Não canso de dizer o quanto me sinto seguro na Coreia. Esqueçam que a Coreia do Norte existe. Estou falando da segurança pública interna da Coreia do Sul. Brasileiros não são os melhores para medir a real sensação de segurança de um país, porque nos acostumamos com a guerra silenciosa que faz com que fechemos o vidro do carro, construamos muros mais altos, cercas elétricas, grades, alarmes, e nos preocupemos sempre com o horário em que podemos andar sozinhos pelas ruas.

Quanto a isso, que fique claro: eu adoro a Coreia. Ando pra todo lado em paz.

Mas há outros tipos de violência que são culturalmente aceitos aqui, e esses me assustam, e muito. Vou contar alguns casos do Yosep para ilustrar.

Antes que pensem que vivo fofocando sobre a vida dos pobres coitados que não conseguem ler em português, saibam que o Yosep, como muitos outros personagens aqui citados, estão cientes das histórias que aqui são escritas. Menos aqueles dos quais falo muuuuito mal! ^^

Pois então. Outro dia ele foi pra sua cidade natal, Daejeon, para fazer um estágio de um mês. Como ele estuda Educação Física, o estágio consistia em dar aula pra uma molecada de uns 12 anos durante esse tempo. Um dia, ele pegou um menino fumando (os coreanos fumam horrores!) e mandou ele jogar o cigarro fora, dizendo que estava proibido fumar, e ai dele se o pegasse "pitando" de novo. Dia seguinte: o coitado do menino (o mesmo) teve a infelicidade de ser flagrado pelo Yosep fumando de novo. Não teve perdão. Ordenou ao menino que ficasse de quatro no chão, e começou a chutá-lo com força, até que ele não aguentasse mais, para aprender a não desobedecer.

Quando ele me contou essa história eu fiquei de queixo caído. Afinal o Yosep é um rapaz bom, de bom coração, não imaginei que fosse capaz disso. Contei a ele que na maioria dos países ocidentais esse tipo de punição nas escolas já foi adotado antes, mas hoje em dia em quase todo lugar isso é crime, pelo menos no papel. Até os pais podem ser presos se baterem demais na criança. Ele viu que eu estava surpreso com a história e começou a dizer: "Eu juro que na Coreia isso não é crime! Eu não sou criminoso, acredite em mim!". E depois se justificou: "Não existe nenhuma outra maneira de ensinar uma lição se eles não sentirem na pele."

Depois de muita discussão sobre o assunto, sosseguei um cado e vi que é perda de tempo discutir esse tipo de coisa tão fervorosamente. Então outro dia estava lendo o blogue Stuff Korean Moms Like (Coisas de que Mães Coreanas Gostam), e caí numa postagem sobre punições que as mães coreanas (e pais, claro) aplicam em seus filhos. O blogue está em inglês, e é escrito por uma coreana-americana, de uma maneira divertidíssima, mas que mostra muito da realidade da Coreia.

Lembrei desse blogue hoje, quando estava jantando com o Yosep, e ele me contou sobre as coças que já levou dos seus pais. E por ser o primogênito, ele apanhava por tudo o que fazia, pelo que não fazia, e pelo que não impedia que seu irmão mais novo fizesse. Ou seja, o cara levou surra a vida inteira. E não eram surrinhas bobas. Eram surras "criativas", com os mais diversos materiais, de vara de bambu a cordão de metal, dos pés à cabeça. Isso explicou uma boa parte da naturalidade com que ele falou da punição que aplicou no aluno que fumava. Imaginando isso em larga escala, pode-se explicar parte da pressão psicológica que os jovens sofrem, muitos dos quais põem um ponto final com o suicídio, que é muito comum na Coreia.

Olha, vou dizer. Eu fui um menino muito "peralta" (tinha tempo que não ouvia essa palavra) na minha infância. Minha mãe que o diga! E confesso que apanhei muito, e merecidamente. Bom, teve alguns casos em que eu poderia ter recorrido... hehe. Mas no geral, apanhei justamente. Só que não me lembro a última vez em que meus pais me puniram fisicamente. Talvez a última vez tenha sido quando eu tinha uns 11 anos. Depois disso, eles usaram outros tipos de punições, com muita conversa. E é isso que me assustou mais ainda: o Yosep, que tem a minha idade, disse que apanhou da mãe dele semana passada, porque ele se recusou a fazer algo que ela pediu. Isso me gerou sentimentos confusos, porque a mãe dele é um doce de pessoa, e vive mandando mensagens para seu celular dizendo o quanto o ama.

Tem muita coisa que gostaria de escrever sobre o assunto, mas esse texto tá ficando longo demais. Resolvi escrever mais por indignação com as histórias que acabei de ouvir do meu amigo coreano. Não pretendo generalizar e dizer que todas as famílias coreanas sejam assim. Quero apenas mostrar uma tendência, e alertar para o fato de que muitas leis aqui são primitivas. Para se ter ideia, aqui ainda existe pena de morte por enforcamento para determinados crimes.

Sei também que esse assunto gera reações diversas. Alguns vão dizer "É por isso que o Brasil está nessa situação de calamidade, porque ninguém é punido". Mas não acho que a segurança pública a custo da segurança psicológica e mental coletiva valha a pena. Outros países que têm baixos índices de violência e severas leis contra violência física mostram que existem soluções mais bem elaboradas do que simplesmente treinar uma população a pensar que tem sempre que doer (e muito!) na própria pele para se criar um cidadão numa sociedade mais segura.