O Juliano já tinha me avisado que isso aconteceria, mas não imaginei que fosse tão rápido.

(Parêntese introdutório para o comentário final: ontem tivemos um workshop, no qual uma professora canadense nos ensinou como fazer apresentações e discursos num ambiente internacional. Além de todas as lições de retórica, ela mencionou a importância de se conhecer o público a quem se fala - sua cultura, religião, etc -, caso o grupo seja homogêneo. Lá pelas tantas, ela exemplifica com a cultura coreana, dizendo que, de acordo com uma pesquisa, ocupa o segundo lugar em nível de hierarquias nos tratamentos interpessoais. Até aí tudo bem. O problema foi quando ela continuou: "...ficando atrás apenas do Brasil." Parêntese fechado temporariamente.)

Ainda ontem, uns 10 alunos do departamento, incluindo eu (foto abaixo), recebemos uma mensagem no celular convidando para jantar com os professores Kwak e Bae. Graças a Deus (que é brasileiro) fomos a um restaurante comer samgyeopsal, que é o churrasco coreano, o qual não tenho frescura nenhuma pra comer - muito pelo contrário.

Para evitar delongas, vou resumir: os professores enfiaram soju na galera! (soju, pra quem não sabe, é a "cachaça" coreana... não tão forte quanto, mas faz muito estrago!) E assim que saímos do restaurante, quando a coreanada tava toda alegrinha, alguém solta a típica: "E agora, vamos pra onde?". Já eram quase 11h da noite, numa quarta-feira, e todo mundo tinha que acordar cedo no dia seguinte. Quando um coreano sai pra beber, ele sai por rounds, pulando de um bar ao outro, até se estribuchar num noraebang e chorar as mágoas com os amigos.

Eu já tava pingando de sono, doido de vontade de ir embora, mas quando o professor Bae me pegou pelo pescoço dando uma gravata (!) e me chamou pra tomar cerveja com ele, só lembrei da frase do mestre Junho, que me ensinou: "Quando um professor te chamar pra beber, jamais rejeite o convite!".

Acabamos ficando até muito tarde no outro bar, e todo mundo ficou sabendo de tudo da vida de todo mundo. Os professores me perguntaram sobre assuntos que abrangiam uma gama enorme, de Lula a namoro.

Hoje de manhã eu tava quebrado, e os professores novinhos em folha. DNA de soju é fogo.

(Parêntese conclusivo (ou não): Isso tudo me fez pensar sobre a questão da hierarquia. Desde que cheguei na Coreia, se tem uma coisa da qual nunca tive dúvida foi essa: aqui o respeito aos mais velhos e às autoridades vem antes de qualquer coisa. Quando a professora canadense citou a tal pesquisa dizendo que o Brasil é o país com o maior nível de hierarquias, eu me segurei para não atrapalhar a palestra, mas no final tive que chamá-la num canto e questioná-la quanto à credibilidade daquela informação. Ela ficou de encontrar a fonte com o estudo detalhado e me passar.

No entanto, quando vi o nível de informalidade e abertura dos professores, que são tratados com toda a reverência na Coreia, fiquei com a pulga atrás da orelha. Quando se bebe com alguém mais velho aqui, existe uma série de procedimentos que você não pode esquecer, como segurar o copo com as duas mãos, virar para o lado quando beber e servir a quem te serviu de volta. E como pode o cara abrir a vida dele pra você assim, na boa? E ainda te dar um peteleco e falar "esse é o cara!".

Não consigo deixar de pensar também em como nós, brasileiros, nos orgulhamos de toda a nossa irreverência e informalidade, e mantemos uma sociedade altamente estratificada, na qual uma parcela grande das classes média e toda a classe alta tem empregados domésticos que recebem uma merreca e na maioria das vezes não têm nem carteira assinada.

E como é interessante a maneira como os políticos, os megaempresários e os profissionais liberais super bem-sucedidos brasileiros dizem não gostarem de cerimônias e se achegam ao povo, mas a maioria deles não sabe viver sem um subalterno na altura do seu calcanhar.

A irreverência do povo brasileiro só serve para relaxarmos enquanto esquecemos que a hierarquia de classes é grande, profunda, e escraviza os que estão por baixo.

Talvez a pesquisa esteja certa. Talvez...

Fecha parêntese!)