Já faz algum tempo que tenho observado o comportamento dos jovens coreanos em relação à política. Não demorou muito pra eu notar que o presidente Lee Myung-bak (LMB) não é muito querido por aqui. O que eu mais ouvia dos estudantes com quem eu conversava era: "eu não gosto do nosso presidente." Ao que eu sempre perguntava: "mas em quem você votou pra presidente?" O coreano dava aquela risadinha sem graça e confirmava que tinha votado no presidente que ele agora odeia.

Até aí tudo bem, porque em 2002 no Brasil parecia que ninguém nunca tinha votado no FHC, que ganhou não uma, mas duas eleições no primeiro turno, façanha que nem o Lula superpop conseguiu. O que mais me surpreendia ao tentar entender o porquê dos jovens coreanos terem votado num cara que não os representa era a justificativa que ouvi muitas vezes: "votei no LMB porque meu pai/minha mãe mandou."

Desde então comecei a ter uma dimensão da situação por aqui. Numa sociedade tão confucionista, já era de se esperar que os jovens não participassem muito, afinal quem tem que tomar decisões são os mais velhos. Não que não haja candidatos jovens por aqui, mas a impressão que tenho é que eles não podem vender uma imagem muito revolucionária, invertendo valores culturais, senão não são eleitos.

Depois de amanhã haverá eleições na Coreia do Sul. São eleições locais (províncias e municípios) e cada coreano precisa escolher 8 candidatos em quem votar. Governador, prefeito, representantes da província, do distrito, e - para minha surpresa - até o secretário de educação da província. São muitas escolhas pra se fazer, e eu esperava que a essa altura haveria uma grande mobilização na sociedade.

Que nada. Como o voto não é obrigatório, só se envolve mesmo quem quer, e os jovens parecem não querer muito. De acordo com a pesquisa Data-Henrique, que fez a mesma pergunta a uma porção de amigos, nenhum jovem coreano tinha o nome do seu candidato na ponta da língua, e a maioria disse que nem sabe se vai votar. Pior: muitos nem sabem os nomes das opções que têm!

E a gente que já acha os brasileiros despolitizados, hein? Apesar de não concordar com vários pontos da legislação eleitoral brasileira (inclusive o voto obrigatório), a impressão que eu tenho é que somos obrigados a nos envolvermos de alguma forma. Porque ainda que você não tenha um candidato que ame, sempre tem um que você odeia e que você não consegue imaginar como seu representante, por isso acaba apoiando um opositor.

Lembro também que, aos 16 anos, meus amigos e eu estávamos ansiosos pra votar pela primeira vez. Eu escrevia no jornal dos estudantes do meu colégio, criticava candidatos a vereador e prefeito, analisava o que eles propunham, etc. E isso numa cidade de 49 mil habitantes do interior de Minas!

Mas a mídia sempre me fez pensar que nos países desenvolvidos a consciência política era mais ampla, e que as pessoas se envolviam mais no processo de escolha dos seus representantes. Aqui na Coreia, pelo menos entre os jovens, posso dizer com segurança que não é assim. Até mesmo nos protestos nas ruas da Coreia, quando tem algum. Repare nas fotos que publicam nos jornais: é ajoshi e ajumma pra todo lado. A meninada de 19, 20 anos fica longe dessas coisas, são muito alienados.

Protesto contra o regime de Kim Jong-il
Protesto contra a importação de carne dos EUA
Protesto a favor do direito de tirar a roupa em público ^_^
Tá vendo? Quem comanda este país são os ajoshis, meus amigos. Se você vir um jovem agindo ativamente, é provável que esteja seguindo ordens superiores.

Agora, olhando o outro lado da moeda. Semana passada, quando fui ao supermercado, vi um "mini-comício" de um candidato a prefeito de Suwon. Não encontrei outra palavra para descrevê-lo que não fosse patético. Pelo amor de Deus. O cara contrata um bando de marionetes pra fazer movimentos repetidos e cantar umas musiquinhas. Entre o palanque e o povo devia ter um vazio de uns 30 metros. Ninguém chegava perto, ninguém fazia perguntas, ninguém aplaudia (além dos contratados para fazer isso) e ninguém vaiava. Um desinteresse total. Mas com esse showzinho de quinta série fica difícil levar esses caras a sério.

Termino o post com um pouco que gravei do "mini-comício" do tal candidato:


A infantilidade dos movimentos coreografados parece um pouco com a campanha para eleições estudantis. Lembra?