Todo mundo está cansado de saber que a Coreia do Sul conseguiu deixar de ser um país miserável e destruído pela guerra e passou a fazer parte do rol de países desenvolvidos, em grande parte, graças aos investimentos maciços na educação básica. Foi uma revolução pela educação.

Muitos defendem que países como o Brasil devem copiar o modelo coreano, exatamente como ele é, e eu discordo disso pelas implicações práticas na vida dos estudantes coreanos.

Citando o grande poeta Gustavo Teles, "coreano não vive; coreano respira". E receio que tamanha filosofada faça sentido para a vida dos pobres coreaninhos, desde o primário até a universidade. Mas talvez seja uma situação agravada no ensino secundário (고등학교).

Hoje, por exemplo, fui para a minha querida aula de yoga. Ela começa às 9h e termina às 10h da noite, mas sempre ficamos lá depois da aula tomando chá e batendo papo com a turma. Mas sempre tenho que ficar de olho no relógio, porque aqui no dormitório da Universidade de Cheongju tem o limite de horário de 11h pra gente entrar. Depois disso a porta tranca automaticamente. E tranca mesmo! Já tentamos reclamar, pedimos mais flexibilidade... que nada. Com os estrangeiros eles até são mais "legais". Podemos dormir de fora do dormitório se quisermos. Já com os coreanos, o esquema é uma mistura de jardim de infância com exército. Às 11h da noite eles têm que fazer fila na porta dos quartos para o supervisor checar se ninguém fugiu.

O argumento que a universidade usa é que os pais desses alunos fazem uma pressão enorme para que eles tenham controle total na vida de seus filhos, para que não percam tempo se divertindo, e tão somente estudem.

Voltando à aula de yoga. Quando terminou, Agatha e eu resolvemos chutar o balde do limite de horário, e saímos com o professor e outras meninas que fazem aula com a gente, para comer bossam (보쌈), uma espécie de churrasco coreano com carne de porco, parecido com samgyeopsal (삼겹살). Na saída, eram umas 11h da noite, vimos várias coreaninhas de uniforme voltando para casa. O professor disse que são alunas do terceiro ano do segundo grau, e eles geralmente estudam de 7h da manhã às 11h da noite.

Valeu a pena termos chutado o balde, porque conhecemos uma outra região de Cheongju, chamada Geumcheon-dong (금천동), onde há muitos bares e até um esquema para "jogar" baseball com aquelas máquinas que atiram as bolas e o pessoal fica rebatendo. Divertidíssimo.

O problema foi quando voltamos para o dormitório. Era cerca de 1h da madrugada, acho. A Agatha conseguiu convencer a ajumma dela lá a abrir a porta. Mas o ajoshi do dormitório masculino nem aqui estava. Tive que improvisar pela segunda vez nessa semana. Na segunda eu tinha atrasado também e tentei de tudo para entrar. O Orhan tava tentando me ajudar a passar pela grade da varanda do primeiro andar, porque viu uns coreaninhos fazendo isso. A diferença é que os bichinhos não têm a poupança que eu tenho. Meu corpo todo passou, menos a bunda. Ai ai ai. Tentei escalar para a varanda do segundo andar e deu certo! Os coreanos colaboraram e deixaram eu passar pelo apartamento deles. Mas isso foi na segunda. Hoje os coreanos não quiseram colaborar. Estavam dormindo ou fingindo que estavam dormindo, porque as luzes estavam acesas. Bati na porta da varanda deles e nada...

Já estava procurando um lugar macio na graminha do jardim, quando o Luis teve uma ideia brilhante.

"Entra pela janelinha da escada, no segundo andar!", sugeriu.

"Mas não tem como escalar, a parede é lisa!"

"Peraí."

De repente, cai uma mangueira na minha frente. O cara pegou a mangueira de incêndio para servir de corda! Escalei pro segundo andar, onde tinha mais 4 amigos nossos puxando a mangueira na operação de resgate. E quando fui passar pela janelinha, minha calça agarrou e cai de cueca e de cabeça pra baixo.

Por que eu estou contando tudo isso?

É que, apesar da comédia que isso gerou, eu estou indignado com a rigidez do esquema coreano com seus estudantes. Ainda mais se pensarmos que aqui não é uma escolinha. É uma universidade, e todo mundo é maior de idade, e ainda assim somos tratados como bebês, robôs, coreanos. Os próprios coreanos concordam que o sistema é muito cruel com os mais novos, mas na cultura deles, ninguém aprende a reclamar. Não se tem o hábito de questionar decisões superiores. Então vai assim... a meninada se mata de estudar, para conseguir um emprego para se matar de trabalhar, para, quem sabe, se aposentar bem e poder curtir a vida que lhe resta.