Como você vai descobrir agora, esse post não é sobre comida. É sobre algo muito sério, mas ainda pouco discutido. Não pretendo aqui ridicularizar uma questão que diz respeito à intimidade de tanta gente, mas simplesmente abordar o tema de forma mais natural. Então lá vai.

Primeiro vamos explicar o trocadilho infame: a palavra para "pimenta" em coreano (고추) é usada também para denominar, carinhosamente, o órgão sexual masculino na infância. Seria como "pintinho", "piu-piu", "pipi", "pingolim", entre muitos outros. Pois bem, "cortar a pimenta" seria, então, nada mais do que fazer uma cirurgia de circuncisão.

Mas, você pergunta, por que falar sobre esse assunto? Bom, ele pode ser pessoalmente relevante se você pensa em 1) morar na Coreia e ir numa sauna (no caso dos homens), 2) namorar ou casar com um homem coreano, ou 3) criar seu filho (menino) na Coreia. Seja por mera curiosidade, questões pessoais ou bullying na escola (explicarei logo mais), esse é um assunto válido para se discutir.

Se você é menina e/ou nunca parou para pensar sobre circuncisão, aqui vai o basicão: trata-se de um procedimento cirúrgico para remover o prepúcio do pênis (a pele que cobre a ponta do bichinho). Esse procedimento é realizado normalmente por questões médicas (como, por exemplo, um caso de fimose) ou por questões religiosas (em particular para os judeus e muçulmanos). O mapa abaixo mostra a incidência dessa cirurgia por país (quanto mais vermelho mais comum).

Fonte: "Prevalence of circumcision", Wikipédia

Fonte: "Prevalence of circumcision", Wikipédia

Agora eu pergunto aos que não faltaram às aulas de História e Geografia: o que tem de estranho nesse mapa? Isso mesmo! A Coreia do Sul! Praticamente todos os outros países em vermelho são países de maioria muçulmana ou judaica (no caso de Israel). A Coreia do Sul é um dos poucos países em que a circuncisão é prevalente sem que haja o fator religioso. O coreano do Ask a Korean já abordou esse assunto em 2010 e chamou atenção para um fato ainda mais intrigante: o Confucionismo teve forte influência na cultura coreana, mas nesse ponto específico, a circuncisão indiscriminada vai diretamente contra o princípio confucionista de "manter o corpo exatamente como recebido pelos pais".

O motivo da prevalência da circuncisão na Coreia do Sul data de 1945, com o início dos laços militares com os Estados Unidos. Uma prática extra-oficial do exército americano era a de circuncidar todos os combatentes para facilitar a higiene em condições extremas e, assim, evitar doenças. Como praticamente todos os homens sul-coreanos prestam o serviço militar, essa prática se tornou uma regra não discutida, especialmente nos anos 60. De lá pra cá, virou senso comum entre os homens que eles precisam passar a faca na pimenta.

A circuncisão traz algum benefício? A resposta curta é: sim, se o homem tiver um problema específico que precise da cirurgia. Caso contrário, a resposta varia muito, porque depende das condições de vida no país. Países muito pobres e em que a educação e saneamento para higiene pessoal é mais difícil, a circuncisão pode evitar doenças de fácil prevenção. Não é mais o caso da Coreia do Sul, onde educação e saneamento já não são problemas faz tempo.

Outra forma de ver o assunto mais radicalmente é tratando a circuncisão indiscriminada como mutilação genital. Existem, inclusive, grupos que lutam contra a circuncisão de bebês por considerarem uma prática cruel e desnecessária, comparada à mutilação genital feita com meninas em alguns países e que causa muita revolta.

Alguns dados sobre a cirurgia de circuncisão também são de arrepiar os cabelos:

  • Adultos circuncidados na infância têm 5 vezes mais chance de ter disfunção erétil quando adulto;
  • 5,1% das cirurgias têm complicações graves;
  • A cirurgia pode tirar até 3/4 da sensibilidade peniana.

Qual é o agravante no caso sul-coreano? Na minha opinião, é o fato de a maioria dos sul-coreanos não fazer a cirurgia nem quando recém-nascidos nem quando adultos. Os pais mandam os filhos pra faca naquela idade entre 10 e 14 anos, tornando a experiência mais traumatizante, por não ter como fugir. Amigos coreanos já me contaram sobre essa fase da vida deles, alguns com histórias bem tensas, outros nem tanto.

Por que eu mencionei o bullying lá no início? Porque aqui na Coreia a nudez é lidada de forma muito natural, de modo que na escola e ao longo da vida o sujeito vai ficar peladão nas saunas e vestiários na frente dos amigos inúmeras vezes, e qualquer diferença na pimentinha pode ser motivo de chacota. É aquela coisa: ninguém quer fazer a cirurgia, mas depois que já fez, tira sarro de quem não fez.

A boa notícia? Com o acesso à informação nos dias de hoje, mais pais estão recusando a submeter seus filhos à circuncisão desnecessária. De acordo com um estudo médico de 2012, a porcentagem de sul-coreanos entre 14 e 29 anos que tinham sido circuncidados caiu de 86,3% (em 2009) para 75,8% (em 2011). A perspectiva é de que essa cirurgia se torne cada vez mais rara nos próximos anos, se continuar caindo nesse ritmo.

De forma geral, o problema da circuncisão na Coreia do Sul é o mesmo do parto por cesariana no Brasil. O que deveria ser a exceção se tornou a regra. Juntaram-se ignorância popular com interesses financeiros de médicos, os níveis ficaram elevados, e só nos últimos tempos é que as pessoas têm se mobilizado para reverter isso.