Se você já parou para pensar alguma vez na vida sobre um lugar muito, muito distante que se chama Coreia, é provável que tenha se perguntado por que essa nação são dois, e não um, país, como antes. E se esse assunto te interessa mesmo, você já deve ter dado uma googladinha básica e encontrado a resposta. Por isso não vou ficar aqui repetindo a mesma história de sempre.

A minha pergunta é: por que é tão difícil assim um único povo se entender e viver em paz?
O que a mídia vai sempre dizer é o mesmo que sempre disse: a Coreia do Norte e seu regime de amalucados não dão brecha para uma conversa civilizada. O resultado é o que já sabemos: uma zona desmilitarizada, famílias separadas, ninguém sobe e ninguém desce (ou quase ninguém), e um estado técnico de guerra, sem tratado de paz assinado.

No entanto, na semana passada uma nova informação me fez enxergar as causas de tal estado por uma nova perspectiva. Eu já falei aqui antes que, na Coreia do Sul, praticamente todos os mapas do país que vemos nas escolas não mostram as duas Coreias como dois países diferentes. Na maioria esmagadora das vezes o mapa mostra a península coreana toda com, no máximo, uma linhazinha fininha e pontilhada mostrando a divisão, e os dizeres "Mapa do Nosso País", como este logo abaixo:


A minha reação ao ver mapas assim quando cheguei à Coreia era sempre positiva. "Nossa, que bonito! Eles ensinam às crianças na escola que eles são um só povo, com uma só história..." Uma atitude bacana do governo sul-coreano, não?

Mas a nova informação que mudou minha maneira de pensar surgiu numa aula, sexta-feira passada. O Prof. Kwak fez uma breve menção a uma cláusula pétrea da Constituição da Coreia do Sul, que diz que o território da República da Coreia (i.e. Coreia do Sul) se estende até o ponto mais ao norte da península coreana. Ou seja: o governo norte-coreano não é legítimo e são uma cambada de invasores que estão controlando a parte norte da península. Algo como as FARC na Colômbia, só que maiores e mais organizados.

Qual é o impacto dessa breve parte da Constituição da Coreia do Sul? Simples: eles jamais poderão assinar um tratado de paz, a menos que reunam uma Assembleia e decidam desistir do território do norte, o que é muito improvável.

Até agora a Coreia do Sul ainda não reconheceu o governo norte-coreano como legítimo (e vice-versa). O pouco progresso que obtiveram foi por pressão da ONU. Os países só integraram à ONU, por exemplo, em 1991, simultaneamente, porque nenhum dos dois aceitaria que o outro entrasse para representar o "povo coreano".

Uma outra consequência desse pequeno trecho da Constituição é que a Coreia do Sul tem administradores designados para cada província na Coreia do Norte. É mole? Os bichos nem podem atravessar a fronteira, mas já estão prontinhos para administrar um território em que não têm jurisdição!

Agora, me digam aí, por mais que Kim Jong-il seja surtado, o que você faria no lugar dele se soubesse que o governo do sul tem tudo engatilhado para tomar conta do seu território? Não importa o quanto os americanos e sul-coreanos pareçam querer negociar, o problema está na lei daqui.

A meu ver, a reunificação pacífica hoje é impossível. Pelo menos assim, de uma vez. A melhor maneira seria os dois países reconhecerem um ao outro como países com governos legítimos, ainda que com ideologias diferentes, e começarem a se abrir aos poucos. E depois de muito tempo de amizade, aí sim, conversa de reunifição pode voltar a fazer sentido.

Enquanto isso a gente vai vivendo nessa maravilhosa tranquilidade sul-coreana, que faz a gente até esquecer dos milhares de mísseis apontando pra nossa cabeça.