Só Deus sabe os momentos que deixei de registrar com minha quase-fiel companheira câmera fotográfica. Apesar do zoom de 10x que eu adoro nela, às vezes dá preguiça de andar com aquele trambolho pendurado no pescoço.

Acabei presenciando cenas típicas da universidade coreana (foi o que me disseram), e não posso compartilhá-las com vocês. Mas posso tentar descrever, e acreditem se quiserem. Claro. (A foto abaixo foi tirada em um dia atípico e corresponde a, digamos, 15% do que vou descrever).

Nas últimas semanas estava tendo eleições para presidente da associação dos estudantes da universidade. E as campanhas para atrair os eleitores foram, no mínimo, interessantes. Um grupo de cerca de 10 estudantes, de terninho e gravatinha fina estilo anos 60 (coisa de coreano), com uma caixa vermelha nas costas, ficavam parados perto dos restaurantes na hora do almoço (para quem viu o vídeo, é no mesmo lugar onde joguei "Kawi-Pawi-Po"). Subitamente eles começavam um coro uníssono e esgüelado* (*esse trema cai de vez a partir de janeiro de 2009, fiquem atentos), parecendo grito de guerra, mas era apenas um convite para votar. Quando terminavam a ladainha, se curvavam. Foi assim durante a semana toda, mas algumas vezes tinham mais dois coreanos, um de cada lado, com um avental verde. Quando terminavam o grito formal, eles simplesmente começavam a dançar uma coreografia que misturava clássicos como "ciranda-cirandinha" e "a dança da bundinha". A minha descrição deixa muito a desejar, porque só vendo mesmo para crer o que esses coreanos são capazes de fazer. É uma coisa curiosíssima, porque em quase tudo na Coréia a gente vê a combinação perfeita do ultramoderno, formal e brega. Ontem lá estavam eles de novo, pedindo voto. Passei em frente na hora do almoço e me espantei: algo novo. Desta vez os engravatadinhos tinham um coitado amarrado no meio, preso pelos punhos e pelo pescoço, como os condenados de desenho animado. Não entendi o porquê, mas tudo bem.

Aliás, só abrindo um parênteses, aqui eu sinto que vivo num desenho animado ou no Super Mario. Além das árvores de pelotinhas que você vê em todo lugar (como a da foto), tem também gente vestida de boneco cabeçudo em tudo quanto é canto, fazendo propaganda de alguma coisa. É como se o Zé Gotinha estivesse em todo lugar!

Voltando às eleições. Hoje saiu o resultado e os vencedores estão comemorando. Armaram um palco no meio da rua, dentro do campus. Não teve discurso nem nada do tipo, apenas apresentações esquisito-engraçadas que só mesmo vendo pra crer no nível de ridicularidade que eles conseguem chegar. Não estou criticando negativamente, porque morri de rir e adorei, e também porque quem me conhece sabe que quando resolvo bancar o ridículo não fico muito atrás. Mas olha só: hoje a temperatura ao meio-dia estava por volta de -1C. Subiram no palco cinco meninas de minissaia para dançar "I want nobody but you" (o título é em inglês, mas a música é coreana). Elas deviam estar congelando para pagar um mico daqueles. E quando terminaram, cinco rapazes engravatadinhos subiram. Parecia ser coisa séria. Mas que nada! Tiraram seus terninhos e por baixo o que tinha...? Fantasias de Power Rangers, ou Changemen, ou Flashmen, seja lá o que for! E dançaram a mesma música das meninas, numa versão mais acelerada, batendo na bunda e dando pulinhos dos mais emboiolados possíveis. A Oana estava comigo e outros estrangeiros desapareceram. Ficamos lá, chorando de rir, e duvidando do que víamos! E onde estava minha câmera para gravar?! Argh!

Acabo de perceber que essa palhaçada toda, apenas sendo contada, não tem graça nenhuma.

Ah, e já que falamos em eleições, aqui vai outra novidade: os estrangeiros (bolsistas KGS) tinham que eleger um líder para representá-los aqui na universidade. Adivinha em quem votaram? Pois é: fui eleito representante internacional dos 40 e poucos estudantes estrangeiros que estão aqui em Cheongju! E quando deram o "resultado" (o processo eleitoral todo durou uns 20 minutos), tive que fazer um discurso. E como eu estava nesse clima de "ridiculismo", acabei me inspirando no Barack Obama e fiz um discurso-imitação baseado nele. Só sei que o pessoal se divertiu tanto que no final tava todo mundo gritando junto "Yes, we can! Yes, we can!".

Agora vocês têm um líder brasileiro na Coréia. Chique hein? Só me resta saber o que é que eu preciso fazer.

Aquele abraço!