Neste semestre, segunda-feira é meu melhor dia. Sexta eu tenho compromisso de 9 da manhã às 10 da noite, mas segunda eu posso dormir até tarde. Por isso ontem fui dormir umas 2h da madrugada pra acordar às 10 ou 11h. Depois de uns cinco snooze, levantei e notei que tinha algo diferente:

"Ué, não lembro de ter deixado minha calça atirada no chão assim..."

Olhei pro outro lado: "...e também não lembro de ter deixado minha mochila de cabeça pra baixo..."

Pra minha mesa: "...por que é que a gaveta tá aberta e revirada?"

E a última constatação foi para acordar meu último neurônio e entender o que tinha acontecido: "... também não lembro de ter deixado a porta ABERTA!". Olhei de novo pra primeira gaveta, onde sempre guardo minha carteira, para confirmar o esperado. Fui roubado enquanto dormia.

Se tivessem me filmando na hora, eu olharia pra lente, em câmera lenta, sacudiria minhas bochechas para um lado e outro e gritaria "nãããããoooooooooo!!!!". Como não tinha câmera, a primeira coisa que fiz foi ligar para a Nice Ajumma.

(Parêntese. Nice Ajumma (나이스 아줌마) é a corretora de imóveis dona da Nice Budongsan, através da qual aluguei meu one-room. Como o escritório dela é aqui do lado, quase todo dia a gente se vê, e ela é extremamente atenciosa comigo. Se eu passo em frente à budongsan (imobiliária) e ela me vê pela parede de vidro, frequentemente me chama pra tomar café, comer frutas ou só pra saber se tá tudo bem comigo. Não sei se ela me trata bem só porque sou cliente, mas o fato é que sinto nela um carinho de mãe, por isso foi a primeira pessoa a quem pensei em pedir ajuda. Fecha parêntese)

"Alô?"
"Ajummaaaaaaaa............" (feito bebê chorão)
"O que foi, estudante brasileiro?"
"Ladrão... entrou... levou... carteira..." (meu coreano que já não é grandes coisas sumiu no meu desespero)
"Aiguuuuuuuuuu!!! Já tô indo!"

Ela chegou em 2 segundos e meio e tava mais assustada que eu. Ligou pra polícia e pro meu banco pra cancelar o cartão. Em 5 minutos tinha dois policiais no meu quarto fazendo várias perguntas.

"Quanto tinha de dinheiro?"
"15 mil wons" (25 reais)
"Documentos?"
"Identidade, carteira de motorista, cartões de banco..."
"Levaram mais alguma coisa?"

Foi aí que olhei ao redor e notei que meu laptop (um Macbook Pro!) e minha filmadora (uma Sony novinha que nem terminei de pagar!) estavam expostos na mesa, em cima da gaveta de onde o ladrão pegou a carteira. Mas estavam intactos! Olhei minha mochila, tudo lá dentro. Das gavetas aparentemente  não levaram mais nada. O policial começou a esboçar um sorriso do tipo "rá! mais um ladrão de galinha..."

De qualquer maneira eu tava p%*# porque teria que ir na imigração e pagar pra tirar segunda via da minha identidade, e sem ela e sem meu cartão eu nem poderia sacar dinheiro no banco. Além do que eu tinha um compromisso importantíssimo às 2h da tarde, e tudo seria cancelado por essa dor de cabeça.

Um dos policiais olhou pra mim e disse: "Veste uma roupa e vem com a gente pra fazer a ocorrência". É, reparei que eu tava ainda de pijama, olho remelento e bafo matinal. Me arrumei rapidinho, e quando cheguei na entrada do prédio vi minha caixinha de correio meio aberta. "Será que arrombaram até minha caixinha de correio?!", pensei. Que nada. Lá estava minha carteira! O ladrão pegou os 15 mirréis e devolveu o resto. Aí foi só alegria. O policial até notou que o ladrão nem levou os tickets de refeição da universidade (tinha uns 20 dentro dela). Me deu um tapinha nas costas, sorriu e disse: "tranca a porta da próxima vez. Esse tipo de ladrão só rouba se tiver muito fácil..."

E todos viveram felizes para sempre. ^_^

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Agora minha opinião sobre os fatos. Primeiro, eu não lembro se tranquei a porta antes de dormir. A noção de que na Coreia não tem muitos casos de furto, roubo ou assalto deixa qualquer brasileiro mal acostumado. Meu prédio é pequeno (4 andares, 4 one-rooms em cada andar), por isso não tem sistema de segurança sofisticado. A porta do prédio fica aberta direto, e o máximo que posso fazer é dar uma voltinha na minha chave pra garantir que ninguém entre. O susto (com apenas um saldo negativo de 15 mil cruzados) foi bom pra eu ficar mais esperto.

Depois fiquei tentando imaginar o perfil do ladrãozinho que entrou aqui enquanto eu dava minhas roncadas. Seria um bêbado? É possível, já que é o que mais se vê nas ruas por aqui depois das 2h da matina: gente cambaleando pra todo lado. Uma vez, às 3h tentaram abrir minha porta. Levei o maior susto, olhei pelo olho mágico e vi que era o vizinho da frente, bêbado, que supostamente tinha "se enganado de porta". Mas e se a porta estivesse destrancada? Se o sujeito entrasse aqui e visse que tava fácil pra levar uns trocados pra mais uma rodada de soju na veia? A ocasião não faria mais um ladrão?

Outra. Seria um coreano ou um estrangeiro? Sim, porque meu bairro tem o maior número de estrangeiros residentes em Suwon. Tanto que mudaram o escritório da imigração pra cá ano passado. Além do que, segundo as estatísticas policiais, o número de crimes cometidos por estrangeiros na Coreia tem crescido. Torço para que não tenha sido um estrangeiro, porque se for, e essa situação piorar, a xenofobia vai começar a rolar solta aqui, já que até então esse é um lugar tranquilo pra se viver. Lembro que quando morava num dormitório em Cheongju, os coreanos me alertavam: "se você tiver algum colega de quarto chinês, esconda suas coisas de valor, porque eles roubam mesmo!". Afinal, quando um coreano não consegue botar a culpa num japonês, o número dois da lista é chinês. E essa má fama tem crescido em outros grupos que têm chegado aqui. Lembro que no final de 2008 teve uns trotes de mau-gosto dizendo que tinha bomba numa universidade onde tinha bolsista do NIIED. E tinha muitos árabes e muçulmanos. Adivinha quem foi que a polícia foi investigar?

Acho que os coreanos têm uma boa imagem dos brasileiros, mas o que será que pensariam se o roubo fosse no apartamento do meu vizinho? Será que suspeitariam de mim, o "brasileiro com cara de iraniano" que mora no prédio? Não é o caso da Coreia, mas em muitos países com grande população de brasileiros, nossos conterrâneos já queimaram o filme total, tamanha a desonestidade de alguns deles.

Bom, mas agora é relaxar e dar graças a Deus que não passou de um susto. E rir da "bondade" do meu ladrão de galinha. Me lembrou muito um caso do Juliano, em 2008, que relatou uma história parecida que aconteceu com a namorada dele. Olha aqui. Abraços a todos, e boa sorte com os ladrões aí do Brasil, que infelizmente há muito já deixaram de roubar a galinha pra levar a granja toda.