Aviso. Na falta de criatividade, copiei o título acima de um post em inglês do LA Review Books. É que hoje me aconteceu algo que, na verdade, acontece sempre com os estrangeiros que vivem na Coreia, principalmente com os que falam coreano, por mais básico que seja. Algo que passa despercebido no cotidiano e acaba se tornando natural.

Eu me refiro ao fato da grande maioria dos coreanos, ao bater os olhos num gringo, inconscientemente deduzir que ele não fala coreano. É a programação automática do software deles: cara de gringo, língua de gringo. O resultado é: 1) se ele fala inglês, vai te abordar em inglês; 2) se ele não se sente confiante em relação ao inglês que fala, vai suar frio ao falar com você; 3) se ele não fala absolutamente nada de inglês, pode até evitar contato visual, não por discriminação racial ou coisa do tipo, mas por um pavor quase inato de passar vergonha por não conseguir se comunicar com você em inglês.

Parece contraditório, vindo de um povo que se orgulha tanto das suas origens, da reconstrução do país, da sua comida e cultura... mas que ainda tem um pouco de complexo de vira-lata em relação à língua. Não raramente ouço coreanos me perguntando por que eu meti nessa "furada" de aprender coreano, quando poderia estar estudando línguas mais "úteis" para ser bem-sucedido na vida. Simplesmente morar na Coreia não é uma resposta satisfatória, mas agora que sou casado com uma coreana, a justificativa está mais na ponta da língua e o curioso aceita o fato mais prontamente.

O que me aconteceu hoje não foi nada de mais: saímos para passear no parque, mas esquecemos de levar nossos gorros. Estava mais frio do que pensávamos. Foi uma boa desculpa para comprar dois gorros novos do camelô da esquina (esses da foto no título deste post). A Ji Young perguntou o preço: eram 12 mil wons cada. Daí perguntei: "혹시 두 개 사면 할인 안 돼요?" (Se a gente comprar dois não tem desconto?), ao que o cara se espantou e respondeu que estava aliviado por eu ter perguntado em coreano, porque já estava procurando as palavras na cabeça caso eu perguntasse alguma coisa em inglês. E completou: "Como você facilitou minha vida, posso fazer dois por 20 mil!"

Ou seja, para o vendedor, fui eu que facilitei a vida dele, não o contrário, caso ele falasse inglês. E não é que chego em casa, abro o Facebook e vejo alguém compartilhar o post que citei acima, justamente sobre esse assunto? O autor, no entanto, faz uma comparação entre as comunidades de estrangeiros que vivem na China, no Japão e na Coreia, chegando à conclusão de que os que vivem na Coreia são os mais mimados pelos locais, que não cobram deles - e muitas vezes até dificultam - ter um nível de coreano mínimo para comunicação. Já ouvi gente dizendo que japonês é mais fácil para falar, porém o que dizer sobre o chinês, que é mais difícil que o coreano tanto na pronúncia quanto na escrita?

A dica para quem vem para a Coreia para aprender coreano, portanto, é: imponha-se. Force a barra para falar coreano. Mostre sua determinação (obstinação?) para aprender essa língua. Mantenha-se firme quando rirem do seu sotaque, brigue com os atendentes que insistem em responder suas perguntas em inglês mesmo quando você as faz em coreano. Todos nós, estrangeiros que vivemos aqui, contribuímos um pouquinho para quebrar essa ideia de que é "estranho" para um coreano chamar um estrangeiro de oppa, nuna, hyeong ou eonni. De que a língua não é nossa. Meu amigo, a partir do momento em que você embarca nessa aventura, essa língua já é um pouco sua também - se não for de papel passado, que seja por usucapião.