화려한 휴가, que foi traduzido como "May 18" em inglês). O filme foi feito a partir de relatos dos sobreviventes do massacre. Um coisa impressionante.

Moon se opõe ao casamento gay

Estamos a dois dias das eleições, e temos algumas novidades: a candidata Lee Jeong-hee (a "Plínio de Arruda" dos coreanos) saiu da corrida. Talvez tenha calculado que tomaria eleitores da ala esquerdista, mas não de Park Geun-hye.

A outra novidade é que o candidato esquerdista está indo para a direita para ver se consegue pescar os indecisos. E em mais uma semelhança com as eleições presidenciais no Brasil em 2010, parece que os religiosos é que vão decidir a parada. Moon Jae-in prometeu aos cristãos sul-coreanos que não deixará que seja aprovada nenhuma lei permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo.


O candidato, que se auto-entitula defensor dos direitos humanos e cujo slogan de campanha é "As pessoas em primeiro lugar", está sendo criticado por Hahn Chae-yoon, presidente do Centro de Direitos e Cultura da Minoria Sexual Coreana. Com esse slogan, "o que é que o candidato considera como pessoa"?

Obviamente, a candidata do partido conservador não sofre a mesma pressão, pois sabe que sua base de apoio nem levanta a questão. Mas a posição de Moon foi uma surpresa para alguns. O gay coreano deve estar se perguntando: "Ó, e agora, quem poderá nos defender?"

A legislação coreana apenas permite aos que passam por cirurgia de mudança de sexo de terem sua identidade modificada também (segundo a Marmota), mas debater a homossexualidade (ou mesmo a sexualidade em geral) na Coreia é um tabu tão grande, que pelo jeito vai ser uma daquelas questões empurradas com a barriga por mais um bom tempo.

O primeiro casal gay de uma novela da SBS, "Life is Beautiful", em 2010 
O primeiro casal gay de uma novela da SBS, "Life is Beautiful", em 2010

O mais próximo de um debate amplo sobre o assunto na Coreia foi em 2010, quando uma novela do canal SBS chamada "Life is Beautiful" (이생은 아름다워) levou para a TV um casal gay, atuado por Song Chang-eui e Lee Sang-woo. Eles faziam o papel de um casal estável e sem estereótipos. Muitos fãs não gostaram da "novidade", mas o restante ficou revoltado mesmo foi quando uma cena da novela foi proibida de ir ao ar. Na cena, os dois trocavam votos de fidelidade numa igreja na ilha de Jeju, e esta fez muito barulho, reclamou no canal, exigindo que a cena fosse retirada. Os produtores ficaram com medo da polêmica e acabaram fazendo o corte na edição final, para a decepção da autora, Kim Soo-hyun. Agora, se nem na novela os caras podem se casar, na vida real vão ter que esperar um bocado...

Eleições presidenciais 2012 na Coreia do Sul

Tá chegando! Dia 19 de dezembro os sul-coreanos vão às urnas para decidir quem será o(a) próximo(a) presidente da República da Coreia (ou Daehanminguk, 대한민국), o nome oficial da Coreia do Sul. Independente de quem ganhar, provavelmente teremos um cenário político interessante no país a partir de 2013. Mas antes de falar um pouco sobre os candidatos, acho importante ressaltar que o sistema eleitoral por aqui é bem diferente do brasileiro. Na Coreia do Sul, as regras do jogo são as seguintes:

  • o Presidente da República é eleito para um mandato único de 5 anos;

  • o registro das candidaturas acontece a menos de um mês das eleições;

  • o voto é facultativo, ou seja, você só vota se quiser (e puder, claro);

  • a campanha dura 23 dias para as eleições presidenciais e só 14 dias (!) para as legislativas e locais;

  • não tem segundo turno. Um candidato pode ser eleito com menos de 50% dos votos válidos;

  • a votação acontece na primeira quarta-feira a partir de 70 dias antes do fim do atual mandato. Essa quarta é feriado, e foi definido assim para que as pessoas não viajem no dia e se disponham a ir votar;

  • para evitar um grande número de candidatos e garantir a "sinceridade" da candidatura, o candidato a Presidente deve fazer um depósito de 300 milhões de wons (mais ou menos 570 mil reais), que serão devolvidos ao final do processo eleitoral;

  • assim como nos EUA, os partidos devem fazer prévias para decidir as candidaturas, exceto no caso dos candidatos sem partido, o que é permitido aqui;

  • a Comissão Eleitoral Nacional (equivalente ao TSE no Brasil) estabelece um valor máximo para as campanhas, baseado no tamanho da população, renda per capita e média de custos. Esse limite é porque os candidatos são reembolsados pelo governo (financiamento público) após o fim do processo, mas antes precisam prestar contas para receberem o dinheiro.

Como se pode ver, o negócio aqui é bem diferente do que temos no Brasil. Uma característica em particular muda toda a dinâmica eleitoral como a conhecemos: o prazo para o registro das candidaturas. Só para comparar, um ano antes das eleições presidenciais de 2010 no Brasil, já sabíamos que a Dilma seria a candidata do PT. No início do ano já vimos a movimentação da candidatura da Marina pelo PV, e o PSDB, que "demorou" (segundo analistas políticos brasileiros) já tinha escolhido o Zé Serra seis meses antes do dia do pleito. Agora imaginem só: até a semana passada, dentre os principais candidatos sul-coreanos, só tínhamos certeza da candidatura da Park Geun-hye, enquanto aguardávamos a decisão entre os dois outros candidatos da oposição. Essa enrolação se deve ao fato de que não há segundo turno, por isso a oposição precisava se decidir por um único candidato para ter mais chances de vencer a candidata do partido do atual presidente.

 
Índice de participação popular nas eleições presidenciais anteriores na Coreia do Sul. Um dos desafios é levar os jovens às urnas (fonte)

Vamos aos corredores, então. Desde sexta (dia 23/11), sabemos oficialmente que os dois principais candidatos são Park Geun-hye (do "Partido da Nova Fronteira", 새누리당) e Moon Jae-in (do "Partido Unido Democrático", 민주통합당). Até sexta passada, o candidato Moon (que não tem nada a ver com o reverendo Moon, acho eu) estava numa queda de braço com o pré-candidato independente Ahn Cheol-soo, um cara que ficou rico com uma empresa de software anti-vírus. É que as pesquisas mostravam Park com mais de 44% das intenções, enquanto os outros dois variavam entre 20 e 25% cada um. Num espectro político direita-esquerda, podemos dizer que Park representa a direita conservadora sul-coreana, enquanto os outros dois estariam mais à esquerda liberal. Daí a divisão.

No entanto, política não é tão simples. O eleitor comum não pensa muito em ideologias. Muitas vezes é a personalidade quem conta. E nessa brincadeira, Park Geun-hye pode acabar papando essa eleição, apesar de tudo. Dá uma olhadinha no perfil dela.

 
A candidata do NFP (sigla em inglês), Park Gyen-hye (à esquerda) e seu oponente, Moon Jae-in (DUP, à direita) (foto)

Park Geun-hye é a primeira candidata mulher com chances reais de ganhar uma eleição presidencial na Coreia do Sul. O que pesa a seu favor? Ela tem uma vasta experiência política não só como parlamentar na Assembleia Nacional, mas também como Primeira-Dama de seu pai, que foi Presidente nos anos 60 e 70, e ficou conhecido como aquele que colocou a economia do país nos eixos e firmou a base para o desenvolvimento. O que pesa contra? Papai também foi um ditador militar barra pesada. Ou seja: Park Geun-hye é uma figura que representa uma mudança quando se pensa na questão da representação feminina na política coreana, até porque ela nunca se casou, o que, na Coreia, até pouco tempo atrás era fortemente discriminado (e ainda é de certa forma). Mas os que temem uma volta do ultra-conservadorismo, que vai além das políticas do atual Presidente, vêem sua ligação com o governo de seu pai um grande perigo. Aliás, esse é o maior desafio de Park: descolar sua imagem tanto de seu pai quanto do atual Presidente, Lee Myung-bak (que conheci pessoalmente em 2010 numa boca-livre na Casa Azul). Para isso até mudaram o nome do partido. Antes era o "Grande Partido Nacional" (한나라당) e virou "Partido da Nova Fronteira" (새누리당). Sabem como é né: tipo PFL virando Democratas. Queimou o filme, muda de nome. Lavou tá novo.

O candidato da oposição, Moon Jae-in, tem uma história bem diferente. Ele estava "do lado de lá" na época da ditadura do pai de sua oponente. Moon foi preso diversas vezes por liderar o movimento estudantil contra a ditadura do general Park. Esse movimento começou dentro da Kyung Hee University (onde eu fiz meu mestrado, e por isso recebi inúmeros emails da instituição apoiando sua candidatura), universidade onde Moon estudou Direito e até deu umas aulinhas. Mas Moon Jae-in também tem sua imagem vinculada a um ex-Presidente: Roh Moo-hyun, que governou no período 2003-2008, quando Moon foi seu equivalente a "Ministro da Casa Civil." Por isso, nem ele nem sua rival representam algo muito novo. Além disso, Roh cometeu suicídio em 2009 por não suportar as alegações de corrupção durante seu governo. Mas Moon tem a seu favor o fato de que seu partido, assim como toda a esquerda sul-coreana, propõe uma expansão do Estado do Bem-Estar Social, que é bem fraquinho na Coreia (bem nos moldes estadunidenses). Creches de graça para crianças até 5 anos, melhora das leis trabalhistas, menos privilégios para os chaebols (grandes conglomerados como Samsung, Hyundai, etc), enfim, maior proteção social.

Park Geun-hye agora também se moveu para o centro no seu discurso, mas essa curta campanha promete pegar fogo. Moon Jae-in a tem atacado com palavras afiadas: "Enquanto eu vivia na pobreza, ela vivia uma vida de princesa na Casa Azul. Enquanto eu lutava contra a ditadura, ela estava bem em seu centro." (fonte)