Tinha tempo que eu queria escrever sobre isto, mas acabava esquecendo. Quem mora na Coreia, mesmo sem falar coreano, acaba se acostumando com a pronúncia das palavras, apesar de não soar muito como a representação romana, mas como é uma questão de sobrevivência o sujeito se vira pra pronunciar mais ou menos do jeito certo.

Já os turistas de primeira viagem -- como minha família -- não são obrigados a adivinharem que quando se junta a letra e com a letra u, o som não vai ter nada a ver com o som /eu/.

Por isso, esta postagem tem como objetivo ser um pequeno guia para a romanização oficial adotada pelo governo sul-coreano. Muito longe de ser um guia completo e preciso, aqui eu só quero discutir um mínimo sobre o assunto para o leitor que se interessa.

Talvez você já tenha ouvido falar que a romanização do coreano é uma bagunça, porque existem muitas versões, cada um escreve de um jeito diferente, e tudo é uma salada que não faz sentido. Mas há verdades e mentiras aí. A verdade é que as pessoas (tanto coreanos quanto não-coreanos) realmente se confundem com as várias formas já propostas até hoje, cada uma com sua base acadêmica. A mentira é que não existe uma norma oficial. Existe sim! A Coreia do Norte adota uma forma diferente da Coreia do Sul, mas ambas têm suas normas para romanização oficial.

O que bagunçou tudo mesmo foi o fato de o governo sul-coreano ter adotado uma nova romanização oficial no ano 2000. A anterior se chamava McCune-Reischauer, uma forma que se preocupava mais em romanizar o coreano de maneira que o leitor pudesse retornar à escrita ao Hangeul (alfabeto coreano) do que em romanizar como realmente se pronuncia (com exceções de algumas regras). Por isso, usava apóstrofes e diacríticos, e ignorava muitas mudanças sonoras, a fim de preservar a escrita original.

Já a norma adotada em 2000 se chama Romanização Revisada do Coreano, e esta eliminou todos os diacríticos, o que simplificou muito o sistema. Esta norma, no entanto, tem várias inconsistências, pois tenta representar algumas mudanças sonoras mas outras, mais leves, são ignoradas.

A implementação da norma nova gerou muita discussão, pois se gastou muito dinheiro para adaptar o país todo: placas, nomes de lugares, livros didáticos... tudo teve que ser mudado. Para os sobrenomes, foram mantidas as formas tradicionais, mas para os nomes é recomendado que se use a nova norma.

Chega de enrolação então, e vamos ao que interessa. Se você já sabe um pouco de coreano, mas também se confunde com a romanização, ótimo. Mas se você nem conhece os sons do coreano, é melhor dar uma olhadinha neste site primeiro, onde se pode clicar no caracter e ouvir o som.

Primeiro, as consoantes do Hangeul e as respectivas formas romanizadas (versão oficial atual, claro):



Agora, as vogais e ditongos:


Essas tabelas são versões "simples" da romanização coreana. Isso porque a romanização revisada se baseia principalmente na fonética, no som final que se quer transcrever. Por exemplo, temos a palavra (o que / algo), que isoladamente transcrevemos como mwot, pois o som final é "t". Mas se for transcrita um frase como 뭣을 샀어요? (o que você comprou?) o que antes era "t" agora é "s", porque esse é o som pronunciado.

Por isso, para se fazer a transcrição correta é necessário um mínimo de discernimento da pronúncia correta. Mas se eu listar aqui os inúmeros exemplos do tipo, o leitor vai acabar desanimando e nem termina de ler o post. Vamos ao que se pode chamar de "um pouco mais regular". Note que muitas consoantes da primeira linha na primeira tabela acima tem duas possibilidades de romanização. A regra básica é que a primeira se usa no início da sílaba, e a segunda no final dela. Isso porque, em tese, os sons de início e final de sílaba são diferentes.

Exemplo: a romanização da palavra 비빔밥 (um prato típico coreano) é bibimbap. Tanto o "b" quanto o "p" representam o mesmo caracter, mas o "p" é o único que se encontra em final de sílaba. Mas suponhamos que existisse uma palavra como 빕임밥. Segundo a regra da "fonética primeiro", a transcrição seria a mesma, pois o som é o mesmo, por estar entre vogais. Nesse caso, é recomendado que se use o hífen e se transcreva as sílabas separadamente, para evitar ambiguidades. Então ficaria como bip-im-bap. A diferenciação entre início e fim de sílaba também pode ajudar quando um caracter no final se encontra com ele mesmo no início da próxima sílaba: 밥밥 (arroz-arroz, só um exemplo) fica como "bapbap", então assim é possível saber onde termina uma sílaba e começa a outra.

Uma melhora significativa da romanização revisada em comparação com a anterior, na minha opinião, foi em relação às vogais. Antes, as transcrições só pensavam no falante de inglês. O resultado é que nomes como o do namorado da Briza, 명철, é transcrito como Myung Chul, mas de som de "u" mesmo não tem nada. Só pro falante de inglês mesmo é que é moleza sacar o som. E o som de "u" era transcrito como woo em vez de u mesmo, esquecendo que na maior parte das outras línguas ocidentais u é u, a é a, i é ie é e e o é o.

A norma revisada também estabelece a romanização das mudanças sonoras, sendo as mais comuns as que acontecem antes de sons nasais (ㅁ, ㄴ) e antes da minhoquinha . Confiram na tabela abaixo (as partes em amarelo representam as mudanças sonoras):


Assim como em português o "s" facilmente vira "z" antes de sons vozeados, no coreano k, t e p viram ng, n e m, respectivamente, antes de consoantes nasais. Por isso, a famosa terminação -합니다 se transcreve como -hamnida e não como "-hapnida", que seria a transcrição letra a letra.

Mas a mudança sonora mais bisonha para brasileiros, talvez seja o encontro do no final de uma sílaba com o no início da outra. Não apenas um, mas os dois sons, que nada têm de nasal, se nasalizam! Então o nome de um local como 대학로 se transcreve como Daehangno.

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Resumindo. A romanização da língua coreana é, sim, complicada. Mas existe, sim, uma regra oficial. A regra é, sim, falha. Mas eu acredito que devemos tentar entende-la, e usa-la. Mesmo que não saibamos de todas as regras e exceções, um mínimo de consistência não faz mal a ninguém. Às vezes vejo outros estrangeiros escrevendo artigos sérios sobre coisas importantes, mas transcrevem do jeito que sai na hora. Eu também faço isso algumas vezes, mas os falantes de inglês adoram usar a forma antiga, que só faz sentido para eles, e mais ninguém. Aí o leitor tem que tentar adivinhar a qual palavra exatamente ele se refere. Se o texto está num blogue ou algo informal, vá lá. Mas jornal e texto acadêmico, pra mim, não tem desculpa. E, poxa, se tem uma norma oficial, vamos tentar aprende-la né. Não custa.