Muito cuidado ao convidar um coreano para fazer qualquer coisa! Pense muito se você vai ter dinheiro pra bancar o convite. Aqui na Coreia, quando se convida alguém para comer, ir ao cinema, a um jogo, qualquer coisa, quem paga é quem convidou. Isso mesmo! O famoso "fazer uma vaquinha" é coisa de brasileiro, e aqui é a exceção à regra.

Já me dei mal algumas vezes por não saber disso quando cheguei aqui. Lembro que uma vez, no ano passado, chamei o Yosep pra ir ao cinema, e o cara ficou feliz da vida. Daí veio me perguntar se podia chamar mais alguém, e eu disse "claro, ué!". E ele repetia "muito obrigado! muito obrigado!". Depois veio me dizer que na verdade queria chamar mais DOIS amigos, mas que estava preocupado comigo. E eu só dizia: "deixa logo de frescura e chama quem você quiser!!!". Quando ele percebeu que a esmola tava demais, perguntou: "mas você vai ter dinheiro pra pagar pra todo mundo?"

"Como assim?! Ficou maluco?", pensei. Cada um que pague o seu. Afinal era cada um mais liso que o outro. A gente faz umas graças dessas só com namorada ou amigo muito chegado, e mesmo assim se tiver dinheiro sobrando. Aqui não. Conheço nego que se endivida pra manter o status, e paga pra galera.

O lado bom é quando alguém te convida pra comer alguma coisa. Ô, maravilha! ^^ Principalmente se for mais velho: o cara paga tudo, é batata!

Mas ontem caí na armadilha de novo. Tava aqui no departamento até altas horas pra terminar uns trabalhos. Na sala de estudos estavam eu e mais uns dois chegados, e uma turma mais longe um pouco. Meu estômago roncando, todo mundo com fome, e ninguém falava nada. Não aguentei: "pessoal, vamos pedir uma pizza?". A alegria foi geral! Procurei na internet, e achei um delivery aqui perto. Promoção: 1 pizza era ₩12.000 e duas eram ₩16.000 (com uma coca incluída). Como tava com muita fome mas meio quebrado, já calculei duas pizzas e uns 5 milzinho pra cada.

Quando chegou a bendita, os coreanos não só não pagaram, como chamaram todo mundo que tava na sala pra comer junto e anunciaram "o Henrique é quem convidou!" e todo mundo aplaudiu e me agradeceu. E eu com aquela dor no bolso... ai, Jesus... logo esse mês que eu tô vendendo o almoço pra comprar a janta!

Às vezes me sinto o ser mais egoísta nessa Coreia. Mas aos poucos eu tô aprendendo. Quando se vai comer ou beber, você nunca se serve primeiro. Alguém tem que se levantar e servir a todos, um por um, e no final alguém tem que se oferecer para te servir. Sem esquecer de observar as boas maneiras com os mais velhos: segure sempre a garrafa com as duas mãos.

Na hora de pagar, se não teve ninguém que "convidou" ou se a conta for visivelmente cara, dá pra dividir de boa. E se você for o mais velho mas não tiver muito dinheiro, é bom torcer para que o coreano saiba que em outros países o sistema é diferente. Já teve coreano que não deixou eu pagar tudo, mesmo sendo mais novo, só porque morou nos Estados Unidos e sabe que o normal é rachar a conta.

E já que estamos falando de dinheiro, olha só a carinha do dinheiro coreano (won):



Para fins de comparação, ₩1.000 é como R$1. As moedas de ₩1 e ₩5 já nem são usadas mais, de tão insignificantes que seus valores se tornaram. Aqui na Coreia não houve os cortes de zero que houve no Brasil na época da hiperinflação. Mas o mais interessante é que até este ano, a nota mais alta que eles tinham era a de ₩10.000. Dá pra imaginar se R$10 fosse a nota mais alta no Brasil? Pois é. Às vezes eu tinha que sacar uma quantia alta e sair com aquele bolo na mão. Ainda bem que aqui é mais seguro, porque em terras tupiniquins esses bolos de notas são farejados de loooonge pelos assaltantes.

O motivo pelo qual não podiam fazer uma nota de valor mais alto, segundo o Juliano, é que a figura impressa nela é do Rei Sejong ("o Grande"), o cara mais idolatrado na Coreia. Foi ele que inventou o alfabeto coreano (hangul) para substituir os caracteres chineses. Portanto alguns acreditavam que não poderia haver um valor mais alto.

Porém, decidiram que precisavam fazer a nota de 50 mil wons, mas que personalidade usariam? Bom, ela finalmente saiu em junho, espia só:



Colocaram a foto de uma mulher! Sociedade moderna, não? Pois é, mas quando fui ler sobre o porquê dessa mulher, olha o que achei: "Seu nome é Shin Saim-dang, grande escritora e artista, também mãe de Lee Yul-gok (impresso na nota de 5 mil). [...] O Banco da Coreia afirma que ela foi escolhida pelo seu talento e porque ela incorpora os ideais culturais de ser obediente aos pais, devota ao marido e dedicada a educar seus filhos." (korea4expats)


Achei a justificativa meio estranha, mas bem coreana. Apesar de não corresponder muito à realidade da Coreia moderna, os "ideais" ainda são fortes. Até agora não consegui botar meus dedinhos na nota de 50 mirréis... Se eu conseguir, não convido ninguém pra sair! :D