A pergunta que mais ouço (ou leio) ultimamente é: "E aí, já tá falando alguma coisa em coreano?". Vez ou outra um mais ousado aparece com um "Já tá fluente em coreano?". Então vamos esclarecer. A resposta para a primeira pergunta é um grande e claro "SIM!". "Alguma coisa" a gente já começa a falar a partir do momento em que se sabe dizer "olá" e "tchau" em qualquer língua. Já a segunda pergunta é maliciosa. Se souberem de alguém que saiu do conhecimento zero e em pouco mais de um mês de aula ficou "fluente", passem-me o nome da escola, por favor. Devido a tais perguntas e ao fato de que pouco se sabe no Brasil sobre a Coréia e sua língua, vou falar um pouco sobre minhas impressões enquanto pequeno lingüista.

Gramática

Esqueça quase tudo que você sabe sobre a ordem das palavras e a conjugação dos verbos. Aprender coreano, talvez por ser a primeira língua não indo-européia que estudo, tem sido um desafio e tanto. Preciso passar por uma lavagem cerebral e me livrar de influências "malignas" que as outras línguas me trazem. Não digo mais "Eu estou indo para a escola" mas sim "Eu escola para ir" (저는 학교에 가요). E nem mencionei as "partículas voadoras". Para cada função do substantivo (sujeito ou objeto) é necessário que haja marcação. Além das diversas formas de tratamento, que são adicionadas ao verbo ou adjetivo, dependendo de com quem se fala. Vamos aportuguesar para ver no que dá.

Eu estou indo para a escola
Eu(neun) escola para ir(yo)
저는 학교에 가요
*neun = marcação de sujeito, yo = forma de tratamento educada informal

Eu estou indo para a escola
Eu(neun) escola para ir(mnida)
저는 학교에 갑니다
*mnida = forma de tratamento educada formal

Só para se ter uma idéia de por onde a coisa vai, vamos aumentar a oração (ou reza, caso prefira):

Eu estou indo para a escola e vou estudar coreano.
Eu(neun) escola para ir-e coreano(leul) estudar (kess-eumnida).
저는 학교에 가고 한국어를 공부하겠습니다
*leul = marcação de objeto, kess = partícula de intenção/futuro

Enfim, não vou me estender mais que isso, até porque estou fazendo comparações muito grotescas. Vamos a outra parte, muito dramática.

Pronúncia

Só agora entendo quando, no meu primeiro período na FALE-UFMG, o professor Lee, coreano, em uma aula de Introdução aos Estudos Lingüísticos, disse que só aprendeu a pronunciar o próprio nome corretamente depois que entrou para a universidade na Coréia.

As vogais até que são tranqüilas de se pronunciar, para um falante brasileiro. Com exceção da vogal mais zero-à-esquerda que existe (depois do schwa). O símbolo que a representa no coreano é apenas um risquinho horizontal: "ㅡ" e é romanizado como "eu". Mas a pronúncia é difícil para mim, porque você faz língua de "u" e boca de "i". Som parecido com o que se faz no banheiro, quando se busca forças sobrenaturais para deixar o fluxo seguir seu caminho.

O problema mesmo está nas consoantes. Coreano tem um sistema que eu nunca havia visto antes. Pelo menos não pessoalmente. A grande maioria das línguas ocidentais tem um sistema binário de consoantes vozeadas e desvozeadas (s/z, p/b, f/v, t/d, ch/j, k/g). Se você fizer um teste com a mão no gogó vai ver que a única diferença de pronúncia entre os pares que citei está na vibração das cordas vocais.

Já no coreano as coisas não são tão elementares, caro Watson. Eles têm um sistema ternário que tira o fôlego de qualquer um. O "p", por exemplo. Tem o "ㅂ", que é um "p" fraquinho, meio vozeado, meio aspirado, quase que "b", mas não foi macho suficiente pra virar "b". Tem o "ㅃ" que é um "P" decididão. Vai lá e PÁ! Sem conversa. Parecido com o "p" de PÉ do português. Mas tem também o "ㅍ" que é um "pêzão" aspiradaço, sem vozeamento.

Então temos: ㅂ ㅃ ㅍ, todos soam como "p" pra gente. Mas nenhum que se vozeie e vire "B" de verdade. O mesmo se repete para as outras consoantes:

ㅂ ㅃ ㅍ (p, pp, ph)
ㄱ ㄲ ㅋ (k, kk, kh)
ㄷ ㄸ ㅌ (t, tt, th)
ㅈ ㅉ ㅊ (j, jj, ch)
ㅅ ㅆ (s, ss)

Teoria, beleza. Agora, na hora de falar, MEU AMIGO! Onde já se viu ter "S" forte e "S" fraco? E a professora teve coragem de dizer que são "completamente diferentes". Vai me desculpar. São diferentes, sim. Mas "completamente", não.

O bom é que vou na teoria de que novas áreas do cérebro são ativadas quando se aprende novas línguas. Vai ver tinha área empoeirada aqui na caixola, e que finalmente estão começando a funcionar.

Só mais uma coisinha. O sistema escrito do coreano não é como o chinês ou o japonês, que usam ideogramas. No sistema de ideogramas é necessário que se memorize muitos símbolos, pois cada ideograma pode representar uma palavra ou até mesmo uma frase. Coreano não. Aqui o sistema é como o nosso. Cada símbolo tenta reproduzir um som, que combinados formam as palavras. Só usam bolinhas e palitinhos diferentes dos nossos.

Até mais, pessoal!
안녕히 가세요!