O leitor André, que aparentemente trabalha na Samsung no Brasil, deixou um comentário com um link para esta reportagem do Estadão sobre a taxa de natalidade na Coreia do Sul. Para quem tá com preguiça de ler, vou resumir: ela fala sobre as medidas que o Ministro da Saúde do governo sul-coreano tem tomado para aumentar a taxa de natalidade que é uma das mais baixas do mundo (1,2 se não me engano) e ajudar os coreanos a passarem mais tempo fazendo coreaninhos.

Para um país manter a reposição da população e, portanto, garantir uma população economicamente ativa que sustente a base e o topo da pirâmide (as crianças e os idosos), é necessária uma taxa de natalidade de pelo menos 2,1* filhos por casal. (*Não me perguntem de onde veio esse 0,1. Mas suspeito que seja para garantir que 2 cheguem à fase adulta, já que uma turma se perde aí no meio do caminho).

O que fazer então, ó Coreia? A reportagem do Estadão falou - não muito seriamente - das medidas tomadas para atacar um dos problemas: os trabalhadores passam tempo demais no trabalho e pouco tempo com a família. A cultura corporativa na Coreia é simplesmente massacrante: os coreanos trabalham em média 12 horas por dia, raramente recebem hora-extra e ainda têm o costume de sair com os colegas de trabalho à noite durante a semana. Resultado: se têm cônjuge em casa, chegam cansados demais para "dar no couro" e fazer filhinhos. Se já têm filhos, não têm tempo para ficar com eles. E é isso que o Ministro da Saúde está tentando estimular: uma mudança cultural que permitam que os trabalhadores passem menos tempo no trabalho e mais tempo com a família.


"Quase não vejo meu papai!" :(

A meu ver, esse problema é grave porém não o maior. Digo, no que diz respeito o número de filhos que cada casal tem. Afinal, "fazer" o filho é fácil. Ainda que os casais só se encontrassem nos fins de semana, se quisessem ter filhos, eles teriam. Acho que outros problemas mais graves são: o altíssimo índice de abortos e de custo de vida (principalmente de educação).

Para quem vem de um país tão católico, é de assustar a naturalidade com que as pessoas falam em fazer um aborto na Coreia. A questão deles não é "se o feto já é 'gente' ou não", mas simplesmente se os pais já estão casados, se já têm dinheiro suficiente, ou se foi só uma escapulida. A lei aqui proíbe o aborto, mas ainda é fraca em coibir que eles aconteçam em larga escala.

Só para ilustrar a gravidade da coisa. Um dia eu conversava com alguns coreanos sobre esse assunto, perguntei a uma menina: "Se você descobrisse que está grávida de 2 meses mas não é casada, abortaria?". A resposta foi mais rápida que o Chapolim Colorado, sem titubear: "Claro!". Tentei questionar: "Mas você não considera um feto de 2 meses como um ser humano, para se descartar tão fácil assim?". "Ahn? É só um feto, não é uma pessoa ainda." Depois eu comentei também sobre uma reportagem que vi no Brasil mostrando os traumas emocionais nas mães que cometeram abortos, e que isso também é algo a se pensar. Algumas das meninas disseram conhecer alguém que já tenha feito um aborto, mas nunca ouviram falar de trauma nenhum por causa disso.


Foto do AsiaNews.it, que fala sobre como os abortos prejudicam a sociedade coreana

Outra coisa: não se vê propaganda de preservativo na TV, e mesmo nas escolas ainda é tabu. Pelo que andei perguntando, o uso da camisinha é quase nulo entre os coreanos e, portanto, o índice de gravidez indesejada que leva ao aborto é muito alto.

O outro motivo que leva os casais a terem menos filhos é o mesmo dos casais de classe média nas grandes cidades do Brasil: o alto custo de vida, principalmente de educação. Ao contrário do que se pensa, escola na Coreia não é de graça do jardim de infância ao ensino médio. Universidade, muito menos! O governo oferece educação de graça em alguns níveis (não sei exatamente quais) e há muitos programas de bolsas para bons alunos, mas em geral sempre tem que haver uma contrapartida da família. E como o nível educacional do país é alto, a competitividade aumenta, e os pais terão que pagar mais para seus filhos conseguirem competir no mercado de trabalho. É curso de inglês, japonês, chinês, matemática, música, natação, ginástica, cirurgia na pálpebra, no nariz, nado sincronizado, enfim... o que o menino puder fazer para se diferenciar, os pais devem pagar. Como é que você convence um casal a ter mais de um filho nessas condições?

O que tem segurado as pontas legal, e os próprios coreanos ainda não deram o devido reconhecimento, são as famílias mistas do interior do país. Geralmente são fazendeiros que se casam com mulheres vietnamitas (compradas?) e têm seus 3, 4 filhos. Seguram a onda também os estrangeiros que têm vindo em massa nos últimos anos para trabalhar ou que se casam e têm mais filhos que a média. Se você der um pulinho em Itaewon por exemplo, vai ver casais de indianos e muçulmanos com sua meia-dúzia de pimpolhos andando nas ruas.

Acho bom ver o governo sul-coreano finalmente acordando para a questão, mas vão precisar de muito mais esforço do que o "Ministro de Encontro de Casais" já tem feito. Se não tiverem sucesso, o bom é que vai sobrar emprego pros estrangeiros daqui a alguns anos.