Se tem uma coisa que me impressiona na Coreia é a disposição dos velhinhos. Não tem tempo ruim pra eles. São independentes, pegam ônibus, metrô e andam pelas ruas sozinhos. Muitos ainda praticam um hobby muito comum num país montanhoso como este: escalar!

Tá, tudo bem que aqui quando dizem que vão "escalar" uma montanha, geralmente eles se referem a uma subida de escadas rústicas, muitas vezes até com corrimão, que leva ao topo de uma montanha. Bem mais fácil que a maioria das montanhas que já escalei em Minas. Mas ainda assim: coloca um velhinho brasileiro de 80 anos pra subir 3 andares no Brasil e depois me conta em que pronto-socorro ele foi atendido.

Sim, estou generalizando. Mas essa é a imagem dos velhinhos mineiros que tenho. Sentados na varanda, jogando conversa fora, ou numa poltrona assistindo ao Sílvio Santos. Em qualquer lugar isso varia muito entre classes sociais, mas aqui na Coreia, eu tenho a impressão que eles nunca deixam de trabalhar ou de se exercitar. Os serviços mais braçais não são feitos por jovens, mas por idosos! Catador de lixo, gari, faxineiro... Nunca vi um com cara de novo, ou até mesmo de meia idade.


Um estrangeiro vendo um velhinho coreano puxando a carrocinha de lixo:
"Nossa! O meu avô mal consegue se levantar do sofá!"


Já os mais ricos (ou pelo menos melhores financeiramente) usam seu tempo para se divertir. Em Cheongju, eu via muitos velhinhos jogando yut-nori na praça. Havia tantos, mas tantos velhinhos, que eles faziam competições entre eles. Sério, eram muitos. E todo dia lá estavam eles à tardezinha, e muitos chegavam de bicicleta.

Já entre as velhinhas coreanas não é raro vê-las andando pelas ruas muito curvadas. Lembro que quando cheguei aqui e morei em Cheongju, via sempre algumas no meu bairro que andavam curvadas a quase 90 graus! Tenho certeza que em muitos países os filhos não as deixariam sair de casa naquelas condições, mas elas não só saíam como faziam compras e carregavam tudo sozinhas! Depois perguntei a um amigo, e ele me disse que até pouco tempo atrás, só se cozinhava no chão aqui. Aliás, as culturas orientais têm esse contato forte com o chão: dorme-se no chão, cozinha-se no chão, come-se no chão. Isso tem mudado, mas ainda é comum. Por isso, as mulheres que tinham que cozinhar no chão todo dia para a família, acabavam desenvolvendo esse problema nas costas que as deixavam curvadas para sempre.

O lado ruim dos velhinhos coreanos, pra mim, é que o comportamento deles é mais autoritário, de certa forma arrogante. No Brasil, os velhos se sentem diminuídos, se acham menos, e por isso não se acham no direito de falar mais. Já nas sociedades confucionistas, quanto mais velho, maior o seu nível de autoridade, de modo que se um idoso falou, todos abaixam a cabeça e fazem o que ele mandou. O problema é que, exatamente por isso, eles raramente pedem licença ou desculpa para alguém mais novo. Um dia eu estava sentado no metrô ao lado de um senhor que aparentava ter seus 70 anos. Eu estava com as pernas cruzadas (do tipo tornozelo em cima do joelho da outra perna) e não notei que meu tênis estava encostando na calça dele. Em vez dele me pedir para abaixar a perna, com educação, ele simplesmente pegou minha perna com as duas mãos e colocou no chão. o.O

Ainda assim acho que temos muito o que aprender com o pessoal daqui em termos de respeito aos mais velhos. Nossos velhinhos merecem muito mais e melhor.

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Abaixo, alguns vídeos que filmei perto de Insadong. Foi uma manhã logo depois do jogo entre Brasil e Chile. Eu tinha que fazer hora na rua para pegar meu passaporte na embaixada, que só abria às 9. Nesse meio tempo vi vários velhinhos andando para todo lado naquela região movimentada, às 6 da manhã! Notem que as duas velhinhas que gravei andam de begalas, mas dão passos muito firmes.



Tem também um filme coreano que foi lançado em 2002, que se chama "A Caminho de Casa" (집으로), e que conta a história de uma velhinha que mora no interiorzão da Coreia. Ela teve que cuidar durante um tempo do neto que vivia em Seul, por isso eles tinham dificuldades em se entender. A história é fictícia, mas a personagem é real. A senhora realmente mora na casa onde gravaram o filme! Meus amigos coreanos não gostam desse filme. Acham entediante, porque a velhinha não tem fala e não tem nenhum ator ou atriz bonito e famoso (opinião típica dos jovens coreanos). Mas eu gostei, e é bom para ver como vivem os camponeses que ainda existem na Coreia, mas que estão quase todos muito velhos.


E para não pensarem que eu acho os velhinhos brasileiros todos preguiçosos, tenho o maior exemplo de energia na minha própria família. Meu avô Silvestre (mais conhecido como "Vete"), que já vai fazer 99 anos, passou a vida inteira sem ter um só carro. Andou ou pedalou para todo lugar! E era um apaixonado por futebol: treinava os meninos da cidade de Candeias (MG), dedicando-se tanto que hoje o único estádio da cidade se chama "Estádio Silvestre Teixeira"! ^_^ Até seus 90 e poucos anos ele andava por toda a cidade todos os dias sozinho, mas teve que parar - não porque não pudesse andar, mas porque perdeu quase toda a visão, e um dia chegou a levar um tombo na rua porque não viu onde pisou. Depois disso, para não ficar parado em casa, começou a se exercitar quase todo dia, aos comandos de uma prima minha que é fisioterapeuta e morava na casa ao lado, por isso pulava o muro para "treiná-lo". Naquele tempo, há 4 anos atrás, eu gravei o vídeo abaixo.


Hoje o vô Vete já não está com todo este pique, porque teve alguns problemas sérios de saúde, que meu pai simplificou para mim como sendo "velhice". Mas com certeza ele ainda serve de inspiração para todos que o conhecem.