Uma das primeiras coisas que notei ao chegar à Coreia em 2008 foi que o país é moderno mas não o quanto poderia realmente ser. O apego ao que é velho, em alguns pontos, faz os coreanos pararem no tempo quando podiam estar surfando alto no que há de mais novo no mundo tecnológico.

Vou dar um exemplo. Num país em que os produtos eletrônicos movem grande parte de sua economia, e que tem gerado grandes inovações (como as telas LED[bb], que consomem quase nada de energia), dá para acreditar que ainda oferecem tocador de fita cassete como opcional na hora de comprar um carro? E não oferecem só por oferecer: é porque ainda tem demanda! Isso mesmo. Se você vai num mercado aberto em Seul, vai encontrar DVDs, CDs e... muita fita cassete!


No Brasil, acredito eu, essa transição foi muito mais rápida. O pessoal não teve apego nenhum com as fitinhas, e até nas casas mais pobres do Brasil hoje em dia dá pra encontrar um CD player. Aqui na Coreia, como o poder aquisitivo médio é muito mais alto e os produtos eletrônicos muito mais baratos, não vejo motivo nenhum para continuarem usando tocadores analógicos. Só pode ser amor mesmo.

É óbvio que as novas gerações não caem nessa de fita cassete, mas caem em outras tecnologias retrógradas que eles nem sabem que são retrógradas. A mais comum - não sei se já ouviram falar - é um sistema operacional que se chama Windows XP, e também um navegador chamado Internet Explorer, mais especificamente a versão 6.0.

Nos anos 90, o governo fez um pacto com a Microsoft, e vendeu a alma do povo coreano para sempre. É a única explicação "lógica" que encontrei para tamanha dependência de um único sistema operacional e um único navegador com uma única versão. Se você tenta usar navegadores melhores, como o Firefox, ou sistemas mais estáveis, como o Linux ou Mac OS X[bb], os sites coreanos simplesmente piram. É tudo feito na base do ActiveX, sem democracia digital nenhuma. Ou você entra no esquema ou vira "uma voz que clama no deserto", como é o meu caso, que uso Mac, e do Juliano, que usa o Linux.

Um dia tinha um amigo coreano reclamando da lerdeza do computador dele. Não era a internet, porque a internet na Coreia é mais rápida do mundo. É realmente de assustar. Mas ele não conseguia navegar em três janelas do Internet Explorer ao mesmo tempo sem dar pau. Daí sugeri que ele usasse o Firefox. "Fire... quem?". "Firefox!". O cara nunca tinha ouvido falar. Baixou, instalou e ficou maravilhado com a rapidez. Nunca tinha pensado antes que pudesse existir uma alternativa para o inferno que ele vivia.

Uma semana depois eu perguntei: "E aí, tá gostando de usar outro navegador que não seja aquele Internet Explorer antigão?", e ele respondeu "Hmm, tive que voltar para o IE, porque o site da universidade não funcionou no Firefox...". E então fica tudo na mesma. Quem faz os sites, continua usando o ActiveX porque 99,99% dos internautas coreanos usam o Internet Explorer. E quem quer mudar não consegue, porque os desenvolvedores não se desenvolveram.

Na telefonia celular, a Coreia teve a "honra" de ser o único país da OCDE que ainda usa o sistema CDMA em vez do GSM, e fez o que pôde para impedir que telefones que não fossem da Samsung ou LG entrassem no país competitivamente. O iPhone, por exemplo, que já tinha chegado até em Uganda, só chegou aqui há dois meses.

O resultado disso é que a Coreia do Sul tem a internet mais rápida do mundo, um dos maiores potenciais de inovação de hardware, e um monte de tranqueira tecnológica pelo caminho.

Para se ter ideia do quão bizarra é a situação da Coreia no mundo virtual, esse é o único país democrático em que o Google não é usado como principal ferramenta de busca. Consequentemente, todos os outros produtos do Google e seus parceiros não têm muita presença por aqui. O Youtube hospedado na Coreia nem funciona! (a menos que você preencha um cadastro marrrdito lá). Sempre que quero subir um vídeo no Youtube, entro no site brasileiro, senão nem dá. E eu ficava me perguntando o porquê de tanto isolamento virtual. Será nacionalismo tecnológico?

Não encontrei respostas para todas as outras discrepâncias, mas andei investigando um pouco mais sobre o buscador do Naver e tentei compará-lo ao Google, já que ele oferece o serviço em coreano também. O resultado foi que o Naver não só traz resultados muito mais precisos, mas o seu layout também ajuda muito.

Eu fiz um teste buscando a palavra "Brazil" no Google e no Naver. O resultado do Google trazia no topo da página algumas imagens, depois a Wikipédia, depois alguns resultados na ordem que o Google julga mais relevante. O resultado do Naver, no entanto, trouxe, no topo da página, fotos do Brasil, informações gerais (população, capital, essas coisas), o hino nacional com um botão "play", um relógio com a hora na capital e a cotação da moeda brasileira no momento procurado. Mais abaixo vieram sites oficiais, blogues, filmes, músicas, livros e publicações acadêmicas, tudo dividido bonitinho. Se você procura o nome de uma música, já aparece tudo separadinho: a letra da música, o artista, o álbum, link para download... uma beleza!

Depois desse teste, posso dizer que se o Naver oferecesse serviços mais abrangentes no mundo todo, eu o escolheria como buscador principal. Então nesse ponto os coreanos pelo menos têm motivos para não se deixarem levar pela onda googliana. Mas nas outras brega-retrogredices, é mais bizarrice corena mesmo.