Viewing entries tagged
Coreia do Sul

Eu na KBS TV e três países com bola na bandeira

Falta de tempo. Final de semestre tem que matar um leão por dia. Fica aqui então mais um vídeo que esqueci de postar antes. Foi uma breve participação minha na KBS TV no início de novembro, na qual eles falam sobre três países que têm círculos na bandeira: Brasil, Japão e Coreia do Sul. Se bem que a Coreia do Norte também tem um círculo em volta da estrela... mas enfim.

Sem querer dar um de metido a estrela de TV, já tô me cansando desse negócio de aparecer na telinha aqui. Tomaram umas duas horas do meu dia (cheio de coisa pra fazer), nem me pagaram um kimpabzinho, me esforcei com meu coreano meia-boca pra falar um monte de coisa interessante sobre as várias culturas do Brasil que não fosse carnaval, samba e índio da Amazônia, aí no final eles cortam tudo, colocam só as partes óbvias e reforçam o estereótipo.

E ainda vem a japinha logo em seguida e me humilha na fluência em coreano... :)

Reencontro de famílias coreanas separadas pela guerra há 60 anos

Eu não poderia deixar de comentar isso. Enquanto estava em Busan no fim de semana, vi, na TV dentro do carro, uma cena do reencontro de famílias separadas pela Guerra da Coreia, há 60 anos. Sessenta anos! Não consigo imaginar o que é estar a apenas algumas centenas de quilômetros de distância, e não poder encontrar, ver, ouvir, ter notícias, saber como está seu irmão, filho, pai, primo... Pior: não saber nem se ainda estão vivos. A cena do choro dos familiares que vi na TV ficou na minha cabeça, e só me faz confirmar que a estupidez das guerras (físicas e ideológicas) são cegas ao coração humano e à vida.

Aqui vão alguns trechos da agência Yonhap, sobre o reencontro de 3 dias durante o fim de semana no monte Keumgang, na fronteira entre os dois países:

O reencontro juntou 430 sul-coreanos e 110 norte-coreanos no famoso resort na montanha da Coreia do Norte, onde as cores do outono combinavam com a alegria das famílias que se reuniam pela primeira vez desde a Guerra da Coreia.


A guerra de 1950 a 1953 terminou numa trégua, e não num tratado de paz, deixando as duas Coreias tecnicamente num estado de conflito até hoje. Não há meio de contato entre civis entre os dois países, e mais de 80 mil sul-coreanos estão numa lista de espera para rever seus queridos familiares que estão no norte.


E o número não leva em consideração os sul-coreanos que morreram esperando, número que chega a mais de 40 mil.


Três irmãs sul-coreanas dançam para seu irmão norte-coreano no segundo dia do reencontro na Coreia do Norte


A sul-coreana Shim Boon-rye, 80, sorria enquanto cantava uma canção popular sobre a saudade daqueles que ama, mas acabou em prantos assim que terminou de cantar. Ela então abraçou seu irmão norte-coreano de 77 anos que cantou junto com ela: "Como eu poderia te esquecer? Como eu poderia te esquecer?"


(...)


A animação durante o almoço mais cedo foi desaparecendo assim que as famílias começaram a encarar a realidade de que teriam que se separar novamente no terceiro dia do reencontro.


"Pergunte ao seu pai tudo o que você sempre quis perguntar, ou poderá se arrepender de não tê-lo feito", disse um parente a Ko Pae-il, de 62 anos, que encontrou seu pai de 81. Ko, um coreano-americano do Alabama, disse que era muito cruel ele ter que dizer adeus a seu pai, de quem foi separado aos 3 anos de idade.


"Pai, pai, cuida da saúde, hein?" disse Ko, aos prantos.

Vídeo do momento da despedida (Ko Pae-il aparece no início, se despedindo de seu pai):



Um homem norte-coreano em lágrimas durante o reencontro com seus filhos que vivem na Coreia do Sul


(...)


Esses reencontros, organizados através da Cruz Vermelha, são facilitados pelo fato da Coreia do Norte receber maciças doações "humanitárias". Nas conversas pela Cruz Vermelha na semana passada, a Coreia do Norte pediu 500 mil toneladas de arroz e 300 mil de fertilizantes para a Coreia do Sul.

O artigo original da YonhapNews se encontra aqui.
Uma outra reportagem da CNN com vídeo você pode ver aqui.

Romanização oficial da língua coreana na Coreia do Sul: uma pincelada basicona

Tinha tempo que eu queria escrever sobre isto, mas acabava esquecendo. Quem mora na Coreia, mesmo sem falar coreano, acaba se acostumando com a pronúncia das palavras, apesar de não soar muito como a representação romana, mas como é uma questão de sobrevivência o sujeito se vira pra pronunciar mais ou menos do jeito certo.

Já os turistas de primeira viagem -- como minha família -- não são obrigados a adivinharem que quando se junta a letra e com a letra u, o som não vai ter nada a ver com o som /eu/.

Por isso, esta postagem tem como objetivo ser um pequeno guia para a romanização oficial adotada pelo governo sul-coreano. Muito longe de ser um guia completo e preciso, aqui eu só quero discutir um mínimo sobre o assunto para o leitor que se interessa.

Talvez você já tenha ouvido falar que a romanização do coreano é uma bagunça, porque existem muitas versões, cada um escreve de um jeito diferente, e tudo é uma salada que não faz sentido. Mas há verdades e mentiras aí. A verdade é que as pessoas (tanto coreanos quanto não-coreanos) realmente se confundem com as várias formas já propostas até hoje, cada uma com sua base acadêmica. A mentira é que não existe uma norma oficial. Existe sim! A Coreia do Norte adota uma forma diferente da Coreia do Sul, mas ambas têm suas normas para romanização oficial.

O que bagunçou tudo mesmo foi o fato de o governo sul-coreano ter adotado uma nova romanização oficial no ano 2000. A anterior se chamava McCune-Reischauer, uma forma que se preocupava mais em romanizar o coreano de maneira que o leitor pudesse retornar à escrita ao Hangeul (alfabeto coreano) do que em romanizar como realmente se pronuncia (com exceções de algumas regras). Por isso, usava apóstrofes e diacríticos, e ignorava muitas mudanças sonoras, a fim de preservar a escrita original.

Já a norma adotada em 2000 se chama Romanização Revisada do Coreano, e esta eliminou todos os diacríticos, o que simplificou muito o sistema. Esta norma, no entanto, tem várias inconsistências, pois tenta representar algumas mudanças sonoras mas outras, mais leves, são ignoradas.

A implementação da norma nova gerou muita discussão, pois se gastou muito dinheiro para adaptar o país todo: placas, nomes de lugares, livros didáticos... tudo teve que ser mudado. Para os sobrenomes, foram mantidas as formas tradicionais, mas para os nomes é recomendado que se use a nova norma.

Chega de enrolação então, e vamos ao que interessa. Se você já sabe um pouco de coreano, mas também se confunde com a romanização, ótimo. Mas se você nem conhece os sons do coreano, é melhor dar uma olhadinha neste site primeiro, onde se pode clicar no caracter e ouvir o som.

Primeiro, as consoantes do Hangeul e as respectivas formas romanizadas (versão oficial atual, claro):



Agora, as vogais e ditongos:


Essas tabelas são versões "simples" da romanização coreana. Isso porque a romanização revisada se baseia principalmente na fonética, no som final que se quer transcrever. Por exemplo, temos a palavra (o que / algo), que isoladamente transcrevemos como mwot, pois o som final é "t". Mas se for transcrita um frase como 뭣을 샀어요? (o que você comprou?) o que antes era "t" agora é "s", porque esse é o som pronunciado.

Por isso, para se fazer a transcrição correta é necessário um mínimo de discernimento da pronúncia correta. Mas se eu listar aqui os inúmeros exemplos do tipo, o leitor vai acabar desanimando e nem termina de ler o post. Vamos ao que se pode chamar de "um pouco mais regular". Note que muitas consoantes da primeira linha na primeira tabela acima tem duas possibilidades de romanização. A regra básica é que a primeira se usa no início da sílaba, e a segunda no final dela. Isso porque, em tese, os sons de início e final de sílaba são diferentes.

Exemplo: a romanização da palavra 비빔밥 (um prato típico coreano) é bibimbap. Tanto o "b" quanto o "p" representam o mesmo caracter, mas o "p" é o único que se encontra em final de sílaba. Mas suponhamos que existisse uma palavra como 빕임밥. Segundo a regra da "fonética primeiro", a transcrição seria a mesma, pois o som é o mesmo, por estar entre vogais. Nesse caso, é recomendado que se use o hífen e se transcreva as sílabas separadamente, para evitar ambiguidades. Então ficaria como bip-im-bap. A diferenciação entre início e fim de sílaba também pode ajudar quando um caracter no final se encontra com ele mesmo no início da próxima sílaba: 밥밥 (arroz-arroz, só um exemplo) fica como "bapbap", então assim é possível saber onde termina uma sílaba e começa a outra.

Uma melhora significativa da romanização revisada em comparação com a anterior, na minha opinião, foi em relação às vogais. Antes, as transcrições só pensavam no falante de inglês. O resultado é que nomes como o do namorado da Briza, 명철, é transcrito como Myung Chul, mas de som de "u" mesmo não tem nada. Só pro falante de inglês mesmo é que é moleza sacar o som. E o som de "u" era transcrito como woo em vez de u mesmo, esquecendo que na maior parte das outras línguas ocidentais u é u, a é a, i é ie é e e o é o.

A norma revisada também estabelece a romanização das mudanças sonoras, sendo as mais comuns as que acontecem antes de sons nasais (ㅁ, ㄴ) e antes da minhoquinha . Confiram na tabela abaixo (as partes em amarelo representam as mudanças sonoras):


Assim como em português o "s" facilmente vira "z" antes de sons vozeados, no coreano k, t e p viram ng, n e m, respectivamente, antes de consoantes nasais. Por isso, a famosa terminação -합니다 se transcreve como -hamnida e não como "-hapnida", que seria a transcrição letra a letra.

Mas a mudança sonora mais bisonha para brasileiros, talvez seja o encontro do no final de uma sílaba com o no início da outra. Não apenas um, mas os dois sons, que nada têm de nasal, se nasalizam! Então o nome de um local como 대학로 se transcreve como Daehangno.

____________________________________________________

Resumindo. A romanização da língua coreana é, sim, complicada. Mas existe, sim, uma regra oficial. A regra é, sim, falha. Mas eu acredito que devemos tentar entende-la, e usa-la. Mesmo que não saibamos de todas as regras e exceções, um mínimo de consistência não faz mal a ninguém. Às vezes vejo outros estrangeiros escrevendo artigos sérios sobre coisas importantes, mas transcrevem do jeito que sai na hora. Eu também faço isso algumas vezes, mas os falantes de inglês adoram usar a forma antiga, que só faz sentido para eles, e mais ninguém. Aí o leitor tem que tentar adivinhar a qual palavra exatamente ele se refere. Se o texto está num blogue ou algo informal, vá lá. Mas jornal e texto acadêmico, pra mim, não tem desculpa. E, poxa, se tem uma norma oficial, vamos tentar aprende-la né. Não custa.

Ilhas Oryukdo, Busan

Mais imagens dos nossos passeios pela Coreia mês passado. De trás pra frente, este vídeo foi gravado no dia anterior à ida para Geoje-do, ainda em Busan. Pegamos um barco na praia Haeundae que passa em frente à ponte Gwangan e dá uma volta nas ilhas Oryukdo (ou "ilhas cinco-seis").

Reparem a trilha sonora do passeio, que maravilha. Então pra combinar escolhi uma música coreana que agrada aos mesmos fãs... Não sei se classifico o estilo como trot (트로트), Kpop do Kim Jong-il ou Roberta Miranda coreana.


Depois desse vídeo, chega de barco e mar né? Nunca navegamos tanto na vida. Meu pai até passou um pouco mal, de tanto balanço de barco pra todo lado. Mais tarde, em Seul, só ouvi um uníssono "nããããoooo!" quando sugeri fazermos o cruzeiro pelo rio Han... :)

Com a família em Oedo, sul da Coreia

Eu tô vivo! Não, o abandono do blogue não foi intencional, mas também não vou ficar me explicando muito. Vamos ao que interessa, que é mostrar mais um pedacinho da Coreia pra vocês.

Como os leitores já sabem, minha família veio me visitar em agosto. E eu não podia estar mais feliz, claro! Vieram meus pais, desse Brasilzão, do interior de Minas, falando um inglês da linguagem de sinais nos aeroportos. Veio também minha irmã, que mora na Inglaterra, fazendo surpresa pros meus pais, e que passou pelo calor de 50 graus de Doha antes de chegar aqui. E no fim deu tudo certo.

Viajamos de norte a sul na metade desta península que fica abaixo do paralelo 38. Andamos em Seul "até as escadas rolantes das estações do metrô afundarem", como disse meu pai. E sempre na companhia de gente muito boa, como os que citei na postagem anterior, e outros personagens que fizeram essa viagem inesquecível para todos. Minha mãe já tá até pensando em voltar, de tão bem que foi tratada pelos coreanos e brasileiros residentes aqui! :)

Eu queria poder falar de tudo o que vivemos nesses dias tão curtos, mas tem coisa que só tem graça pra gente mesmo. As piadas e risaiadas das bobagens nossas só a gente que ri mesmo.

Pra vocês eu concedo algumas cenas, pouco a pouco. Eu gravei um DVD para os papitos levarem pra casa, juntando as cenas que gravamos aqui. As que eu achar que podem ser interessantes pra turma, vou postar aqui. Como nossa viagem à ilha Geoje-do, a segunda maior da Coreia. Lá tem uma ilhota-satélite que se chama Oedo, onde foi cultivado um jardim muito bonito desde os anos 60 e hoje é um belo destino turístico. No caminho, o barco deu uma paradinha em Haegeumgang, outra ilhota famosa pelo seu paredão de pedra que a rasga ao meio e permite que os barcos entrem até não caberem mais.

Aí vão algumas cenas da família Teixeira se aventurando em Haegeumgang e Oedo.


Dica: É possível chegar a Geoje-do de carro ou ônibus, pois tem uma ponte que liga a ilha à península, mas a estrada é muito tortuosa (dependendo de onde você vem), o que faz com que a viagem demore muito. O caminho que tomamos foi bem conveniente. Fomos até Busan (onde nos hospedamos na casa da Eun Bee) e de lá pegamos um barco até Geoje-do. Custou apenas ₩20,000 e demorou apenas 50 minutos. O porto fica muito perto da estação de trem de Busan, portanto um táxi de um até o outro custa mixaria.

Depois vou selecionar algum outro vídeo bacaninha e dar mais dicas aos turistas de plantão.

Abraços! 안녕히 계세요!

LMB e os rios da Coreia

Toda semana sai algum artigo no Hankyoreh (um jornal claramente de oposição ao governo de Lee Myung-bak) sobre o "Projeto de Restauração dos Quatro Rios". O que eu acho estranho é que nenhum outro jornal coreano fala tanto do tal projeto, e o Hankyoreh não explica o porquê da oposição. Só vejo editoriais com títulos como "O governo deve parar as obras nos quatro rios imediatamente!" ou "Lee Myung-bak não ouve o povo e segue com as obras nos quatro rios".

Imparcialidade passa longe nos jornais daqui. E eu, mesmo tendo várias críticas ao governo de LMB, gostaria de ver os dados do governo e as críticas, para fazer meu próprio julgamento. Parece que a maior crítica é em relação ao processo de licitação, que acabou por beneficiar empreiteiras que apoiaram a campanha do atual presidente. Se for isso, realmente tem que parar e fazer a coisa certa. O problema é que o Hankyoreh coloca a coisa de tal forma que parece que a obra é totalmente desnecessária, e que não tem cabimento nenhum.

Mas como eu não tenho conhecimento técnico sobre o assunto, vou falar de outro exemplo de obra que enfrentou oposição igualmente feroz: a restauração do Cheonggyecheon. E adivinha quem era prefeito de Seul na época? O próprio Lee Myung-bak!

O Cheonggyecheon passou por um profundo processo de deterioração ao longo dos anos, chegando até a ser tampado completamente, continuando a ser poluído longe dos olhos da população. LMB levou adiante então o projeto, que previa a remoção de grande parte do trânsito e comércio da região, a abertura e despoluição completa do rio.

As críticas diziam que o projeto era caro demais e que muitas pessoas perderiam seus empregos. LMB foi contra a opinião pública e levou a cabo o projeto, que hoje é ponto de parada obrigatória para o turista em Seul e motivo de orgulho para os sul-coreanos.

E engraçado é que aqui na Coreia as divisões em esquerda e direita política são meio diferentes de outros países. A direita fica com o discurso duro na política externa ao mesmo tempo em que abraça a bandeira ambiental (meio que Bush pra fora e Obama pra dentro), enquanto a esquerda fala vagamente de movimentos sociais e se opõe a projetos ambientais, sem apresentar alternativas.

Sabe qual vai ser o resultado? LMB vai tapar os ouvidos para os protestos, vai levar o tal projeto dos quatro grandes rios até o fim, e no final das contas o povo vai esquecer que odiava tanto o presidente e vai se orgulhar dos rios sul-coreanos com um sentimento nacionalista. E se LMB acabar por se suicidar, eles vão chorar e dizer que foi um dos maiores líderes que a Coreia já teve.

•            •            •             •             •

Abaixo algumas fotos do Cheonggyecheon ao longo dos anos.

Antes 
(fotos daqui)

Cheonggyechon em 1965
1965
1965
1967, quando começaram as obras para tampar o rio.
1967


Depois 
(fotos daqui)





Where the streets "had" no name


Esta é a rua Cheongmyeongnam, que fica aqui no meu bairro. Não venham me falar que o nome é grande e complicado, principalmente se você mora numa rua que se chama "Joaquim José da Silva Xavier" ou "Nossa Senhora da Boa Viagem das Filhas Franciscanas."

O problema é que se você chegar aqui em Suwon e perguntar para alguém onde fica a rua Cheongmyeongnam, ninguém vai saber onde fica. Nem mesmo os taxistas. Nem mesmo quem mora no meu bairro. Nem mesmo quem mora na própria rua!

"Como assim? As pessoas aí na Coreia não sabem seu próprio endereço?" Claro que sabem. Se até bêbado chega em casa carregado por taxista, é porque endereço eles têm. Eles só usam um sistema diferente. Vi uma vez este vídeo no Youtube, em que alguém explica o sistema de endereços no Japão. Muito interessante, mas como está em inglês, vou resumir: no Japão, as ruas não têm nomes, mas sim as quadras. Na verdade elas têm números, dentro de cada distrito. A Coreia, não sei se tradicionalmente ou se por ter sido colonizada pelos japoneses, adotou o mesmo sistema.

Mas como nem sempre existe uma placa indicando e as pessoas não memorizam os números das quadras, o sistema mais usado mesmo é o de referências. Quer explicar para alguém onde você mora na Coreia? Então torça para ter algum ponto de referência bem próximo (um supermercado, uma escola, uma praça, etc). Até mesmo os pontos de ônibus têm nomes de pontos de referência, como "parada do E-Mart" ou "parada da Farmácia Chulsoo." O sistema oficial fica mais para uso dos Correios.

"Peraí. Se as ruas não têm nomes, como é que você iniciou a postagem falando do nome de uma rua do seu bairro?" Aí é que começa a confusão. O governo sul-coreano, com o objetivo de internacionalizar (leia-se "ocidentalizar") o sistema de endereços da Coreia, estabeleceu que todas as avenidas, ruas e ruelas devem ter nomes. As quadras continuam tendo números, mas seguem a numeração da rua.

O sistema é até interessante, porque se você está andando numa rua muito comprida, pelo número dá pra saber se você já está na quadra certa ou se ainda faltam duas ou três quadras.

Porém... nenhum coreano usa o sistema novo! Nenhum mesmo. Nem mesmo o sistema de GPS, que os taxistas tanto usam, consegue encontrar algum endereço digitado no novo sistema. O resultado é que as ruas agora têm nomes, mas só "para inglês ver," literalmente.

À esquerda o endereço antigo e à direita o ignorado endereço novo.
Achei a mudança desnecessária. No início a gente estranha, mas depois encontra qualquer lugar sem problemas e nem se lembra mais que antes precisava tanto saber os nomes das ruas. De qualquer maneira, ainda que agora oficialmente as ruas tenham nomes, para mim a Coreia ainda se enquadra na famosa música do U2, "Where the streets have no name" (Onde as ruas não têm nome).

Alienação política dos jovens sul-coreanos

Já faz algum tempo que tenho observado o comportamento dos jovens coreanos em relação à política. Não demorou muito pra eu notar que o presidente Lee Myung-bak (LMB) não é muito querido por aqui. O que eu mais ouvia dos estudantes com quem eu conversava era: "eu não gosto do nosso presidente." Ao que eu sempre perguntava: "mas em quem você votou pra presidente?" O coreano dava aquela risadinha sem graça e confirmava que tinha votado no presidente que ele agora odeia.

Até aí tudo bem, porque em 2002 no Brasil parecia que ninguém nunca tinha votado no FHC, que ganhou não uma, mas duas eleições no primeiro turno, façanha que nem o Lula superpop conseguiu. O que mais me surpreendia ao tentar entender o porquê dos jovens coreanos terem votado num cara que não os representa era a justificativa que ouvi muitas vezes: "votei no LMB porque meu pai/minha mãe mandou."

Desde então comecei a ter uma dimensão da situação por aqui. Numa sociedade tão confucionista, já era de se esperar que os jovens não participassem muito, afinal quem tem que tomar decisões são os mais velhos. Não que não haja candidatos jovens por aqui, mas a impressão que tenho é que eles não podem vender uma imagem muito revolucionária, invertendo valores culturais, senão não são eleitos.

Depois de amanhã haverá eleições na Coreia do Sul. São eleições locais (províncias e municípios) e cada coreano precisa escolher 8 candidatos em quem votar. Governador, prefeito, representantes da província, do distrito, e - para minha surpresa - até o secretário de educação da província. São muitas escolhas pra se fazer, e eu esperava que a essa altura haveria uma grande mobilização na sociedade.

Que nada. Como o voto não é obrigatório, só se envolve mesmo quem quer, e os jovens parecem não querer muito. De acordo com a pesquisa Data-Henrique, que fez a mesma pergunta a uma porção de amigos, nenhum jovem coreano tinha o nome do seu candidato na ponta da língua, e a maioria disse que nem sabe se vai votar. Pior: muitos nem sabem os nomes das opções que têm!

E a gente que já acha os brasileiros despolitizados, hein? Apesar de não concordar com vários pontos da legislação eleitoral brasileira (inclusive o voto obrigatório), a impressão que eu tenho é que somos obrigados a nos envolvermos de alguma forma. Porque ainda que você não tenha um candidato que ame, sempre tem um que você odeia e que você não consegue imaginar como seu representante, por isso acaba apoiando um opositor.

Lembro também que, aos 16 anos, meus amigos e eu estávamos ansiosos pra votar pela primeira vez. Eu escrevia no jornal dos estudantes do meu colégio, criticava candidatos a vereador e prefeito, analisava o que eles propunham, etc. E isso numa cidade de 49 mil habitantes do interior de Minas!

Mas a mídia sempre me fez pensar que nos países desenvolvidos a consciência política era mais ampla, e que as pessoas se envolviam mais no processo de escolha dos seus representantes. Aqui na Coreia, pelo menos entre os jovens, posso dizer com segurança que não é assim. Até mesmo nos protestos nas ruas da Coreia, quando tem algum. Repare nas fotos que publicam nos jornais: é ajoshi e ajumma pra todo lado. A meninada de 19, 20 anos fica longe dessas coisas, são muito alienados.

Protesto contra o regime de Kim Jong-il
Protesto contra a importação de carne dos EUA
Protesto a favor do direito de tirar a roupa em público ^_^
Tá vendo? Quem comanda este país são os ajoshis, meus amigos. Se você vir um jovem agindo ativamente, é provável que esteja seguindo ordens superiores.

Agora, olhando o outro lado da moeda. Semana passada, quando fui ao supermercado, vi um "mini-comício" de um candidato a prefeito de Suwon. Não encontrei outra palavra para descrevê-lo que não fosse patético. Pelo amor de Deus. O cara contrata um bando de marionetes pra fazer movimentos repetidos e cantar umas musiquinhas. Entre o palanque e o povo devia ter um vazio de uns 30 metros. Ninguém chegava perto, ninguém fazia perguntas, ninguém aplaudia (além dos contratados para fazer isso) e ninguém vaiava. Um desinteresse total. Mas com esse showzinho de quinta série fica difícil levar esses caras a sério.

Termino o post com um pouco que gravei do "mini-comício" do tal candidato:


A infantilidade dos movimentos coreografados parece um pouco com a campanha para eleições estudantis. Lembra?

Ajoshis e ajummas espremidos entre duas gerações

Logo depois da Guerra da Coreia (1950-53) houve um boom na taxa de natalidade na Coreia do Sul. Só a galera que nasceu entre 1955 e 1963 corresponde a quase 15% da população sul-coreana hoje. Proporcionalmente isso é muita gente! E essa geração foi e ainda é um dos principais pilares da economia do país.

No entanto, neste ano a primeira leva dessa geração começa a se aposentar, e isso é preocupante. Esses coreanos que praticamente reconstruíram seu país com as próprias mãos não receberam muita ajuda - financeira e educacional - de seus pais. E hoje eles têm que arcar com os altos custos de educação de seus filhos e sustentar seus próprios pais.

Ou seja: eles estão espremidos entre a geração anterior, que não teve melhores oportunidades de trabalho e educação, e a geração posterior, que demanda investimentos maiores e durante mais tempo para entrar nesse ultracompetetitivo mercado de trabalho.


O que vai ser da Coreia do Sul quando toda essa turma se aposentar? Meu palpite é que muitos vão acabar continuando a trabalhar informalmente. Mas um dado do The Korea Times (que, aliás, foi de onde eu tirei esse assunto) me espantou: 7% desse pessoal diz ter considerado o suicídio, tamanha é a pressão financeira que sofrem por causa dos seus pais e filhos.

E o pior é que as perspectivas são de que essa seja a última geração a sustentar seus pais, um costume tradicional na Coreia e que vai ter que ser repensado por motivos econômicos. Os jovens de hoje são os que mais recebem ajuda dos seus pais e os que menos poderão ajudá-los.

Mas por que é que esse assunto interessaria a um brasileiro? Se você der uma olhadinha nos movimentos demográficos do nosso país, vai notar que a Coreia está passando agora pelo mesmo que vamos passar logo mais. Com alguns agravantes: um rombo na previdência já existente e níveis educacionais da população entre 18 e 30 anos incoparavalmente menores que os sul-coreanos.

Precisamos ficar de olho pra ver como a turma daqui vai resolver esse problema, então a gente aumenta a escala, faz uma fórmula mágica e vê se a minha geração vai conseguir se aposentar tranquilamente.

Por que é que as Coreias não acabam com essa palhaçada?

Se você já parou para pensar alguma vez na vida sobre um lugar muito, muito distante que se chama Coreia, é provável que tenha se perguntado por que essa nação são dois, e não um, país, como antes. E se esse assunto te interessa mesmo, você já deve ter dado uma googladinha básica e encontrado a resposta. Por isso não vou ficar aqui repetindo a mesma história de sempre.

A minha pergunta é: por que é tão difícil assim um único povo se entender e viver em paz?
O que a mídia vai sempre dizer é o mesmo que sempre disse: a Coreia do Norte e seu regime de amalucados não dão brecha para uma conversa civilizada. O resultado é o que já sabemos: uma zona desmilitarizada, famílias separadas, ninguém sobe e ninguém desce (ou quase ninguém), e um estado técnico de guerra, sem tratado de paz assinado.

No entanto, na semana passada uma nova informação me fez enxergar as causas de tal estado por uma nova perspectiva. Eu já falei aqui antes que, na Coreia do Sul, praticamente todos os mapas do país que vemos nas escolas não mostram as duas Coreias como dois países diferentes. Na maioria esmagadora das vezes o mapa mostra a península coreana toda com, no máximo, uma linhazinha fininha e pontilhada mostrando a divisão, e os dizeres "Mapa do Nosso País", como este logo abaixo:


A minha reação ao ver mapas assim quando cheguei à Coreia era sempre positiva. "Nossa, que bonito! Eles ensinam às crianças na escola que eles são um só povo, com uma só história..." Uma atitude bacana do governo sul-coreano, não?

Mas a nova informação que mudou minha maneira de pensar surgiu numa aula, sexta-feira passada. O Prof. Kwak fez uma breve menção a uma cláusula pétrea da Constituição da Coreia do Sul, que diz que o território da República da Coreia (i.e. Coreia do Sul) se estende até o ponto mais ao norte da península coreana. Ou seja: o governo norte-coreano não é legítimo e são uma cambada de invasores que estão controlando a parte norte da península. Algo como as FARC na Colômbia, só que maiores e mais organizados.

Qual é o impacto dessa breve parte da Constituição da Coreia do Sul? Simples: eles jamais poderão assinar um tratado de paz, a menos que reunam uma Assembleia e decidam desistir do território do norte, o que é muito improvável.

Até agora a Coreia do Sul ainda não reconheceu o governo norte-coreano como legítimo (e vice-versa). O pouco progresso que obtiveram foi por pressão da ONU. Os países só integraram à ONU, por exemplo, em 1991, simultaneamente, porque nenhum dos dois aceitaria que o outro entrasse para representar o "povo coreano".

Uma outra consequência desse pequeno trecho da Constituição é que a Coreia do Sul tem administradores designados para cada província na Coreia do Norte. É mole? Os bichos nem podem atravessar a fronteira, mas já estão prontinhos para administrar um território em que não têm jurisdição!

Agora, me digam aí, por mais que Kim Jong-il seja surtado, o que você faria no lugar dele se soubesse que o governo do sul tem tudo engatilhado para tomar conta do seu território? Não importa o quanto os americanos e sul-coreanos pareçam querer negociar, o problema está na lei daqui.

A meu ver, a reunificação pacífica hoje é impossível. Pelo menos assim, de uma vez. A melhor maneira seria os dois países reconhecerem um ao outro como países com governos legítimos, ainda que com ideologias diferentes, e começarem a se abrir aos poucos. E depois de muito tempo de amizade, aí sim, conversa de reunifição pode voltar a fazer sentido.

Enquanto isso a gente vai vivendo nessa maravilhosa tranquilidade sul-coreana, que faz a gente até esquecer dos milhares de mísseis apontando pra nossa cabeça.