Minhas previsões se confirmaram: Park Geun-hye ganhou as eleições presidenciais da Coreia do Sul. Não foi grande surpresa um país ainda conservador eleger uma conservadora, mesmo sendo filha do ex-ditador Park Chung-hee, pois ainda existe gente saudosista na Coreia que acredita que a ditadura foi boa para o povo.


Park Geun-hye, a primeira presidenta da Coreia do Sul (foto) Park Geun-hye, a primeira presidenta da Coreia do Sul (foto). Olha a felicidade!


Park Geun-hye, no entanto, tentou se livrar desse legado pesado para fisgar os indecisos - e conseguiu. Suas promessas de campanha foram muito parecidas com as do seu opositor. O jornal The Korea Herald relembrou algumas dessas promessas, que eu resumo abaixo.

Coreia do Norte: criação da confiança mútua

Ela prometeu uma política equilibrada com a Coreia do Norte - nem linha dura, nem generosa demais. As duas versões foram tentadas em governos anteriores (o atual presidente, do seu partido, mantém um linha dura com os vizinhos). Para preparar o país para uma futura reunificação, ela propôs um plano passo-a-passo que lista o estabelecimento da paz, integração econômica, e a instalação de "escritórios" da Coreia do Norte em Seul, e da Coreia do Sul em Pyongyang, para melhorar a comunicação bilateral. Outras propostas incluem ajuda humanitária para os pobres do Norte, regularizar os encontros de famílias separadas, internacionalizar o complexo industrial de Gaeseong, e explorar conjuntamente os recursos naturais do subsolo da península.

Reforma política

Park Geun-hye prometeu um sistema de eleições primárias diretas para os candidatos ao Parlamento, limitar a imunidade parlamentar, descentralizar o poder e aumentar as penas para o crime de suborno. Para reduzir o poder presidencial, ela propôs delegar ao Primeiro-Ministro e outros ministros a decisão de escolha dos chefes de secretarias e outras instituições ligadas a cada ministério.

Mulheres

Esse foi o centro do marketing de sua campanha: o fato dela ser mulher, e portanto, prometeu lutar pelos direitos das mulheres. Sua proposta inclui: creches de graça, horas de trabalho reduzidas para mulheres grávidas, um mês de licença paternidade, serviços para cuidar de crianças depois da aula para pais e mães que trabalham, apoio às mulheres que desejam voltar ao trabalho depois da licença maternidade. Prometeu também aumentar o número de mulheres em cargos de liderança no governo. Para estimular os pais a terem mais filhos (pois a Coreia sofre com a baixa taxa de natalidade), prometeu bolsas de estudos para o terceiro filho, bem como apoio às famílias de baixa renda, provendo leite e fraldas. E também apoio aos pais e mães solteiros, e às famílias multiculturais.

Empregos e crescimento econômico

Ela propõe se focar mais na criação de emprego do que no crescimento econômico. Park Geun-hye prometeu investir mais na "economia criativa", como a indústria de software. Ela diz também que é necessário aplicar a ciência e tecnologia nas indústrias para agregar valor aos setores manufatureiros tradicionais para criar novos mercados para o setor de serviços.

Bem-estar social e saúde

PGH propôs um sistema adaptado às necessidades de cada grupo social, e cada idade, em vez de algo universal. Ela prometeu tratamento médico completo para pacientes com uma dessas quatro doenças: câncer, distúrbios cardíacos e cerebrovasculares, e doenças terminais. Apoio aos idosos também é uma de suas prioridades: ela prometeu expandir as pensões para aposentados e incluir implante dentário para idosos nos seguros-saúde. Também propõe criar um seguro-saúde 50% mais barato para estudantes universitários de famílias de baixa renda. Uma parte ambiciosa de seu plano inclui educação de graça para alunos do ensino médio, independente da classe social.

Democratização econômica

Um dos problemas da economia sul-coreana é que os grandes conglomerados têm muito poder e influência no governo, o que faz com que a economia cresça, mas os pequenos empresários sofram. PGH propôs proteger as pequenas e médias empresas, bem como os pequenos mercados dos bairros, que estão sendo varridos pelas grandes redes.

Melhora da competitividade das pequenas e médias empresas

O governo anterior focou muito no apoio aos chaebols para atingir seus objetivos econômicos. PGH quer priorizar a classe média empreendedora, criando mais empregos de qualidade desenvolvidos pela própria classe média. Ela prometeu criar um sistema para aumentar a competitividade global de empresas médias, e para que essas trabalhem em parceria com os grandes grupos existentes. No entanto, detalhes do plano não foram apresentados nessa área, mas sim para a área de pesca e agricultura, para que o setor use mais tecnologia disponível.

Reforma educacional

Para reduzir os custos com educação, ela propôs uma reelaboração de todos os livros escolares, para que os alunos não precisem de professores particulares em casa, e possam aprender melhor sozinhos. Ela também disse que vai proibir as escolas de fazerem provas com questões de nível acima do nível apropriado, o que gera estresse entre os estudantes. As escolas primárias também terão aulas depois das aulas. Além do ensino médio de graça e de bolsas universitárias, PGH prometeu reduzir os juros de empréstimos para educação para algo próximo de zero.

Economia criativa

Essa expressão foi usada no centro da propaganda de PGH na área econômica, e engloba uma ligação entre tecnologia, inovação, financiamento e marketing. Ela acredita que é hora da Coreia mudar o motor do crescimento da economia coreana para as indústrias do conhecimento. Ela propõe o smart new deal, que expandiria a indústria de software e IT na economia. Para tornar a economia mais "criativa", ela também propõe criar mais empregos que não requeiram pontos em exames quantitativos (o que beneficia o cara que memoriza bem, mas prejudica o criativo).

Segurança pública

PGH diz ser necessário investir mais na polícia para combater o que chamou de "os quatro males sociais", que são: violência sexual, violência escolar, crimes relacionados à comida e crimes que destroem a família. Para isso, ela propõe aumentar a força policial em 4 mil policiais por ano, atingindo um total de 20 mil a mais no final dos 5 anos de seu mandato. O combate aos crimes sexuais foi muito enfatizado, pois é uma de suas promessas às mulheres coreanas. Ela também vai revisar as leis brandas em relação aos criminosos sexuais com menos de 16 anos. Além disso, a prostituição e a pedofilia serão combatidos com mais força, segundo ela.

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É promessa pra caramba, né? Pois então. Quem lê assim, nem pensa que se trata de uma candidata do mesmo partido do atual presidente. Se ela cumprir o que prometeu, terá sido uma presidenta arretada. Mas se tiver sido só marketing para ser eleita, isso vai ser cobrado nas eleições de 2017.

Em relação às promessas de paz com a Coreia do Norte, não podemos nos esquecer de que sem os EUA não se toma decisão neste país. Não nessa área. E além disso, Kim Jong-eun e seus companheiros já estão com 40 mil pulgas atrás da orelha com Park Geun-hye. Por mais lindas que suas propostas sejam, ela é filha do cara que tentou matar seu avô, que por sua vez, também tentou matar o pai de Park Geun-hye inúmeras vezes. Portanto, a tal da "confiança mútua" não vai ser um trabalho fácil...

Mas pra mim, e muito mais para os sul-coreanos, se ela conseguir cumprir o que prometeu no que diz respeito à expansão do estado de bem-estar social, já será um grandioso feito. Agora é torcer para que venham as mudanças, e para melhor.