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Coreanices

Quer brincar de mal-ttuk-bak-ki com coreano?

Este país nunca me decepciona. Quando eu acho que já vi de tudo, me aparece uma coisa bizarra, que jamais passou pela minha cabeça, e pergunto pra um amigo coreano, esperando que ele diga que aquilo é estranho até pra ele, mas ele ri e diz "Estranho nada! Todo mundo faz isso! É super divertido!"

A novidade (para mim) foi quando um amigo postou essa foto no Facebook:

Estátuas de crianças brincando (?) em algum lugar em Seul 
Estátuas de crianças brincando (?) em algum lugar em Seul



Você se pergunta: que #&*@ é essa? Um estrangeiro que tá passeando por Seul e vê isso, pensa o quê? Cinco crianças com suas cabeças enfiadas na região anal (ou genital, no caso da primeira) dos amiguinhos, e a última ainda com direito ao cofrinho exposto. Podem culpar um estrangeiro e dizer que ele é que tem a mente poluída?

Trata-se de uma brincadeira de criança (que muito marmanjo faz também). Bem nos moldes do ttong-chim, sobre o qual já escrevi no blogue antigo, hás quase três anos. O ttong-chim (똥침) é uma brincadeira que não tem graça para estrangeiro, mas que coreano acha super divertido. Consiste basicamente em pegar o amiguinho desprevenido e tirar-lhe a virgindade anal (se já foi tirada) com os dedos.

Esse aqui, não. Em vez do dedo, você mete a cabeça no fiofó alheio. O jogo se chama "mal-ttuk-bak-ki" (말뚝박기), e as regras são: uma pessoa fica em pé, e o restante, metade fica agachada e encaixada, como na foto acima, e a outra metade tem que pegar embalo e saltar em cima dos coitados que já estão perfumando suas cabecinhas. No final, quem tá em cima tem que jogar "kawi-bawi-bo" (가위바위보, o famoso "pedra-papel-tesoura") com a pessoa que tá em pé. Se perder, fica do lado de baixo na próxima rodada.

Depois disso eu não sei. A verdade é que esse jogo não tem muito propósito, a não ser fazer quem tá assistindo rir. Para entender melhor veja os vídeos abaixo:


E a prova de que os coreanos já estão exportando a brincadeira para outros países:


E para as meninas que acham os meninos coreanos super gentis e delicados, como nas novelas, vejam como eles pegam leve quando são as meninas que estão por baixo:

Tira-calçado-põe-calçado-tira-calçado...

Encontrei há um tempo um blogue chamado My Korean Husband. É de uma estrangeira (australiana, acho) que se casou com um coreano. Ela conta histórias bem-humoradas sobre as peculiaridades da vida matrimonial entre um coreano e uma "ocidental", e sempre ilustra as histórias com desenhos que ela mesma faz.

Resolvi postar a tirinha abaixo porque não tem a ver necessariamente com a vida de casada dela, mas com a vida de todos nós, não-orientais, que vivemos aqui. Mais especificamente, é sobre essa história de ter que tirar o calçado em quase todo lugar. Quem nasce aqui e faz isso desde que se entende por gente, acaba desenvolvendo técnicas mais ágeis para tirar e calçar os sapatos. Mas pra mim (e muitos outros) é uma tristeza. Numa turma de amigos saindo do restaurante, por exemplo, os coreanos já saem encaixando o tênis, sapato, sandalha, etc. na maior facilidade. Eu tenho que me sentar pra colocar bonitinho, amarrar e tudo.

O segredo é que eles nunca amarram o tênis apertado, deixam sempre frouxo - o que eu não consigo fazer, especialmente nesse frio congelante desses dias. Bom mesmo vai ser quando inventarem um tênis estilo Iron Man pra eu calçar sem esforço.
MyKoreanHusband

Dokdo é terra coreana!

Quer um assunto sensível para discutir com um coreano? Fale sobre Dokdo. Quer que a conversa dê pano pra manga, fale sobre Takeshima. As duas palavras se referem à mesma coisa: duas ilhotas pedregosas que ficam no Mar do Japão ("Mar do Leste", para os coreanos) e que são disputadas entre a Coreia do Sul e o Japão. Cada país tem seus argumentos históricos quanto à nacionalidade das ilhas, mas isso não vem ao caso aqui. A ocupação de facto é sul-coreana (com uma população enorme: dois habitantes), e acho que devia mesmo ficar mesmo com os coreanos. Só que o pessoal aqui faz tanto barulho por causa dessa briga, que só resta aos estrangeiros se divertirem.


E nos divertimos mesmo! Os coreanos acreditam estar fazendo uma campanha extraordinária para comover as comunidade internacional, e eu fico me perguntando: num mundo onde ainda temos uma Palestina sem território soberano, que tipo de apoio internacional eles querem para esfregar na cara dos japoneses que Dokdo é Dokdo, e não Takeshima? Ativistas nus protestando em Tóquio contra a o terror da pressão japonesa?

A grandiosa Dokdo. Ou seria Takeshima? 
A grandiosa Dokdo. Ou seria Takeshima? (foto)

Implicações políticas à parte, o bom dessa história toda é uma musiquinha que ensinam pras crianças coreanas aqui, chamada "Dokdo-neun uri ddang" (독도는 우리 땅), que significa "Dokdo é terra coreana". A explicação lógica para dizer que Dokdo pertence à Coreia é fantástica: "O Havaí é americano, Daemado é japonês"... consequentemente, Dokdo é da Coreia. Tão simples! Não sei como esses japoneses não entendem isso...

Aqui vai a música original em coreano:


Mas o melhor MESMO é a campanha que fizeram para traduzir a música para diversas línguas. Eles pegaram alunos estrangeiros na Coreia, devem ter dado alguns trocados ou pagado um samgyeopsal, e zás! Temos a maravilhosa tradução dessa belíssima composição coreana até em português! Desativaram a opção de classificar no vídeo no YouTube (não faço ideia do porquê!), mas aqui posto a versão à la Latino de 독도는 우리 땅! Fica a dica para a Argentina quando quiser apoio internacional na questão das Malvinas. :)

A polícia coreana

Não sei explicar o desânimo que dá ao ler as notícias sobre a onda de violência no Brasil. Não adianta dizerem que os bandidos estão revidando porque a polícia tá prendendo geral, porque esse é o argumento desde 2006 (que eu me lembre). Parece que fica cada vez mais evidente que crescimento econômico nos moldes que desenvolvemos não é o suficiente para tirar as pessoas da criminalidade.

Aqui na Coreia a história é bem diferente. Não dá pra comparar: o país é praticamente uma ilha, pois pela fronteira entre as duas Coreias não passa nem passarinho. Eles não têm uma fronteira de 15.700km para vigiar a entrada de armas e drogas. A polícia deles nem é lá grandes coisas. Eles não apostam em grandes delegacias em grandes regiões, mas sim pequenos postos policias em pequenas regiões, com o mínimo de equipamentos. Como o índice de criminalidade é relativamente baixo e o posto policial com certeza está próximo, se você liga para a polícia eles chegam muito rápido. Eu sei porque já fui roubado aqui e contei no De Prosa do endereço anterior. Não demorou 5 minutos para chegarem.

 
Posto policial em Myeongdong: um carro, uma motoca, e meia dúzia de policiais, responsáveis por uma pequena área. Pra quê mais?

Não sou especialista em segurança pública, mas como todo mundo, dou meus pitacos. Polícia, pra funcionar bem, não precisa de grandes delegacias para mostrarem seu poder. Ela tem é que ser útil e rápida num raio pequeno, onde as pessoas sabem que podem contar com ela. Essa história de motoqueiro que atira e foge, se você tem pequenos postos espalhados num mesmo bairro, fica mais fácil pegar o bandido.

Já no caso de grandes operações, a polícia coreana é eficiente no melhor estilo Lee Myung-bak. Sua "tropa de elite" é bem treinada, mas enche o saco sempre que o povo quer protestar. Esse vídeo mostra um treinamento deles. Acreditem, os coreanos raramente ficam tão violentos que seja necessário o uso da força, por isso essa tropa é vista como um exagero de um governo que coíbe protestos. E no caso de operações mirabolantes, tem um vídeo antigo ainda rodando na internet com uma cena do que dizem ser a polícia coreana tentando entrar num prédio por cima...

E daqui sigo lamentando a situação do nosso Brasilzão, torcendo para que as coisas melhorem de verdade.

Desespero pra casar os patinhos

Patinhos de madeira

Não, não sou eu o desesperado. Mas de repente nada menos do que SEIS dos meus amigos coreanos marcaram casamento! Desses, quatro têm menos de 30. Bom, cada um casa quando e se quiser, mas essa onda de amigos se casando me deixou pensando sobre os porquês. Aqui vão alguns palpites: 1) pressão dos pais e 2) medo de ficar pra titio(a).

Tudo gira em torno disso. Felizmente, muitos pais já não fazem tamanha pressão nos filhos, mas uma amiga coreana que se casou no ano passado me contou que a mãe dela (que tem duas filhas) prometeu dar um carro pra filha que se casasse primeiro! Minha amiga ganhou a disputa, mas descobriu que o carro era um blefe. As mulheres sofrem pressão para se casarem com um homem bem sucedido, mas talvez também para se casarem antes dos 30. Os homens não sofrem tanto a pressão da idade, até porque perdem 2 anos no exército, mas se o cara for o primogênito do primogênito... a coisa complica. Conheço um nessa situação. Ser o primeiro filho do primeiro filho do primeiro filho (elevado a 1000) significa que o cara é a "espinha dorsal" da família. Ele não pode se casar com qualquer uma. Se você não é estrangeira e tá apaixonada por um coreano, verifique se ele não é o primogênito do primogênito, porque o sangue ali não pode misturar, colega.

Contudo, como a sociedade coreana vem mudando, muitos pais estão relaxando um pouco. Mas a autopressão continua! Não vou comparar com os brasileiros, porque conheço muitos desesperados para juntar as trouxas, mas não vejo tamanha pressa pra se casar entre os europeus que conheço, por exemplo. O que diferencia o coreano do brasileiro é que aqui na Coreia eu vejo mais homens do que mulheres com pressa pra casar. O medo deles é não conseguir encontrar a mais bonita e mais prendada. Já elas, como fogem da pressão, parecem se importar um pouco menos.

O resultado é que temos na Coreia atual uma mistura entre a cultura tradicional, em que o casamento é tratado como um mero acordo entre as partes, e a cultura ocidentalizada e romantizada, em que as pessoas buscam a tampa da sua panela. Minha professora de coreano (de 2008) acabou se casando por encomenda, porque disse que não "aparecia" nenhum namorado. A solução foi entregar nas mãos dos pais, que procuram outros pais que queiram uma esposa para o filho. E pronto. Uma versão mais industrial disso são os sites de "match-making", em que os "currículos" são analisados e a pessoa aparece num ranking, de acordo com a beleza, emprego, salário, região onde mora, etc.

Um fator que dificulta uma mudança de cultura na Coreia é a timidez do pessoal. Coreano raramente começa a namorar com alguém que conhece por acaso num lugar aleatório. Geralmente eles fazem encontros às cegas que um amigo arranjou. Se gostar, marca outro, se não, despacha logo. Acharam que o Sílvio Santos tinha tirado aquele programa da cabeça dele?

Você deve ter se perguntado o porquê da foto dos patinhos de madeira acima. Bom, se não perguntou, vou responder assim mesmo. Os patos de madeira são usados no casamento tradicional coreano. Dizem que simbolizam a fidelidade do casal, porque inventaram uma de que o pato só tem uma pata a vida toda, e vice-versa. A versão brasileira devia ser de araras de madeira, porque essas sim são fieis.