Estou precisando comprar uns sapatos novos. Os meus, além de estarem ótimos pra patinar na neve de tão lisos, estão também com aquela cara de cachorro pulguento e cansado. Aí o que eu faço? Dou umas indiretas na namorada. "Natal tá aí, né... Papai Noel bem que podia me dar uns sapatos novos..." Como às vezes ela não capta minhas ironias ou "mensagens subliminares" tem que ser indireta bem direta: "Não aguento mais esse par de sapato velho!"

Mas ela, nada. Quando eu já ia deixar pra lá, dar um de que não liga pra presente, ela me pergunta:

"Então... você precisa de sapatos novos, né?"
"É, vou na loja qualquer hora ver se compro um par novo..." (João-sem-braço total)
"Pois é. Eu posso até te dar um par de presente de Natal... mas..."

Foi então que lembrei. Na Coreia tem um ditado popular que diz que "se você der sapato para a(o) sua(seu) namorada(o), ela(e) vai fugir pra sempre." E o povo aqui leva essa superstição tão a sério, que ninguém dá sapato de presente pra ninguém. Cada um que compre o seu.

"Sobrei. Vou ter que realmente comprar meu sapato", pensei.

Mas ela continuou:

"Eu não vou te dar o sapato. Mas posso te dar um vale-compras de uma loja, e você gasta como quiser. Se escolher sapato, a culpa não é minha."

Rá! Isso rendeu boas risadas e umas zoadinhas com as superstições coreanas. Só que ela nega ser supersticiosa. Ela só não abusa. É como a famosa manga com leite no Brasil, que, segundo a lenda, mata. E ainda que todo mundo esclarecido hoje em dia diga que isso é uma grande bobagem, você não vê ninguém, nem quem adora manga, tomando uma vitamina de manga com leite no café da manhã todo dia. Matar não mata, mas não é bom abusar.