A publicação dos diálogos íntimos - dentre os quais um sobre o não-uso do papel higiênico por algumas culturas - gerou reações diversas, de risadas a ânsias de vômito. Então resolvi explorar o assunto um pouco mais, após uma semana ausente no blogue.

Aqui na Coreia, graças a Deus, todo mundo usa papel higiênico. Aliás, usam muito mais que no Brasil. Isso porque os coreanos não distinguem muito o papel higiênico do guardanapo, o que torna comum encontrar rolos dele em mesas de restaurante. Lembro que no início eu estranhava muito. Mas depois, pensando bem, vi que é apenas uma diferença no formato do papel, e algo ao qual não deveríamos dar tanta importância. A menos, claro, que o MESMO rolo de papel higiênico saia do banheiro e vá direto limpar as boquinhas ao redor da mesa, como a amiga chinesa da Érica fez em Newcastle.

Nosso amigo eslovaco Milo, admirando o rolo de "guardanapo" pendurado acima das mesas da nossa barraca no Festival da Universidade de Cheongju

Já em outros países, em sua maioria asiáticos, o uso do papel higiênico (como papel higiênico mesmo) é coisa rara. No diálogo publicado aqui há duas semanas, quem revelou essa maravilha da Ásia foi Delwar, nosso amigo bengalês. Depois daquilo, eu fiquei com a pulga atrás da orelha e, confesso, cheio de preconceitos. Para quem não sabe direito da história, vou resumir: em Bangladesh não se usa o papel higiênico para limpar o fiofó depois de colocar os moreninhos pra nadar. Eles limpam com a mão esquerda e depois a lavam.

Dizem que é assim. Mão esquerda para os trabalhos sujos, mão direita para cumprimentar e comer, porque também não usam muito os talheres. Mas daí surgem algumas questões:
1) Como a maioria deles têm as unhas grandinhas, não agarram uns coliformesinhos fecais debaixo delas?
2) Quando cozinham a comida, será que usam só a mão direita?
3) Como é que eles fazem nos banheiros públicos, onde a distância entre a privada e o lavatório é relativamente grande? Saem desfilando pelo banheiro com cocô na mão?

Ao contrário do Juliano, que disse que não pretende desvendar esse mistério, eu fui à procura de respostas. Como tinham me falado que isso era coisa de muçulmano, fui conversar com o Yusran e a Nadiah, meus dois amigos malásios e muçulmanos, e com quem tenho liberdade para conversar sobre tudo, inclusive sobre o processo de limpeza das regiões abissais.

Aí vai a conversa.

Eu: "Vocês não usam papel higiênico para limpar a bunda, certo?"
Yusran e Nadiah: "Certo."
Eu: "Então como é o processo?"
Yusran: "Todo banheiro na Malásia tem uma mangueirinha do lado. Eu tiro o 'grosso' com a mão esquerda, e depois lavo tudo com a mangueirinha."
Eu: "Mas no dormitório não tem mangueirinha e o lavatório fica de fora do banheiro. O que você faz?"
Yusran: "Levo uma bacia de água pra dentro do banheiro."
Eu: "É verdade que os muçulmanos fazem isso porque a religião proíbe o uso do papel higiênico?"
Nadiah: "De maneira nenhuma. É apenas cultural. No nosso país, achamos nojento quando ouvimos dizer que no ocidente se usa apenas o papel para limpar. Achamos que não fica tão limpo assim."
Eu: "Bom, às vezes a gente usa não só o papel. Muitas casas têm uma coisa que se chama 'bidê'. Mas a menos que você seja um urologista, nada de mão no fiofó."
Yusran: "Você acha estranho a gente não usar papel?"
Eu: "Imagina! Estou adorando essa experiência multicultural."

Alguns dos países asiáticos onde o papel higiênico não é muito usado, de acordo com minha pequena pesquisa entre os KGS aqui de Cheongju: Índia, Bangladesh, Indonésia, Malásia, Laos e Vietnã.