Semana passada fui convidado para um evento chamado "Inspiring Night in Korea," mais um desses para promover o turismo no país. Me ligaram umas três vezes para confirmar presença, e na última me disseram que eu poderia levar algum amigo, mas deveria enviar por email o nome, número identidade e telefone. Pois eu enviei o email com as minhas informações e também as da Ji Young.

Hoje fui ao tal evento, que aconteceu no Palácio Changdeok, em Seul. Achei que nem verificariam os nomes, nem nada, mas como a Primeira Dama estava presente (de novo! estamos ficando íntimos), a segurança foi reforçada. Pediram identidade, passaram detector de metais, abriram bolsas e tudo mais.

Mas logo na entrada, quando pediram a identidade e checaram se nossos nome estavam na lista, surpresa. Lá estava meu nome, mas não o da Ji Young. Estávamos em filas separadas (coreanos em uma, estrangeiros em outra), e de longe ela já fez sinal pra mim dizendo "ih, não deu!"

Fui lá do outro lado e me confirmaram: o nome não estava na lista mesmo, e por isso ela não poderia entrar. Eu disse: "Mas ela está comigo, e eu enviei seu nome junto com o meu!" Ao que eles repetiam num inglês coreaníssimo: "No name, impossible." (Sem nome, impossível)

Voltei pra minha fila e expliquei a situação. Uma coreana checou várias vezes a lista, e chegou à mesma conclusão: "Desculpa, mas sem o nome na lista não podemos deixar entrar." E eu, inconformado, fiz meu drama: "Olha, eu enviei o nome dela por email. Agora você quer que eu entre e deixe minha namorada aqui de fora, é isso?"

A coreana só faltou lamber o chão. Abaixava a cabeça, pedia mil desculpas, mas repetia que era impossível.

Lembrei da minha arma secreta. Saquei meu iPhone do bolso, abri meu email na frente dela e mostrei o email que enviei, e o nome da pessoa que confirmou o recebimento. "Ah, sim... pois é, deve ter havido algum problema... mas o nome não está na lista. Impossível. Desculpa, desculpa, desculpa..."

Nessas horas fico feliz por não saber muitos palavrões em coreano. Soltei os meus em português mesmo e já fui olhando ao redor, procurando alguém que pudesse me ajudar. Não demorou muito. Uma americana negra, que parecia ser meio coreana, estava trabalhando também na recepção e viu a nossa situação. Ela já chegou botando moral e desmentindo a coreana: "Não, não é impossível. Só preciso encontrar um superior, explicar a situação e ter autorização pra ela entrar."

Foi o que ela fez. Anotou o nome da pessoa que recebeu meu email, nome e identidade da Ji Young e pronto. "Pode entrar. Divirtam-se!"

Essa situação me lembrou das inúmeras vezes em que tive que lidar com problemas burocráticos na Coreia, especialmente quando morei em Cheongju. Sempre que eu precisava que abrissem uma exceção ou que pedia que mudassem alguma regra, a resposta era um rápido e impensado "impossível!"

Em Cheongju, morei um ano num dormitório que fechava as portas automaticamente, pontualmente às 11h da noite. Uma vez tive até que escalar até o segundo andar pendurado numa mangueira de incêndio, como já contei aqui. Meus amigos e eu fomos várias vezes ao Escritório Internacional da universidade para pedir que abrissem uma exceção para nós, pois a regra era uma exigência dos pais dos coreanos de 18 anos que também moravam lá. E como nós não precisamos dar satisfação aos nossos pais sobre o horário em que chegamos, tal regra não fazia sentido algum.

A resposta? "Regras são regras. Impossível mudar."

Além da pobreza da lógica da Sra. Park (ah, a Sra. Park!), a menos de um mês de me mudar de Cheongju eu descobri que tal frase era simplesmente mentirosa. Tive a oportunidade de tomar um soju com o reitor da universidade, com quem falei sobre o problema. Ele me disse que estudou no exterior durante muito tempo e que sabia como era difícil a vida de expatriado. Mandou anularem a tal regra para os estrangeiros e passamos nossos últimos dias no dormitório livres para ir e vir a qualquer hora.

Agora você me pergunta: "Por que então eles dificultam tanto?" A resposta é simples: "Por preguiça ou por medo."

Sim, preguiça de contornar o procedimento padrão com o qual a pessoa já está acostumada e ter que pensar nas consequências de abrir uma exceção. E medo de ter que incomodar seu superior porque alguém inferior está pedindo.

E o pior é que eles sabem que isso funciona com os coreanos, porque eles não são "chatos" como os estrangeiros. Um coreano recebe um "não" e já desiste logo. Hoje, quando a Ji Young recebeu o primeiro "não" já foi logo dizendo: "que pena, vou ter que voltar para casa..."

Mas eu sou brasileiro e não desisto nunca!

Por isso, quando um coreano lhe disser que algo é impossível, não acredite. Insista. Faça como Joseph Klimber, que nos ensina que nesta vida nada é impossível.