Primeiro quero me desculpar pelo sumiço. Nos últimos dois meses minha vida mudou, porque comecei a trabalhar como professor na Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros e por isso tive que deixar de lado o blogue e as vídeo-aulas por enquanto. Pelo menos até me acostumar com a nova rotina.


Agora, sobre a Coreia do Norte. Eu não queria falar do que tem acontecido aqui, porque o que tenho tentado fazer é fugir do assunto, correr dos noticiários. Mas não adianta: a prosa tá por todo lado. Os portais de notícias e jornais no Brasil, em geral, tratam muito mal do assunto, e os comentários me embrulham o estômago. Para muitos, parece que a Coreia é apenas um filme, um vídeo-game, e torcem para a guerra estourar pra valer. E não aguento mais os jornalistas sensacionalistas que invadem as redes sociais atrás de brasileiros que moram aqui, torcendo para ter notícia ruim. Quando tem notícia ruim, eles aparecem por toda a parte e querem ver o pânico. Eu, inocente, dou minha entrevista, e noto a decepção do jornalista ao ver que não tem nada diferente. Claro que tem jornalista bom, comprometido com a verdade, mas nesse assunto, quanto mais drama, melhor.

Monumento no Museu da Guerra da Coreia, em Seul, mostrando o mundo dividido e soldados norte e sul-coreanos abraçados
Monumento no Museu da Guerra da Coreia, em Seul, mostrando o mundo dividido e soldados norte e sul-coreanos abraçados
Vamos então ao resumo dessa novela que ainda não terminou:

1) Coreia do Norte faz testes de mísseis balísticos - e leva bronca.

2) Coreia do Norte faz teste nuclear - leva bronca e sanções.

3) EUA e Coreia do Sul começam os exercícios militares anuais perto da fronteira, simulando uma guerra contra a Coreia do Norte - ouvem protesto de Kim Jong-un.

4) Os exercícios continuam e, somados às novas sanções, irritam profundamente Pyongyang.

5) Começa a série de ameaças. Primeiro com o de sempre: "vamos tomar atitudes drásticas, Seul vai virar um mar de fogo", etc.

6) As ameaças não param (nem os exercícios militares no Sul). Pyongyang promete cortar a linha de comunicação militar. Ninguém leva muito a sério.

7) A linha é cortada.

8) Kim Jong-un começa a ameaçar os EUA diretamente, dizendo que podem lançar mísseis nucleares ao Havaí, Guam (território americano no Pacífico) e até mesmo ao continente.

9) A Coreia do Sul se mantém calma, afinal o complexo industrial de Kaesong (uma joint-venture industrial, único símbolo de alguma cooperação entre Norte e Sul) continua operando.

10) Kaesong é fechado, e os sul-coreanos expulsos.

11) A TV estatal norte-coreana dá avisos aos diplomatas em Pyongyang, e depois aos estrangeiros residentes na Coreia do Sul, aconselhando-os a deixarem a península.

12) Dois mísseis Musudan de médio alcance são movidos para a costa leste da Coreia do Norte, onde espera-se que aconteçam testes que já eram previstos.

E cá estamos nós, esperando para ver o que vai acontecer depois que dispararem os mísseis. O Japão já posicionou uma bateria anti-mísseis para abatê-los caso ameace o país. Os EUA também fizeram o mesmo em Guam, onde têm uma base militar.

E você me pergunta: como está a situação por aí? E eu repito o que talvez já tenham lido ou ouvido: a vida sul-coreana segue normalmente, com exceção daqueles que trabalhavam no complexo industrial de Kaesong, e agora estão à espera de uma resolução do problema.

Mas uma coisa é verdade: os sul-coreanos estão mais do que vacinados contra as ameaças da Coreia do Norte. Desta vez, no entanto, percebi uma ligeira preocupação maior, porque nunca fizeram tantas ameaças seguidas, e de conteúdo tão forte. Nunca foram tão sem-noção a ponto de ameaçar atacar o território dos EUA diretamente. E desde a abertura do complexo em Kaesong, nunca o tinham fechado. Portanto é, sim, uma situação um pouco diferente.

E outro fator faz dessa novela algo muito especial: temos caras novas dos quatro lados: na Coreia do Norte um playboy jovem, na Coreia do Sul uma senhora cuja mãe foi morta por espiões do avô do playboy, nos EUA John Kerry em vez de Hillary, e na China Xi Jinping. São jogadores novos num jogo velho, por isso podem estar se testando.

Quais são as perspectivas? Quando se trata de Coreia do Norte com líder novo (novo e jovem!), a bola de cristal entra em pane. Mas vale discutirmos algumas ideias.

Primeiro, o que o Kim Jong-un quer? Simples: um tratado de paz com os EUA que reconheça a Coreia do Norte como potência nuclear - o que Kerry já disse hoje que está fora de questão. KJU não quer negociar com a Coreia do Sul, que é apenas uma "marionete" dos EUA. Ele quer ser tratado de igual para igual pelos EUA, que são considerados por ele como o verdadeiro inimigo.

E por que essa estratégia belicosa e de forte retórica? Essa é a questão mais difícil. Se considerarmos as ameaças passadas, podemos simplesmente dizer que eles querem dinheiro e comida em troca de calarem a boca e pararem com as ameaças. Mas li hipóteses mais interessantes a respeito. Uma delas é que existem rumores de que o tio de Kim Jong-un, um militar de carreira e prestígio no país, e quem o tem guiado desde que subiu ao poder, teria tentado dar um golpe de estado, por acreditar que o sobrinho não é forte o suficiente para manter o controle do país. Indícios disso é que o tio, que antes aparecia ao seu lado em todas as fotos, desapareceu de cena logo antes de começar o show de ameaças, que pode ser voltado para os linhas-duras do governo. Outra hipótese, para mim mais esperançosa e otimista, é a de que o número de reformistas civis no governo norte-coreano tem aumentado, e essa balela toda pode ser uma maneira de manter o povo controlado num momento em que se pode tentar fazer reformas.

Afinal, vai rolar guerra ou não? Já disse, a bola de cristal pifou. Mas existem inúmeros motivos para acreditar que não. Um artigo do The Korea Times expõe quatro deles: 1) Kim Jong-un conhece muito bem o poderio militar dos EUA e não tem instinto suicida; 2) estima-se que haja cerca de 300 mil chineses vivendo em Seul, o que causaria um grande problema com Pequim, caso a CdN atacasse a cidade; 3) Kim Jong-un sabe o que tem e o que não tem, e ele não tem poder de fogo e nem recursos para manter uma guerra por mais do que alguns dias; 4) Kim Jong-un, ao mesmo tempo em que faz ameaças, prepara-se para governar a Coreia do Norte durante muitos e muitos anos, apresentando propostas para o sistema de educação e desenvolvimento no longo prazo, e uma guerra simplesmente acabaria com tudo. Além do mais, a elite norte-coreana é que tem tudo a perder. E KJU não quer ser o próximo Saddam Hussein.

E a previsão do tempo para o fim de semana: muita festança e uma maratona internacional (!) em Pyongyang, com as celebrações do aniversário de Kim Il-sung, o avô do playboy e fundador do país.

Por isso, caros leitores, quando virem notícias na TV ou lerem algo nos jornais, pensem em tudo isso. O conflito em larga escala entre as Coreias é mais improvável do que Israel e Palestina, ou outros conflitos locais na África e Oriente Médio. Numa guerra aqui, ninguém ganha. Acredito que a reunificação das Coreias vai acontecer algum dia, mas torço para que seja pacífica, e que comece com uma mudança interna de regime no Norte, por mais impossível que pareça neste momento. Só assim todos ganham.