Às vezes nos deparamos com aquelas coincidências da vida, que não têm nenhum impacto direto no nosso próprio curso, mas nos faz parar para pensar no sentido dessa coisa toda. Já aconteceu com você? Acontece comigo com uma certa frequência. Amigos meus, pessoas de mundos completamente opostos, que de repente descubro que são também amigos entre si (o Facebook taí pra contar pra gente), desconhecidos que tomaram rumos paralelos na minha vida, e de repente a tangenciam, rimos das coincidências (como é que não nos trombamos antes?) e depois cada um segue para lados diferentes do planeta. Tenho um monte de histórias dessas.



Mas hoje eu fiquei emocionado por "conhecer" uma pessoa que, na verdade, eu nunca conheci. Foi assim. Em 2011 abri um hiato na minha vida coreana e fui me aventurar no Timor-Leste, trabalhando por alguns meses na UNDP de lá. Um dia me enviaram para um trabalho de campo de uma semana no distrito mais distante, um enclave na parte oeste da ilha, chamado Oecusse. Era tudo muito diferente de Díli: quase não se encontrava quem falasse português, e mesmo tétum, a língua mais falada do país. Mas enquanto fazia meu trabalho, saí para conhecer um pouco do distrito. E para minha surpresa, no primeiro dia me deparei com um monumento numa praça, em homenagem a soldados coreanos que haviam morrido ali perto, em 2003. Eles faziam parte do contingente da primeira Missão de Paz da ONU no país, que ajudou a garantir o processo de independência da Indonésia.
Praça em Oecusse. Foto que tirei em 2011.
Monumento em homenagem aos cinco soldados sul-coreanos que morreram lá
Chumobi (추모비): "Pedra Memorial"
Agradecimento aos cinco soldados
Em 2012 eu ainda estava no Timor, mas desta vez, trabalhando na própria missão da ONU (UNMIT). E um certo dia, quando andava com seis colegas portugueses e meu cachorro Ipiranga à margem de um rio de Ainaro, eis que uma tromba d'água cai na nascente e, pegos de surpresa, fomos quase arrastamos pela correnteza do rio, que subiu uns três metros em poucos segundos. Conseguimos subir pelos barrancos, mas alguns dos colegas chegaram a ficar imersos na água, e só sobreviveram porque se agarraram em árvores no meio do rio. O Ipiranga foi levado pela água, e sem dúvida foi um dos momentos mais dramáticos que já vivi.
O rio tranquilo que vimos se transformar em segundos
Pois bem, quando contei a história aos policiais da ONU, todos se lembraram do que aconteceu com os cinco coreanos que morreram em Oecusse. Eles foram arrastados pelo mesmo fenômeno: a avalanche de águas os acertou em cheio enquanto atravessavam um rio de carro. Fiquei com a imagem do monumento dos coreanos na cabeça, pensando que o mesmo poderia ter acontecido comigo.

Terminada a missão no Timor-Leste, agora trabalho como professor na Hankuk University of Foreign Studies, no campus de Yongin, na Coreia. E hoje, andando pelo campus, que fica no meio das montanhas, longe da cidade, encontro um pequeno memorial em homenagem a um dos coreanos que morreu no Timor. Seu nome era Choi Hee (최희), e ele era aluno do departamento onde leciono. Enquanto fazia o serviço militar obrigatório, decidiu se candidatar para a missão no Timor, porque já falava um pouco de português e queria colocar a língua em prática enquanto tinha uma experiência diferente, num país que estava renascendo das cinzas, como foi o caso da Coreia um dia. Conversei com alguns estudantes que conheciam sua história, e descobri blogues de amigos do rapaz que morreu com apenas 24 anos. E o mais bonito: uma estudante me contou que os pais de Choi Hee decidiram usar o dinheiro da poupança que ele tinha, com o seguro de vida que receberam, para doar bolsas de estudo para alunos do mesmo departamento onde seu filho estudava. Em vez de amargura e revolta, eles optaram por ajudar os sonhos de outros jovens a florescerem, já que seu próprio filho se foi tão cedo.
Memorial ao estudante Choi Hee no campus da HUFS de Yongin
Hoje eu senti que conhecia Choi Hee, como se fosse um amigo que fiz no Timor, e reencontrei aqui, mas em tempos paralelos. E agora a história dele, por algum motivo, não sai da minha cabeça. E talvez pelo mesmo motivo estranho, me dá mais vontade ajudar a quem precisa, em vez de ter medo da vida. Afinal, lembrando as palavras do Oscar Niemeyer, num documentário, "a vida é um sopro".

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Ah, e quanto ao Ipiranga, que tinha sido arrastado pelas águas correnteza abaixo... este apareceu na porta de casa, a 15km dali, uma semana depois! :)
Ipiranga passeando pelas ruas de Ainaro, Timor-Leste 
Grande Ipy, fiel companheiro de aventuras!