Finalmente, depois de terminar as minhas primeiras provas, posso atualizar meu blog de maneira decente, sem ter que mencionar banheiros malucos ou chicletinhos nasais coreanos. A foto aí em cima foi tirada em Seul há duas semanas no Palácio Gyeongbokgung. O lugar não tem nada de muito especial, a não ser o fato de que é muito bonito e agradável de se passear. Presenciamos lá também o "aniversário do rei". É uma encenação do que acontecia no passado sempre que o rei ficava mais velhinho. Um grupo muito bom tocou umas musiquinhas enquanto o restante fazia os rituais para o rei. Os instrumentos antigos são muito interessantes e fazem um som bacana, mas confesso que tem hora que dá um sono que me traz à memória as aulas de literatura com o professor Braz Saturnino na época do colégio.

Parte da turma decidiu ficar em Seul de sexta para sábado, então o Alex, por ter uma namorada coreana, já conhecia a cidade e resolveu ajudar a gente a encontrar uma pousada. E, por ser o francês estereotipicamente mais francês que já conheci em toda a minha vida, tirou do bolso seu caderninho e saiu anotando o nome de todos que ficariam em Seul, fez lá suas contas, ligou daqui, ligou de lá, e tudo se resolveu. A minha surpresa foi que a pousada em que ficamos era tão barata, mas tão barata, que nem toalha tinha. E eu tinha sido o único a não levar toalha. Como ninguém ofereceu toalha nenhuma, tive que me virar. Lá estava eu, molhado no banheiro, procurando qualquer coisa que pudesse virar toalha. Tentei o papel higiênico. Enxuguei só o rosto. O corpo todo gastaria o rolo todo, que poderia fazer falta mais adiante. Vai a camiseta mesmo. E foi. Desde então, uma toalhinha, mesmo que de rosto, não sai da minha mochila!

E eu que pensei que não contaria histórias relacionadas a banheiros... Desculpem, a tosquice das minhas histórias é inevitável. Mais forte que eu!


Dia seguinte. Fomos para a Namsan Tower. Ao pé da torre você dá de cara com um mundaréu de cadeados que não tem fim. São cadeados com nomes de casais, que os prendem lá para simbolizarem a "eterna união". Ironicamente tem uma placa no local que diz: "Por favor, não joque a chave fora". Os mais fanfarrões devem ter uma coleção de cadeados com seu nome.

No mesmo dia nos separamos em três grupos que queriam fazer coisas diferentes. Uns foram fazer compras, outros foram ao Lotte World (tipo Disneylândia) e eu, Orxan, Galileo, Wilson e Hugo fomos ao Estádio da Copa do Mundo de 2002. A surpresa ruim foi que justamente naquele dia o estádio estava fechado para visitas, porque estavam arrumando o palco para um show que aconteceria. Mas do lado de fora havia várias telas mostrando cenas daquela Copa. O Orxan, que é do Azerbaijão e apaixonado por futebol e, como Azerbaijão não tem time próprio que o represente na Copa do Mundo, torce vorazmente pela Turquia, que, segundo ele, é a "mãe" do Azerbaijão. E, coincidentemente, na Copa de 2002 o Brasil enfrentou a Turquia duas vezes, numa das quais o Rivaldo mostrou a sem-vergonhice brasileira para o mundo e fingiu ter levado uma bolada na cara quando a bola na verdade tinha acertado seu joelho (na frente de quatrocentas câmeras). O juiz, que não suspeitou de nada, deu cartão para o turco e o time ficou prejudicado. O pobre do Orxan está magoado até hoje, pois acredita piamente que a Turquia teria sido a campeã do mundo se tivesse passado pelo Brasil. Mas lá estávamos nós, assistindo a "flashes" dos gols do Brasil em cima da Turquia. Seu coração azerbaijano se despedaçou. E eu lá, vibrando os gols! Ele só voltou a brincar comigo nesta semana, quando uma coreaninha estava conversando com a gente e perguntou de onde éramos. Cada um foi dizendo seu país, até que eu falei que era da América do Sul, pra ela adivinhar. Ela, nem chute deu. Dei uma dica: "o MAIOR país da América do Sul". Nada, coitada. Outra dica: "meu país é famoso por ser muito bom em FUTEBOL!". Ela fez cara de quem se lembrou: "Ah! Já sei! É a Argentina!!!". A comunidade latino-americana, que assistia à cena com o Orxan, riu até cair no chão. Fiquei desconsolado! Culpa do Dunga.


Essa foto aí em cima foi no último fim de semana, quando fui para Daejeon com o Yo Sep. Achei a cidade muito parecida com Cheongju, só que maior. Mas para mim o melhor mesmo foi ter a experiência de estar numa família coreana por alguns dias. Além de aprender várias expressões (como dizer "boa noite" e "bom dia" para os mais velhos, pois o tratamento é diferente), quebrei também alguns conceitos errados que eu tinha. O primeiro foi a respeito do cachorro. Sim, eles têm um! E para surpresa dos desinformados, não é para comer no almoço. Maltês, como a Sissy. Gente finíssima o cachorro. Chama-se Teng-chil-i e se deu superbem comigo! Os pais do Yo Sep me trataram como um rei! Comi até sair comida pelo nariz. E me fizeram um zilhão de perguntas sobre o Brasil e nossos costumes. Acham que sou o cara mais inteligente da face da Terra, só porque tenho bolsa pra estudar aqui, onde a educação é supervalorizada e almejada por todos. No final eu lhes dei uma orquídea como agradecimento (pois eles tinham uma área no apartamento só com plantas), e com uma plaquinha escrito 히키 (Rique), um dos meus muitos nomes na Coréia. A mãe dele me deu uma Bíblia Inglês/Coreano e na dedicatória assinou "sua mãe coreana". Agora, sempre que ligam pro Yo Sep, perguntam como é que eu estou!

Neste mundo fica sozinho só quem tem medo.

Até a próxima postagem!