O site NK News tem uma seção chamada "Ask a North Korean" (Pergunte a um Norte-Coreano), na qual desertores norte-coreanos que conseguiram chegar à Coreia do Sul respondem algumas das perguntas enviadas pelos leitores. Como o material está todo em inglês, achei que seria interessante traduzir alguns dos artigos do site, para os que se interessam pelo assunto mas ainda não dominam nem o coreano nem o inglês. O artigo original é este aqui.

Pergunta: O que os norte-coreanos pensam sobre os sul-coreanos? A propaganda do governo da Coreia do Norte realmente influencia em como as pessoas vêem a Coreia do Sul?

Jae-young: Os que vivem próximos da fronteira com a China sabem muito sobre a Coreia do Sul. Informação sobre a Coreia do Sul entra no país com os produtos, vídeos e rádios chineses que são contrabandeados para a Coreia do Norte. Muitos programas da TV sul-coreana também são pirateados e surpreendem os norte-coreanos que os obtêm e os assistem escondidos. No entanto, na maioria das regiões longe da fronteira, as pessoas não sabem muito sobre a Coreia do Sul. Um norte-coreano que se ficou meu amigo durante nossa fuga da Coreia do Norte me contou que um amigo dele só chegou a saber mais sobre a Coreia do Sul depois de chegar à China. As pessoas na maior parte do interior não têm muito acesso a transporte e comunicação, e recebem a "educação ideológica" através da TV estatal, que é a ferramenta de propaganda do governo. Portanto, informação sobre a Coreia do Sul é escassa, mesmo no boca-a-boca.

Eu estava no ensino médio quando fui exposta pela primeira vez a notícias sobre a Coreia do Sul. Eu fui visitar a casa do meu tio, onde pude assistir uma novela da TV sul-coreana chamada "Staircase to Heaven" (천국의 계단). Foi a primeira vez na minha vida em que eu vi uma novela sul-coreana, e fiquei muito surpresa. Pude sentir pela primeira vez como os sul-coreanos vivem muito melhor do que a gente. Foi chocante ver que jovens sul-coreanos, que pareciam ter mais ou menos a mesma idade que eu, tinham um estilo de vida completamente diferente. A aparência sofisticada das ruas da cidade, os atores e as atrizes da novela eram o suficiente para me empolgar. Eu fiquei tão triste pela morte da mocinha na novela que tive um leve caso de depressão por três dias, e meu coração batia mais rápido sempre que eu via o ator que fazia o personagem principal. Nunca me esqueço daqueles sentimentos estranhos, a empolgação e o medo da possibilidade de ser pega. Foi uma experiência tão inesquecível que eu procurei por aquela mesma novela assim que cheguei na Coreia do Sul, mesmo sendo tudo parte agora de uma das minhas memórias distantes.

A novela "Staircase to Heaven" (2003) foi o primeiro contato de Jae-young com a cultura sul-coreana
Aquela primeira experiência abriu os meus olhos para a Coreia do Sul e aguçou minha curiosidade. Comecei a ouvir estações de rádios sul-coreanas. Eu conseguia pegar sinal de rádios da Coreia do Sul e da China onde eu morava. Meus pais tentavam de tudo para me fazer parar com aquilo, por medo de que eu fosse pega, mas eu era atraída pela rádio sul-coreana ainda com mais força, como um ímã a um metal, e tudo começou apenas por curiosidade. Eu ainda me lembro claramente que todas as noites, depois das 10 horas, eu tirava o pedacinho de palito de fósforo que ficava enfiado no buraco do rádio para bloquear as rádios estrangeiras, e então as ouvia com o volume bem baixo, enquanto prestava atenção para ver se ninguém estava vindo. A chatice de ter que tirar e colocar o palitinho de novo durante o dia de nenhuma forma apagava a minha curiosidade.

Eu tinha que assegurar a segurança da nossa família quando ouvia a rádio. Todas as luzes tinham que ficar apagadas, todas as cortinas fechadas, e o volume do rádio não podia ficar mais alto que o cochicho de uma formiga. Um latido do cachorro do vizinho já fazia meu coração subir à garganta e meus olhos ficavam arregalados. Situações como que de um filme eram a nossa realidade. Os sons do rádio eram mais claros em dias nublados. Eu estava tão tomada pelos sotaques diferentes do nosso, que eu tentava imitar o sotaque de Seul, tudo em voz baixa, quase inaudível.

O que me chamava a atenção, especialmente naquela época, era o noticiário. Tão diferente do noticiário norte-coreano, o da Coreia do Sul falava sobre eventos que estavam acontecendo em tempo real. Também incluíam notícias sobre comida e remédios que estavam sendo enviados para a Coreia do Norte como ajuda humanitária. Durante um tempo eu fiquei confusa, quando me dei conta de que a Coreia do Sul e os EUA enviavam ajuda para a Coreia do Norte, porque isso era muito diferente do que o governo nos dizia. Eu comecei a questionar quem estava dizendo a verdade. Enquanto isso, eu apenas escrevia as letras de músicas alegres e aprendia a cantá-las. Eram muito simples, e me lembro que até meus pais às vezes cantavam comigo.

Toda semana, o governo da Coreia do Norte conduzia as "Kangyeonhwe" (palestras), que desmereciam e diminuíam a Coreia do Sul. Alguns norte-coreanos até acreditavam nessa propaganda de coração, mas para a maioria, entrava por um ouvido e saía pelo outro. As palestras pintavam o Sul como mau e pobre, mas os norte-coreanos já tinham evidências do contrário através da comida, fertilizantes e remédios que vinham de lá. Por isso, muitos norte-coreanos sabem que a Coreia do Sul é rica, e sentem inveja. No entanto, as duras leis da Coreia do Norte ainda proíbem as pessoas de expressarem suas ideias e sentimentos em relação ao Sul. Eu creio que cada vez mais as informações sobre a Coreia do Sul têm se tornado acessíveis, o que tem mudado a imagem que os norte-coreanos têm, portanto, um crescente sentimento positivo em relação ao Sul parece exceder o negativo. Creio também que esse sentimento positivo para o Sul tem levado mais norte-coreanos a tentarem fugir do país e finalmente chegarem à Coreia do Sul.