O jornalista coreano Choe Sang-hun publicou recentemente no jornal The New York Times um artigo sobre as transformações étnicas e culturais que vêm acontecendo na Coreia do Sul nos últimos anos. O artigo conta a história de Jasmine Lee, a primeira coreana naturalizada a se tornar membro do Parlamento Nacional em abril deste ano, e lembra a rapidez com que as mudanças têm ocorrido na Coreia para diversificar sua constituição étnica.

Apenas uma década atrás, livros escolares incitavam os sul-coreanos a se orgulharem de terem "um só sangue" e serem etnicamente homogêneos. Agora, o país se depara com a perspectiva de se tornarem uma sociedade multiétnica. Apesar da população imigrante ser ainda pequena comparada à de países de tradição imigratória, ela é suficiente para desafiar a maneira como os sul-coreanos se vêem.

"É hora de redefinir o 'coreano'", afirma Kim Yi-seon, pesquisador-chefe sobre multiculturalismo no Instituto de Desenvolvimento das Mulheres Coreanas, financiado pelo governo. "Tradicionalmente, ser coreano significava ser alguém que nasceu de pais coreanos, que fala coreano, tem aparência e nacionalidade coreana. As pessoas não vêem alguém como coreano só porque ele tem cidadania coreana."
 
A parlamentar de origem filipina Jasmine Lee, presente numa cerimônia de casamento coletivo entre casais multiétnicos

Jasmine Lee foi uma das primeiras mulheres a desafiar a noção de "coreanidade." Nascida e criada nas Filipinas, ela se mudou para a Coreia do Sul em 1994, e se casou com um coreano em 1995, um tempo em que havia pouquíssimos estrangeiros residindo no país.
"Em 1995, as pessoas adoravam me ver falando 'oi' e 'obrigado' em coreano, apesar de que era praticamente tudo o que eu sabia da língua", diz Jasmine. "Mas no início dos anos 2000, no entanto, as pessoas começaram a me olhar suspeitosamente. No ônibus me perguntavam 'Por que você está aqui?'"

Jasmine Lee participou de vários programas e até novelas na TV coreana 
Jasmine Lee participou de vários programas e até novelas na TV coreana

Felizmente, Jasmine foi uma história de sucesso, em parte facilitada pelo fato dela ser considerada bonita pelos coreanos. Logo, ela participou de vários programas de TV, inclusive um sobre "famílias multiculturais" na Coreia. O número dessas famílias tem crescido, em grande parte, graças às mulheres imigrantes do Vietnã e das Filipinas que se casam com coreanos da zona rural do país. Estes têm sido responsáveis por um aumento gigante no nascimento de crianças mestiças no interior coreano: estima-se que hoje, 25% de todos os recém-nascidos do interior sejam mestiços. Essa mudança demográfica sem dúvida alguma ajudou a erguer o capital político de Jasmine, que hoje é representante no Parlamento.

No entanto, como em muitos outros países que abriram suas portas para os imigrantes, as reações xenofóbicas de alguns grupos é inevitável.
Depois da eleição de Jasmine Lee, ativistas anti-imigração alertaram que "ervas daninhas" vindas do exterior estavam "corrompendo a linhagem sanguínea coreana, "e incitaram partidos políticos a se "purificarem", expelindo Jasmine do Parlamento Nacional.

O Primeiro Ministro Kim Hwang-sik condenou essa explosão xenofóbica como "patológica," e pediu que os sul-coreanos aceitem a transição para uma sociedade multicultural "não como uma escolha, mas como um imperativo."

Outros grupos nacionalistas também alegam que essa mistura pela qual os sul-coreanos estão passando pode afetar uma possível reunificação das Coreias, pois no Norte eles ainda adotam políticas de "purificação étnica."

Bem ou mal, a Coreia do Sul tem caminhado e enfrentado essa questão. Eu já recebi muitos emails de pessoas me perguntando se serão bem-vindas na Coreia, se poderão se casar com um(a) coreano(a) sem problemas, e coisas assim. E a cada dia que passa fica mais difícil responder a essa pergunta. Nós, estrangeiros que vivemos na Coreia, estamos vivendo uma experiência única na história sul-coreana que não sabemos aonde vai dar. É possível que a xenofobia ganhe força? Sim, claro, principalmente em tempos de crise. Mas também é possível que ocorra uma mudança demográfica irreversível, como já vem ocorrendo graças à baixa taxa de natalidade dos "coreanos puros."

No ano passado o governo já liberou a entrada de coreanos não-étnicos no serviço militar, e também facilitou o processo para obtenção do visto de residência permanente, o "green card." Resta saber se essa política veio para ficar.