Viewing entries tagged
Lee Myung-bak

LMB e os rios da Coreia

Toda semana sai algum artigo no Hankyoreh (um jornal claramente de oposição ao governo de Lee Myung-bak) sobre o "Projeto de Restauração dos Quatro Rios". O que eu acho estranho é que nenhum outro jornal coreano fala tanto do tal projeto, e o Hankyoreh não explica o porquê da oposição. Só vejo editoriais com títulos como "O governo deve parar as obras nos quatro rios imediatamente!" ou "Lee Myung-bak não ouve o povo e segue com as obras nos quatro rios".

Imparcialidade passa longe nos jornais daqui. E eu, mesmo tendo várias críticas ao governo de LMB, gostaria de ver os dados do governo e as críticas, para fazer meu próprio julgamento. Parece que a maior crítica é em relação ao processo de licitação, que acabou por beneficiar empreiteiras que apoiaram a campanha do atual presidente. Se for isso, realmente tem que parar e fazer a coisa certa. O problema é que o Hankyoreh coloca a coisa de tal forma que parece que a obra é totalmente desnecessária, e que não tem cabimento nenhum.

Mas como eu não tenho conhecimento técnico sobre o assunto, vou falar de outro exemplo de obra que enfrentou oposição igualmente feroz: a restauração do Cheonggyecheon. E adivinha quem era prefeito de Seul na época? O próprio Lee Myung-bak!

O Cheonggyecheon passou por um profundo processo de deterioração ao longo dos anos, chegando até a ser tampado completamente, continuando a ser poluído longe dos olhos da população. LMB levou adiante então o projeto, que previa a remoção de grande parte do trânsito e comércio da região, a abertura e despoluição completa do rio.

As críticas diziam que o projeto era caro demais e que muitas pessoas perderiam seus empregos. LMB foi contra a opinião pública e levou a cabo o projeto, que hoje é ponto de parada obrigatória para o turista em Seul e motivo de orgulho para os sul-coreanos.

E engraçado é que aqui na Coreia as divisões em esquerda e direita política são meio diferentes de outros países. A direita fica com o discurso duro na política externa ao mesmo tempo em que abraça a bandeira ambiental (meio que Bush pra fora e Obama pra dentro), enquanto a esquerda fala vagamente de movimentos sociais e se opõe a projetos ambientais, sem apresentar alternativas.

Sabe qual vai ser o resultado? LMB vai tapar os ouvidos para os protestos, vai levar o tal projeto dos quatro grandes rios até o fim, e no final das contas o povo vai esquecer que odiava tanto o presidente e vai se orgulhar dos rios sul-coreanos com um sentimento nacionalista. E se LMB acabar por se suicidar, eles vão chorar e dizer que foi um dos maiores líderes que a Coreia já teve.

•            •            •             •             •

Abaixo algumas fotos do Cheonggyecheon ao longo dos anos.

Antes 
(fotos daqui)

Cheonggyechon em 1965
1965
1965
1967, quando começaram as obras para tampar o rio.
1967


Depois 
(fotos daqui)





É, parece que os jovens coreanos participaram um pouco mais desta vez

Foto daqui
Quando resolvi fazer especulação política, tive uma bela surpresa: a participação dos jovens nas eleições de 2 de junho aqui na Coreia foi a maior de todos os tempos. E a participação geral foi a maior em 15 anos, com 54,5% dos eleitores comparecendo às urnas. (Fonte: NYTimes)

O resultado foi que o partido da oposição ganhou na maior parte das cidades e províncias, surpreendendo o partido do governo, que vinha fazendo suas piruetas pra atrair a atenção do eleitorado. E outra: as pesquisas indicavam vitória esmagadora do partido de Lee Myung-bak. Pesquisas essas que já eram estranhas, tendo em vista a impopularidade do tio presidente. Credibilidade total hein?

Mas pra não desfazer do meu último post, vamos ver o copo como "meio vazio". Afinal, são 45,5% dos eleitores que não votaram! Entre os jovens, não vi nenhum número oficial. Os jornais só falam que a mobilização foi grande. No meio em que vivo, no entanto, minha percepção não mudou. Não conheço um só coreano, entre 20 e 30 anos, no meu departamento que tenha votado. A Denise até sugeriu no Twitter que pudesse ser uma diferença entre Seul e as outras cidades. Mas segundo o The Korea Times, a participação nas urnas, em média, foi mais alta nas outras cidades do que em Seul.

É a tal coisa: Se 20% dos jovens votavam, e agora são 30%, o aumento é espantoso, mas no final ainda é pouco. A sociedade coreana está mudando, não tenha dúvida. Mas acho que ainda vão mais umas duas levas de ajoshis até os jovens sentirem que têm poder de decisão nas questões importantes.

Ah, e tem também outro fator importante: os jovens dão muito mais importância às eleições presidenciais, e tendem a ignorar as locais. Isso fica claro na figura ao lado (do mesmo artigo do KT), que compara a porcentagem dos eleitores coreanos entre 20 e 30, e entre 60 e 70 anos que votaram em eleições passadas. Os jovens nunca chegaram aos níveis dos mais velhos, mas a participação deles foi significativa nas eleições nacionais.

Só espero que os jovens coreanos não estejam apenas seguindo ordens, como a pesquisa Data-Henrique apurou. Numa mesa de restaurante em que eu almoçava, 3 entre 4 coreanos em seus 20 e poucos anos disseram ter votado em quem o pai ou a mãe mandou.

Será a Segunda Guerra da Coreia?


Então a mídia internacional tá prevendo guerra por aqui... de novo? Eu já falei e vou repetir. Os sul-coreanos já estão tão vacinados contra qualquer alarme da mídia que ninguém liga mais pra nada. Sério, pergunte a qualquer coreano que viva na Coreia do Sul. Nem tchum!

Tenho a impressão que eles se mobilizariam só se o presidente fosse em rede nacional, olhasse pra lente da verdade e dissesse: "pessoal, estoquem muito miojo e kimchi e não saiam de casa, porque agora a guerra vai começar." Mas o máximo que a gente ouve é: "se as provocações continuarem, algo poderá acontecer!" Fala sério né. Imagina um povo ouvindo a mesma ladainha durante quase 60 anos? Tem dó.

Mas o que tem de diferente dessa vez? Vamos relembrar os fatos recentes:

Março: Uma explosão afundou o navio sul-coreano, Cheonan, que patrulhava o mar próximo da Coreia do Norte, matando 46 tripulantes e paralisando o país em choque. Não se sabia ao certo o motivo da explosão, por isso não podiam fazer acusações diretas.

Abril: Investigações começaram e suspeitas de que a Coreia do Norte teria afundado o Cheonan cresciam. Kim Jong-il, no entanto, só dizia que não tinha nada com isso.

Maio: Conclusão das investigações. Encontraram um torpedo no fundo do mar com caracteres em hangeul. Informaram oficialmente que não havia outra explicação que não fosse a Coreia do Norte a culpada. O anúncio levou a Coreia do Sul a suspender o comércio com a Coreia do Norte, o que já é uma sanção unilateral que faz um bom estrago na já pobre economia norte-coreana. Os EUA deram total apoio à ação e juntos já estão movendo os pauzinhos para aprovarem mais sanções no Conselho de Segurança da ONU. Em reação, a Coreia do Norte decidiu cortar não só o comércio, mas também toda e qualquer relação com a Coreia do Sul, retornando ao patamar da Guerra Fria.

A guerra psicológica voltou. O Sul já colocou alto-falantes na fronteira acusando o regime stalinista de Kim Jong-il de perverso e vai soltar balões para o Norte jogando panfletos para informar o povo norte-coreano que eles estão sendo enganados.

Os treinamentos militares conjuntos dos EUA e Coreia do Sul foram retomados próximos da fronteira, e o Norte só avisa: "ai de vocês se chegarem mais perto!"

No entanto, tem alguns fatos que me deixaram com a pulga atrás da orelha e me fazem desconfiar mais da Coreia do Sul do que da do Norte neste caso. Pensa comigo.

1. Por que é que a Coreia do Norte afundaria um navio sul-coreano e negaria a autoria? Se era pra ameaçar, teriam que mostrar a cara, não?

2. Apesar das investigações (que foram feitas apenas por aliados da Coreia do Sul), o próprio comandante da Marinha sul-coreana disse que não tem tanta certeza de que o torpedo seja norte-coreano. E outra: disse que seus radares não detectaram nenhum movimento estranho no Norte e muito menos um torpedo. Submarinos geralmente não são detectáveis, mas torpedos normalmente o são.

3. A Coreia do Norte jurou de pés juntos que não fez nada. E em uma atitude inédita, ofereceu seus técnicos para participarem de uma segunda investigação conjunta, para eles verem de perto as tais "provas incontestáveis". O que a Coreia do Sul respondeu? Nada. Já foi logo cortando o comércio.

Eu não sou advogado de regimes autoritários, muito menos de um stalinista pirado feito o Kim Jong-il. Mas as peças não se encaixam. A Coreia do Sul não deu ao Norte a chance de se explicar, nem de ver com os próprios olhos as tais provas (que nem o comandante da Marinha sul-coreana acreditou!).

Sempre acusam Kim Jong-il de usar o medo com seu povo para manter o regime. "Eu protejo vocês dos invasores que querem destruir nosso país!" Mas, desta vez, quem é que está usando o mesmo truque? Lee Myung-bak (o tio que eu conheci na Casa Azul) está com a popularidade no chão. Qualquer passo em falso e é perigoso o cara sofrer um impeachment. Mas não se ele estiver "protegendo" o seu povo!

Um político de direita ultraconservadora e que tem tomado medidas antidemocráticas (como reprimir protestos), e que agora age sem ouvir o que os outros têm a dizer. Me parece que a península coreana é governada por dois ditadores malucos. Mas não se podia esperar algo muito diferente de um cara como Lee Myung-bak. Pra mim, a maior decepção é Obama, que prometeu diálogos ao vento, e não soube lidar nem com o Irã nem com a Coreia do Norte.

Se mandarem o Lula pra fechar um acordo de paz na Coreia, é perigoso o Obama jogar uma bomba no dia seguinte. Só pra melar.

Fui na casa do presidente

Há algumas semanas fui convidado pelo PCNB para participar de um evento promovido pela KOICA na Casa Azul (Cheong Wa Dae). OK, uma coisa de cada vez. PCNB é aquele esquema do governo que, para promover a Coreia, deu prêmios para estudantes estrangeiros blogueiros como eu. Lembra? KOICA é a agência de cooperação international através da qual a Coreia ajuda países pobres com projetos de desenvolvimento. Cheong Wa Dae é o palácio do governo e residência do presidente sul-coreano.

O tal evento foi mais pro presidente dar um tapinha nas costas dos muitos voluntários que trabalham em tantos projetos ao redor do mundo, como o Taekwondo Peace Corps, que ensina taekwondo para crianças e jovens como uma alternativa à vida no crime. O programa-pacotão que junta tudo isso se chama World Friends Korea, e é por isso que eu e mais alguns blogueiros (como o Gustavo) fomos convidados.

Pra resumir a história, nós fomos à Casa Azul hoje à tarde e assistimos à cerimônia com mais umas 300 pessoas no jardim, debaixo de um sol que já tá começando a esquentar de verdade. Fiquei impressionado com o esquema de segurança (claro, pro cara que nem tranca a porta, qualquer esqueminha impressiona). Não sei por quê, mas proibiram o uso de celular na cerimônia. E não apenas proibiram, como bloquearam sinal de celular assim que o presidente Lee Myung-bak chegou. E desbloquearam no instante em que ele saiu!

Proibiram também a gente de tirar fotos. Eu levantei, dei umas voltas no jardim, tentei tirar umas fotos com meu celular, mas os seguranças (daqueles com um baita fio ligado na orelha) chegavam já mandando parar na hora. Isso não impediu que eu disfarçasse e pegasse algumas cenas na hora das fotos oficiais. E, claro, fotos à vontade depois que já tinham terminado e o presidente tinha saído.

Na hora do lanche, ele foi de mesa em mesa dar um oi pra turma. Mas não tava com a cara muito boa não. Consegui me apresentar, apertar a mão dele, mas ele não falou nada, ficou parado me olhando. Sei lá se é o jeito dele, mas achei o cara muito sério (ao contrário da Primeira Dama, que distribuía sorrisos). Tá, eu sei, presidente não tem que ser animador de torcida, mas uma piada pra descontrair e um sorriso de vez em quando não faz mal a ninguém. Nesse ponto o Lula é profissional. Ninguém dorme num discurso dele. Fica todo mundo atento pra não perder a piada, a besteira ou o erro de português que ele vai falar, e no final sua mensagem é transmitida.

Ih, eu ia resumir, mas acabei escrevendo demais. Fiquem aí com algumas fotos e meu vídeo clandestino. Pra quem não sabe quem é o Lee Myung-bak, é só procurar um baixinho magrelinho com um "oclão".

Jamali, Gustavo e eu
Deram chapéu pra todo mundo aguentar o sol na cabeça 
Isso foi quando eu falei "Gustavo, disfarça pra eu tirar uma foto aqui escondido"
A minha disfarçada ficou melhor, não?
Eu gostei dessa árvore
O Gustavo esculacha, mas ama essa Coreia!
Olha, tô até parecendo gente!
Basta ampliar essa foto para constatar os bracinhos em "X" do segurança dizendo "não pode tirar foto aqui!!!"
E abaixo o vídeo que gravei pouco antes de terminarem tudo. Narração do Galvão Bueno e comentários do Pelé.