Não gosto de usar o blogue para debater outros assuntos que não tenham a ver com o tema "Coreia", pra não virar uma salada que não interessa a ninguém. Mas hoje aconteceu uma coisa que me irritou muito e não aguentei, tive que recorrer ao bloguinho que serve como válvula de escape algumas vezes.

Os coreanos são, por via de regra, tímidos. Se um coreano não te conhece, ele não vai puxar conversa só por puxar. Os que te abordam do nada, geralmente querem praticar inglês. Ou então...

"Oi, tudo bem?"
"Tudo bem."
"De onde você é?"
"Do Brasil."
"Nossa, que legal! Há quanto tempo você mora na Coreia?"
"Há um ano e meio, mais ou menos."
"Ah, bacana. Tá fazendo o que aqui?"
"Sou estudante."

Depois de umas cinco ou seis perguntas, quando você começa a acreditar que aquela pessoa quer realmente fazer amizade, vem a pergunta:

"Você acredita em Deus?"

Pronto. O plano foi revelado. Todo aquele aparente interesse na sua pessoa desaparece quando você diz que não quer ir à sua igreja. "Foi uma perda de tempo", ele pensa. "Uma alma que não quer conhecer a verdade."

Eu não sou tão chato, porque até dou corda pra ver aonde a pessoa quer chegar. Mas a ladainha não muda. Eles têm um script do que deve ser dito para que você entenda e seja salvo, e um "não, obrigado" os frustra profundamente.

Mas sabe por que isso me irrita? É que qualquer ateu, budista ou espírita que tenha opinião formada, simplesmente sabe no que crê e diz "não, obrigado" pro crente mala. Só que eu sou crente. Ou cristão. Ou sei lá que nome dou àquilo que sou, porque não tem mais nome para ser usado que esteja livre de conotações sujas e frankesteinizadas. Já fui católico e protestante (com orgulho das titulações), mas hoje é tão difícil dizer às pessoas sobre o que eu acredito, porque a simplicidade parece não satisfazer os cristãos viciados em complicações e historinhas que enchem seu imaginário.

A verdade é que o Cristianismo é um tiro no pé de Cristo. E não excluo nenhuma ramificação institucionalizada: católicos, ortodoxos, protestantes (com suas milhares de sub-ramificações), todos criaram dogmas, regras e teologias que matam a essência da mensagem mais simples que alguém poderia ouvir. "Ame o seu próximo como a si mesmo."

Hoje a pobre da menina que me abordou me mostrou uma lista de coisas que eu deveria fazer, de sinais que indicam se sou "salvo" ou não, de como eu preciso conhecer o "verdadeiro evangelho". Deixei ela falar por 40 minutos (acreditem!), pra depois tentar lhe mostrar como ela estava sendo chata. Sim, chata. Eu já tinha falado que era cristão, pra ver se ela se tocava, mas ela queria me provar por A mais B que eu estava perdido se não acreditasse exatamente no que ela acreditava.

Uma coisa que tenho percebido é que aqui na Coreia, como no mundo todo, Cristo tá com o filme queimadíssimo por causa dos cristãos. Aqui eles ainda fazem a diferença entre "cristão" e "católico" (sim, os coreanos parecem não saber que católico também é cristão), e deles os protestantes são vistos como os mais chatos. Depois de séculos de chatice e matança, a igreja católica se tocou um bocado, mas seus dogmas ainda são igualmente excluidores daqueles que não os aceitam.

Sabem por que o budismo é a religião que tem mais simpatia por parte dos sem religião? Porque eles não enchem o saco de ninguém. Os cristãos e os muçulmanos não fazem ideia do quanto são parecidos! Estão ambos numa guerra que não leva a nada, pois a única arma que realmente faz a diferença é o amor. Os cristãos se tornaram terroristas sem bomba e já esqueceram há muito o que são "boas novas".

Se você é crente chato, para o bem da humanidade (e o seu próprio bem), pare com isso. O seu amor incondicional a quem precisa vai fazer muito mais diferença nesse mundo.

Fica aí o desabafo. Abraço!

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PS: Antes que me digam "ah, mas a igreja X ajuda os pobres do bairro tal" ou "a paróquia Y tem programas de caridade muito efetivos", saibam que essa não é minha crítica. Toda filantropia é boa. Mas isso não torna suas crenças frutíferas para os que nelas creem.