Antes que o leitor se sinta enganado pelo título, já aviso: a história não é tão dramática assim. Não tem professor vendendo o almoço pra pagar o jantar. Não tem professor apanhando de alunos violentos. Não tem professor apanhando da polícia. Não tem negociação humilhante para aumentar salários miseráveis. Não tem escola fechando.

Até porque não vou falar da educação básica, mas sim da minha situação, como professor universitário. Completo três anos de ensino de português na HUFS, mas estou saindo para sentar de novo na cadeira de estudante e desengavetar meu doutorado. Por isso achei que o momento merecia uma reflexão/desabafo.

Essa semana preciso fechar as notas dos meus alunos, e aí vem meu drama. As universidades têm um sistema de notas que considero extremamente infantil e cruel: o sistema de notas relativas. O que é isso? É um sistema que te diz a proporção de alunos "A", "B", "C" e "D" que você pode ter. Ou seja, as notas, na maioria dos casos, são fictícias e não correspondem à realidade. Você pode tirar 91 no semestre, mas ganhar um conceito "C" porque relativamente sua nota foi menor que o resto da turma. E também pode ganhar um "A" com 75 pontos, se você foi melhor que o restante. Ponto, aqui, serve só pra ranquear os alunos, mais nada.

Se você é um professor com um mínimo de sensibilidade, sente uma dor imensa ao dar as notas, porque: 1) aqui não tem universidade gratuita, e as bolsas são concedidas, em grande parte, pelas notas; 2) depois de formados, os alunos são selecionados pelas empresas que também consideram suas notas na faculdade; 3) a nota é um rótulo levado muito a sério na Coreia, o que pode incentivar mas também desestimular completamente um aluno com potencial.

E sabe qual é o efeito disso no ambiente universitário? Muita competição e pouca cooperação. Colega que dedura colega que não faz muito no trabalho em grupo. Movimentação entre turmas como cardumes fugindo de predadores na primeira semana de aula, de gente procurando as turmas com competição mais branda pra ter melhores chances de tirar "A". O aprendizado fica em segundo plano, porque o negócio é tirar nota boa.

Se você é um estrangeiro estudando numa universidade coreana, talvez isso passe um pouco despercebido, porque nas regras de notas relativas existem exceções. Uma delas é o aluno estrangeiro, que não entra na curva. Claro que a rigidez depende da matéria e do professor, mas em geral essa situação é bem mais tranquila para os estrangeiros.

Mas e aí, como é que a gente acaba com esse sistema? Meu amigo, só uma revolução estudantil. O que, num país sem movimento estudantil forte, me parece improvável. A mera decisão de uma universidade em eliminar o sistema relativo de notas não resolve nada, porque os professores também estão tão viciados, que muitos sairiam distribuindo "A" a torto e a direito. Afinal, mais "A", mais chance de conseguir emprego, certo? Nem tanto. As grandes empresas têm estatísticas de proporção de notas por universidade, assim eles podem saber se um "aluno A" de determinada universidade realmente é "A" ou foi generosidade demais dos professores. Chega a ponto de virar notícia do telejornal das oito: "Universidade X é acusada de inflacionar o número de 'A's"... Tá vendo como a mudança precisa ser mais profunda?

Então, agora que desabafei, deixa eu voltar aqui pro fechamento das minhas notas, rotular gente que não merece como "C", ouvir o choro e tocar minha vida.

Beijos, abraços.