Eu me lembro bem de quando me alistei no serviço militar no Brasil, aos 18 anos. Morando no interior de Minas, a opção era apenas o "Tiro de Guerra", que para mim não tinha apelo nenhum. Nem se fosse um exército "de verdade" teria algum apelo, mas o fato é que consegui escapar dessa perda de tempo -- para mim, claro. Respeito e admiro os que servem com gosto, trabalham na seguranças das fronteiras, em ajuda humanitária e em missões multilaterais internacionais. Mas não era para mim, e o pequeno contingente brasileiro, relativo à população do Brasil, me ajudou a pular fora dessa.


Agora, imagine um jovem sul-coreano que também não queira prestar o serviço militar. Aqui, colega, não tem desculpa. Óbvio, casos extremos de problemas de saúde dispensam o sujeito, mas em regra, ninguém escapa desse destino. O tempo de serviço já foi de três anos, caiu para dois, e no momento me parece que, somando tudo dá um pouco menos de dois anos (porque tem umas férias no meio). Só que no vizinho do Norte o período de serviço é de DEZ anos, por isso conseguem ter um dos maiores exércitos do mundo, em número de tropas.

Porém, o que me dá pena ao ver a meninada aqui partindo para essa aventura, é que isso geralmente acontece não antes, nem depois, da faculdade, mas no meio. Isso mesmo. Eles entram na universidade, fazem um ou dois semestres, trancam, param a vida por dois anos, e depois voltam, totalmente diferentes. Mais maduros, talvez. Mais fortinhos, com certeza, porque antes de servirem, a maioria é magra feito Olívia Palito.
Soldados sul-coreanos treinando durante o inverno
Nesse final de ano me partiu o coração ver alguns dos meus melhores alunos dizer "até daqui a dois anos, professor!". Eles estavam estudando português muito yolshimi (pra caramba!), empolgados com o curso, curtindo a vida universitária com as namoradas, e de repente o Tio Sam sul-coreano (Tio Park?) convoca os caras. Quando voltam, muitos precisam refazer algumas matérias, porque já perderam o ritmo.

E... se o rapaz se recusar a servir? Bom, todo ano cerca de mil jovens sul-coreanos vão contra o sistema, por motivos religiosos, filosóficos ou qualquer outra coisa, e não prestam o serviço militar. A consequência é ficar com a ficha queimada pelo resto da vida, taxado de covarde, e ainda permanecer preso durante o período em que deveria servir.

Essa é parte do (alto) preço que a Coreia do Sul paga pelo seu desenvolvimento e estabilidade econômica. Gerações militarizadas de tal forma, e com um inimigo tão próximo, que é difícil para um brasileiro entender. E esse aspecto é melhor que nunca entendamos mesmo.

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Abaixo, um vídeo da Al Jazeera (desculpa, em inglês) sobre os jovens que não prestam o serviço militar na Coreia do Sul: