Não tenho atualizado o blogue como eu gostaria, escrevendo sobre assuntos que rumino enquanto ando, e postando mais frequentemente. Gostaria também que o blogue tivesse mais artigos bem trabalhados, sem muita carga do sentimento do momento que vivi. Mas ultimamente só engatilho pra escrever mesmo quando algo desagradável acontece. Às vezes apago a postagem já escrita, penso que a questão não é tão importante quanto eu pensava que seria no momento em que vivi ou presenciei algo que me irritou ou me espantou.

Mas desta vez não deu, foi mal. Acabei de chegar em casa. Tenho trabalhado muito no acampamento, e tentado entender o ambiente de trabalho coreano. Já vieram dar um puxão de orelha nos TAs, dizendo que toda manhã, quando chegamos ao local de trabalho, nós precisamos procurar o indivíduo mais superior presente, ainda que esteja escondido numa salinha qualquer, para nos curvarmos e desejarmos bom dia. Achei meio exagero ter que sair caçando os manda-chuvas só pra se curvar, mas até aí tudo bem. "É a cultura..."

Hoje resolveram fazer um happy hour com a gente depois do trabalho (às 10 da noite) pra jogar conversa fora. Estavam presentes uma galera da ralé (os TAs e os auxiliares administrativos) mais alguns professores e coordenadores. Ia tudo muito bem quando surgiu o assunto "tabus da Coreia". E nem fui eu quem puxei o assunto. Mas não pudemos deixar de citar a questão dos homossexuais. Uma coreana que viveu a maior parte da vida nos Estados Unidos começou falando que achava um absurdo a maneira como eles têm que se esconder na Coreia, e como muitos são expulsos de casa.

Até que um colega dela (mais velho que eu apenas 4 anos) resolveu dar a opinião. Ele acha que a homossexualidade é uma safadeza que se "conserta" com muita porrada. Quando questionado, disse que se tiver um filho que se assume gay, ele não vai expulsá-lo de casa, mas vai "consertá-lo" (na porrada). E continuou falando um monte de barbaridades, como "essa 'raça' não pode prosperar jamais!"

Até que eu entrei na discussão dos dois. Perguntei se ele falaria o que estava falando se soubesse que algum dos presentes fosse gay. Ele ficou sem graça, talvez pensando que eu fosse fazer uma confissão de final de novela (aos leitores novos: não, eu não sou gay). Então mencionei sobre algumas pesquisas e reportagens (como esta) que falam sobre os gays na China, que sofrem pressão parecida com os da Coreia e acabam se casando com mulheres para dar satisfação à sociedade, mas continuam tendo relações com outros homens. Argumentei também que mesmo que ele conseguisse fazer com que o filho dele não tivesse relações homossexuais, isso não o tornaria heterossexual, afinal não é a prática que determina o que se é. Por acaso alguém questiona a sexualidade de um menino virgem se ele claramente se sente atraído por mulheres? Por que então pra ser gay o cara tem que ter tido sua primeira experiência?

Só sei que o assunto foi esquentando, a galera assistindo a discussão, a coreana me apoiando nos argumentos, só pra ver se o cara parava de falar as barbaridades que tava falando e moderava um bocado. Que nada. A reação dele foi violenta. Arregalou os olhos para nós dois e, gritando, ordenou que parássemos com aquele assunto imediatamente. Disse que estávamos o envergonhando na frente dos outros. "O que você quer provar quando cita pesquisas? Que eu sou um idiota né?! Que absurdo é esse? Uma mulher e um homem mais jovem do que eu querendo me envergonhar na frente dos outros!!!"

Silêncio.

Mudamos de assunto rapidinho.

No final ele se acalmou e me pediu desculpas. Mas deixou claro o que todo mundo aqui já sabe, pelo menos em tese: um coreano envergonhado é um coreano arrasado. Envergonhado por "seres inferiores", então, é um pecado sem redenção.

Esta postagem é mais um desabafo. Para quem se preocupa comigo, relaxa. Minha vida aqui está ótima. Foi a primeira vez que participei de um debate de ideias com um coreano que chegou a tal ponto. Na maior parte das vezes eles serão educados e te ignorarão por ser estrangeiro, mesmo achando que você está sendo mal-educado em discordar de um mais velho ou superior.

Mas a situação também me fez repensar sobre a minha capacidade de adaptação a situações parecidas. Quem me conhece sabe que dou um boi pra não entrar numa briga, mas dou uma boiada pra não sair dela. Muitas vezes falo muita besteira, falo de coisa que não conheço bem, mas reconheço bons argumentos e me dobro a eles. Em casos como o contado acima, no entanto, em que uma criatura fala tanta barbaridade numa só frase, eu entro na discussão com vontade.

Como vai ser se eu trabalhar com mais coreanos do tipo? Vou aprender a calar minhas opiniões só porque o cara é mais velho? A resposta só o tempo dirá. Mas espero que esta tenha sido minha primeira e última experiência de receber um cala-boca por ter dado minha opinião educadamente (acredito eu) e ainda ter citado a fonte.