Patinhos de madeira

Não, não sou eu o desesperado. Mas de repente nada menos do que SEIS dos meus amigos coreanos marcaram casamento! Desses, quatro têm menos de 30. Bom, cada um casa quando e se quiser, mas essa onda de amigos se casando me deixou pensando sobre os porquês. Aqui vão alguns palpites: 1) pressão dos pais e 2) medo de ficar pra titio(a).

Tudo gira em torno disso. Felizmente, muitos pais já não fazem tamanha pressão nos filhos, mas uma amiga coreana que se casou no ano passado me contou que a mãe dela (que tem duas filhas) prometeu dar um carro pra filha que se casasse primeiro! Minha amiga ganhou a disputa, mas descobriu que o carro era um blefe. As mulheres sofrem pressão para se casarem com um homem bem sucedido, mas talvez também para se casarem antes dos 30. Os homens não sofrem tanto a pressão da idade, até porque perdem 2 anos no exército, mas se o cara for o primogênito do primogênito... a coisa complica. Conheço um nessa situação. Ser o primeiro filho do primeiro filho do primeiro filho (elevado a 1000) significa que o cara é a "espinha dorsal" da família. Ele não pode se casar com qualquer uma. Se você não é estrangeira e tá apaixonada por um coreano, verifique se ele não é o primogênito do primogênito, porque o sangue ali não pode misturar, colega.

Contudo, como a sociedade coreana vem mudando, muitos pais estão relaxando um pouco. Mas a autopressão continua! Não vou comparar com os brasileiros, porque conheço muitos desesperados para juntar as trouxas, mas não vejo tamanha pressa pra se casar entre os europeus que conheço, por exemplo. O que diferencia o coreano do brasileiro é que aqui na Coreia eu vejo mais homens do que mulheres com pressa pra casar. O medo deles é não conseguir encontrar a mais bonita e mais prendada. Já elas, como fogem da pressão, parecem se importar um pouco menos.

O resultado é que temos na Coreia atual uma mistura entre a cultura tradicional, em que o casamento é tratado como um mero acordo entre as partes, e a cultura ocidentalizada e romantizada, em que as pessoas buscam a tampa da sua panela. Minha professora de coreano (de 2008) acabou se casando por encomenda, porque disse que não "aparecia" nenhum namorado. A solução foi entregar nas mãos dos pais, que procuram outros pais que queiram uma esposa para o filho. E pronto. Uma versão mais industrial disso são os sites de "match-making", em que os "currículos" são analisados e a pessoa aparece num ranking, de acordo com a beleza, emprego, salário, região onde mora, etc.

Um fator que dificulta uma mudança de cultura na Coreia é a timidez do pessoal. Coreano raramente começa a namorar com alguém que conhece por acaso num lugar aleatório. Geralmente eles fazem encontros às cegas que um amigo arranjou. Se gostar, marca outro, se não, despacha logo. Acharam que o Sílvio Santos tinha tirado aquele programa da cabeça dele?

Você deve ter se perguntado o porquê da foto dos patinhos de madeira acima. Bom, se não perguntou, vou responder assim mesmo. Os patos de madeira são usados no casamento tradicional coreano. Dizem que simbolizam a fidelidade do casal, porque inventaram uma de que o pato só tem uma pata a vida toda, e vice-versa. A versão brasileira devia ser de araras de madeira, porque essas sim são fieis.