Devido à minha insensibilidade, acabei não dando tanta importância à morte do ex-presidente sul-coreano Roh Moo Hyun (no governo de 2003 a 2008). Eu pouco sabia a respeito dele, e quando li no Kimchi com Café que ele se suicidou e que sua administração está sendo investigada por causa de um esquema de propinas, pensei que seria um político logo esquecido.

Qual não foi minha surpresa nesse domingo, quando vi nos parques de Cheongju vários "velórios" em homenagem ao ex-presidente. E com muita gente chorando mesmo! E nesta semana teríamos o festival da Universidade de Cheongju, inclusive com a nossa barraca de comida latino-americana, mas o festival foi adiado porque o país está de luto oficial por 7 dias.

Eu, que muitas vezes perco boas chances de ficar calado, quando soube que adiaram a festança por causa da morte do ex-presidente, falei com a professora: "Só por causa disso?", ao que ela arregalou os olhinhos puxados e disse "Mas é claro! Temos que mostrar respeito aos nossos líderes!". Depois me perguntou se no Brasil não fazemos o mesmo e eu disse "Que nada! Morte de político, ainda mais corrupto, é motivo de festa...". E também que "no Brasil tudo é motivo de piada, que a gente ri pra não chorar". Ela ficou chocada, tadinha.

Depois, cá com meus botões, eu parei para pensar na bobagem que falei. Desde 2003, o governo Lula já foi investigado várias vezes, com vários "companheiros" sendo desligados por irregularidades. E ainda assim, com seus magníficos 70% de popularidade, se o Lula morresse hoje, o Brasil pararia, sem sombra de dúvida. Se bobear, viraria feriado nacional. Dia do Lula.

Nem precisa ter tanta expressão nacional (e nem a ficha tão limpa): lembro-me que quando o Antônio Carlos Magalhães morreu, a Bahia chorou durante meses e o cara quase foi beatificado.

A história de vida de uma pessoa não pode ser desprezada tão facilmente. Roh Moo Hyun, antes de seguir a carreira política foi ativista que lutou pelos direitos humanos na Coreia durante muitos anos. Em seu governo, além de reformas no sistema tributário, educacional e de distribuição de renda e desenvolvimento igualitário para as regiões mais pobres, Roh Moo Hyun também deu continuidade à política "Raio de Sol", que buscava reconciliar as duas Coreias, enviando todo mês ajuda incondicional aos pobres da Coreia do Norte - política essa que teve um fim já no primeiro dia do governo do atual presidente, Lee Myung Bak.

Não sabemos os reais motivos que o levaram a cometer suicídio. Tudo leva a crer que, se ele se matou por causa das investigações, é porque tinha culpa no cartório. Por outro lado, sua atitude demonstra que se envergonhou do que fez. O medo da vergonha, para seu próprio nome e para a família, é algo comum por estas bandas. E artigo de luxo para os políticos brasileiros: "vergonha na cara".